Portugal: Quando ser campeão vale mais que um título

  • por Elcio Mendonça
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Foto: Divulgação/UEFA - Cristiano Ronaldo quebrou vários recordes nesta Euro

Foto: Divulgação/UEFA – Cristiano Ronaldo quebrou vários recordes nesta Euro

Não existe curto prazo no futebol de seleções. O menor período em que se pode trabalhar (com um planejamento organizado, é claro) é o ciclo de quatro anos entre uma Copa do Mundo e outra. Um trabalho de transformação, seja ele uma renovação ou de crescimento, precisa ir além disso. Como não se pode simplesmente contratar um jogador, é preciso formá-lo. E isso, obviamente, leva tempo.

Mas é o que permite que um pequeno país com pouco mais de 300 mil habitantes como a Islândia, por exemplo, possa chegar a uma quartas de final de Euro. Eles bateram na trave para virem ao Mundial do Brasil, mas alguém duvida que eles têm condições de irem à Rússia?

Às vezes o bom trabalho se resume a uma geração. Seja pela dificuldade na renovação ou por falta de planejamento. O grande desafio de qualquer país que não se encontra no hall das grandes seleções é ultrapassar essa barreira e ser competitivo por mais tempo.

Portugal teve duas grandes gerações que não transcenderam. A primeira, com Eusébio, Coluna e companhia, chegou à semifinal na Copa do Mundo de 1966, sendo eliminada pela anfitriã Inglaterra. Um time que tinha o Benfica, bicampeão europeu em 1961 e 1962, como base.

Foto: Divulgação/FPF - Eusébio levou Portugal à semifinal na Copa de 1966

Foto: Divulgação/FPF – Eusébio levou Portugal à semifinal na Copa de 1966

O segundo grande momento veio na década de 1980. Liderada por Chalana e Rui Jordão, a Seleção das Quinas chegou à semifinal da Euro em 1984, novamente sendo eliminada pelos donos da casa, dessa vez a França. Na sequência veio a classificação para a Copa, mas uma briga pública entre os jogadores e a Federação estragou os planos, e Portugal ficou na fase de grupos.

Mas os anos seguintes foram de empolgação O Porto foi campeão do mundo em 1987. Já em 1989 e 1991 veio o bi-mundial sub 20. E foi neste momento que a história do futebol português começou a mudar. A equipe de 91 revelou craques como Figo e Rui Costa. Ao todo, seis campeões mundiais estiveram no elenco semifinalista na Euro 2000, sendo quatro deles titulares (Abel Xavier, Jorge Costa, Figo e Rui Costa).

Era a melhor campanha lusitana desde 84. Mais do que isso, Portugal contava com Figo, que seria eleito o melhor do mundo no ano seguinte e tinha em Rui Costa um parceiro à altura. Também surgiram dois jovens empolgantes: Nuno Gomes e Sérgio Conceição, completando o bom ataque verde-encarnado.

O tempo passou, Figo entregou o bastão para Cristiano Ronaldo, mas os lusos provaram que não eram uma seleção de uma geração só. De 2000 para cá são duas finais e duas semis de Euro, além de uma semifinal de Copa do Mundo.

É bem verdade que a geração de CR7 não chegou ao patamar que se imaginava. Nani e Quaresma não explodiram como o gajo da Ilha da Madeira, assim como João Moutinho não se tornou um novo Rui Costa. Todos eles formados na base do Sporting, tida como exemplo global, ao lado de Barcelona e Ajax.

A Seleção das Quinas vive uma transição para uma terceira geração. Dessa vez não há um ícone como nas anteriores, mas a aposta no coletivo. Portugal nos últimos anos colocou suas fichas na formação, seja de profissionais fora do campo ou de atletas, e se tornou referência. Tem um centro para formação de treinadores da UEFA e uma vasta literatura científica específica para o futebol.

Foto: Divulgação/UEFA - Renato Sanches marcou o gol do empate diante da Polônia

Foto: Divulgação/UEFA – O jovem Renato Sanches (esq) é a revelação desta Euro

Além disso, soma bons resultados na base. Três titulares do time de Fernando Santos foram vice-campeões no Europeu sub 21 (que na verdade é sub 23 em sua fase final) ano passado (Wiliam Carvalho, Raphael Guerreiro e João Mário), sem falar da jóia Renato Sanches, de apenas 18 anos, que surgiu como um furacão e conquistou o seu espaço na equipe.

A expectativa é que esses atletas amadureçam e se desenvolvam para receberem outros jovens em breve, sejam do time olímpico, da equipe sub 20 (que tinha a melhor campanha do último Mundial até ser eliminado pelo Brasil na decisão por pênaltis nas quartas de final) ou, mais à frente, do time campeão europeu sub 17 neste ano.

É inegável que Portugal teve boas campanhas recentemente, mas falta um título para coroar o trabalho e assim poder se firmar como uma grande seleção. É preciso sair do quase, deixar de ser o time que incomoda, mas nunca vence. Conquistar esta Euro significa mais do que alcançar um patamar mais alto, mas, também, abrir um caminho para novas vitórias no futuro.

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Jornalista pós graduado em Gestão Aplicada ao Esporte e um doente por futebol. Trabalha atualmente como gerente executivo de esportes na RedeTV! e já passou por Esporte Interativo, Náutico, Portuguesa e Santo André.

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