Carlo Ancelotti, Bayern de Munich e o legado de Josep Guardiola

  • por Victor Mendes Xavier
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Foram três temporadas intensas. Desde que oficializou que Josep Guardiola seria o substituto de Jupp Heynckes, o Bayern de Munich, como instituição, viveu uma relação de amor e ódio com o catalão, seja dentro ou fora de campo. Sob a batuta de Pep, os Bávaros foram absolutamente dominantes em terras alemãs: o último Borussia Dortmund competitivo de Jurgen Klopp, o Wolfsburg de De Bruyne e o primeiro Dortmund de Thomas Tuchel não foram bons suficientes para quebrar a hegemonia do Predador. A verdade é que o Bayern de Guardiola teve etapas de reflexões, mas ao final despertou o interesse do mundo da bola e, sim, jogou um bom futebol, Em três anos, a interrogação de Pep sempre teve a ver com a Liga dos Campeões da Uefa.

Sobretudo após a acachapante goleada sofrida para o Real Madrid em 2014; um 7 a 0 em 180 minutos que colocou em xeque toda a qualidade tática de Guardiola e reabriu o eterno debate sobre a eficiência do tiki-taka depois de consecutivos fracassos (seja do Barcelona, da Seleção Espanhola ou de Pep). Um ano depois, o Bayern desfalcado de Alaba, Robben e Ribery segurava de maneira exemplar o Barcelona dentro do Camp Nou, quando Messi, em somente 20 minutos, resolveu ativar o modo alienígena e colocar a classificatória no bolso, com um 3 a 0 que seria difícil de virar na Baviera. Por último, um duelo de tirar a respiração contra o Atlético de Madrid de Simeone, onde o Bayern teve tudo nas mãos para se classificar, mas acabou sendo eliminado devido ao critério de desempate. Ao menos um título nessas três tentativas alçaria o trabalho de Pep a outro patamar, mas ele não foi possível. De qualquer forma, achar um substituto para o comandante não é uma tarefa fácil. Guardiola é um fenômeno midiático que entra na mente de jogadores, torcedores e até mesmo da imprensa de uma forma na qual somente José Mourinho pode ser comparado.

A sensação final que Guardiola passou a este que vos escreve (um fã incondicional do técnico espanhol) é de que ele foi crescendo e auto-corrigindo à medida em que adaptava-se à cultura do Bayern e do futebol da Alemanha. Seu primeiro Bayern foi um Barcelona vermelho: esteticamente, aquele time com Schweinsteiger de primeiro volante, Lahm de interior direito e Kroos de interior esquerdo foi o que mais se aproximou do Barça de Xavi e Iniesta. Jogava sob um ritmo baixo, com Kroos gerindo o jogo interior e muitas jogadas por dentro do meio-campo. O ano dois foi o da transição para o que seria o ano três. Guardiola sabia que várias peças do colossal projeto de seu antecessor (Bastian, Ribery, Robben – pelas lesões – e Lahm) formavam parte do glorioso passado. O espanhol precisava criar novos caminhos. E o fez. Seu terceiro e último Bayern foi o mais alemão possível, sem, essencialmente, abandonar seu estilo pessoal. Jogo de posição tipicamente guardiolista para se posicionar em campo e muita verticalidade e eletricidade para atacar e romper defesas. Foi o Bayern mais redondo, o time de Lewandowski, Müller, Alaba, Vidal e Douglas Costa.

Na Allianz Arena aterriza Carlo Ancelotti. O italiano encontra um grupo sedento pela taça da orelhuda, que ainda não entende como e por que não conseguiu levantá-la em três campanhas com o treinador que conhece a competição de corpo e alma. Em primeiro lugar, Ancelotti ostenta um currículo de primeiro nível. Tem créditos se houver falhas. Ganhou a Champions League como jogador e treinador, em times diferentes. Fará de tudo possível para estimular o elenco e ativar um entorno massivamente presente. Afinal de contas, oito anos lidando com Silvio Berlusconi é teste de paciência para qualquer ser humano. Também domina a convivência com os craques. Jogou com Falcão, Baresi, Gullit e van Basten; treinou Buffon, Zidane, Kaká, Pirlo, Shevchenko, Drogba, Ibrahimovic, Bale, Modric e Cristiano Ronaldo. É por isso que conhece o principal torneio de clubes do mundo de cabo a rabo: sempre domou vestiários que poderiam explodir a qualquer momento.

Foto: Site Oficial da Uefa | Boa relação com os craques: um dos segredos dos bons trabalhos de Ancelotti

Foto: Site Oficial da Uefa | Boa relação com os craques: um dos segredos dos bons trabalhos de Ancelotti

Por esse motivo o Chelsea o contratou em 2010, onde viveu uma experiência semelhante com a qual viveu no Real Madrid: fazer parte de um ambiente dominado, para o bem ou para mal, por Mourinho. Em ambos os trabalhos, respeitou o legado do gajo: utilizou métodos e conceitos táticos de Mou, imprimiu a sua marca, disseminou otimismo ao elenco e ganhou taças. No Chelsea, a Premier League; no Real, a tão sonhada La Décima Champions. Em Londres, levantou o troféu nacional contra todos os prognósticos, já que a verdade é que seu êxito em campeonatos de pontos corridos é pobre. À sua ordem, Paolo Maldini levantou um único Scudetto em oito anos. Na Espanha, perdeu a batalha para Simeone e depois para Messi, Neymar e Suárez. Definitivamente, Ancelotti não é “ligueiro”.

O porquê de Ancelotti ser anti-pontos corridos é resultado da fusão de três ingredientes: uma máxima, uma paixão e uma personalidade. Explico. A máxima é que todas as suas equipes devem ser impecáveis a nível defensivo. A paixão é a bola. Carleto busca controlar os jogos desde a posse de bola, os passadores participam com constância ao longo dos 90 minutos. Seu jogo é tão associativo e técnico que as formações de seus times, com frequência, podem ser taxadas de suicidas, porque Ancelotti não pensa duas vezes em juntar o máximo de craques possíveis. Ao dirigir Kroos, Ancelotti o recuou para primeiro volante, juntando-o a Modric e James Rodriguez. Primeiro volante foi a posição que Pirlo foi transformado com o italiano. A teoria mais básica e previsível é dizer que tais conjuntos têm tendência a perder equilíbrio. Faz sentido. Ao descobrir, em Paris, um onze inicial com Lucas, Pastore, Lavezzi e Ibrahimovic o que menos imaginávamos era uma fortaleza defensiva. Então, qual a mágica que Carleto utiliza para fazer com que escalações tão “desequilibradas” mostrem consistência top? Contagiando suas personalidades, o ingrediente três. Carlo não é um personagem. Suas expressões sempre frias e suas frases neutras são sinceras.

Esbanja sinceridade e seus grupos sentem isso, por isso o acolhem em todos os lugares. Suas equipes não gritam, são reflexivas e calculistas. Pensam mais que correm. Mantêm a bola como forma de controle, mais que de ataque. Salvo a raras exceções, jamais jogam num máximo ritmo possível. Se estão muito rápido, diminuem a frequência para uma instância normal; se estão normal, ficam lentos; se estão lentos, apenas se movem. Com Ancelotti, Pepe passou de um zagueiro cabeça quente para um zagueiro sereno, que mede os atos antes de querer antecipar todas as jogadas. Na Liga dos Campeões o estilo funciona de forma genial, porque nada o altera. Para um campeonato de 38 rodadas, contudo, custa pontos. Falta alegria.

Ancelotti assumiu o Real Madrid em junho de 2013, mas teve que esperar até janeiro de 2014 para ver traços de seu trabalho. A partir dali, com maior ou menor êxito, os blancos tentaram jogar em função do que representa o italiano: buscando controlar a partir do auto-controle. Assim como fez para frear o ímpeto de Marcelo, Di María, Bale e Cristiano Ronaldo, Ancelotti fará o mesmo com a base troncal do esquema de Guardiola no Bayern 2015/2016. Podemos esperar uma equipe que será a antítese da pressão, da agressividade e da energia, não importa a qualidade do adversário. É difícil ver um time de Ancelotti querer como principal obstáculo roubar a bola. Prefere proteger o espaço, juntar as linhas e esperar uma falha. É conservador inclusive para ser progressista: até os contra-ataques dos Ancelotti Team são meticulosamente pensados.

Não é que Ancelotti não sabe construir times de ritmo ofensivo extremos, é que não vale a pena perder solidez na retaguarda. Houve uma vez, no Real Madrid, em que Ancelotti tentou emular Guardiola (ou Bielsa). Foi num clássico contra o Barcelona em março de 2014, pela Liga Espanhola. O Real Madrid chegou ao encontro superior física e tecnicamente ao rival, ao ponto da crítica especular goleada. O Santiago Bernabéu lotado com mais de 80 mil torcedores naturalmente forçou Carletto, naquele dia, a ser três vezes mais intenso do que o normal. Os merengues pressionaram em toda parte do campo como nunca antes havia pressionado e nunca mais voltou a pressionar. Para a recordação, fica a imagem de Di María caído no chão, quase desmaiado, com apenas 20 minutos (!) de jogo. Estava completamente exausto. O Real Madrid correu, correu, correu… e raciocinou pouco. Do outro lado estava Messi. E Messi não perdoa. Ao acumular mais metros que o normal, o Madrid deixou espaços logo na zona do argentino, que, naquele dia, marcou três gols e deu uma assistência, na vitória barcelonista por 4 a 3. Ancelotti não poderia mais jogar assim. Foi a primeira e última vez.

E aqui aparece o Bayern. A instituição que exige semanalmente triunfos, constância e pontuação. Mas atenção: futebolisticamente, o Bayern é Müller e Ancelotti é Pirlo. Carlo encontrará um atacante muito móvel, mas sem peso na gestão de jogo, que curte acelerar a bola mais do que o desejado. Thomas, no entanto, terá que participar da troca de passes. Descer alguns metros, receber e decidir o ritmo do sistema de ataque. Negociarão e inventarão um ponto intermediariamente que não tem por que sair mal. Mas a parceria que mais chama a atenção é com Ribery. Em poucas semanas de pré-temporada, o francês foi só elogios ao italiano. Há um ano, Ribery parecia acabado para o futebol. Desde a Tríplice Coroa de 2013, Frank vem perdendo a luta contra as lesões, firmando temporadas pobres. Se não se lesionar mais uma vez, a tendência é que Ribery tenha seu canto do cisne. O camisa 7 tem qualidade e status, é um ícone para a torcida, e por isso Ancelotti sabe o quão importante é recuperá-lo não só tecnicamente, mas animicamente.

Há variados dilemas para o romanista resolver em Munique. Pensar, escolher e confiar. Por exemplo: Douglas Costa, Ribery ou Robben? Há somente duas vagas para os três. E a questão de Xabi Alonso? Javi Martínez terá a importância que teve com Heynckes? Renato Sanches terá minutos, especialmente depois da positiva Eurocopa que fez? O Bayern necessita de protagonistas, porque já não tem Guardiola, e Ancelotti não pretende assumir o seu papel. E seus craques necessitam protagonismo, porque estão há três anos vendo seus potenciais em dúvida. A solução única ao conflito duplo é clara: os eleitos, sejam quem sejam, devem ser as faces da derrota ou da vitória. Da glória ou do fracasso.

O elenco bávaro já sacia quase toda as necessidades do técnico, sobretudo depois da contratação de Matt Hummels. Thiago Alcântara certamente terá maior protagonismo dento do ancelottismo, por ser o único interior com capacidade de retenção de bola. Do meio para frente, Carlo tem membros com características diferentes para variar taticamente de mais de uma forma seu time. Como os ordenará? Qual será seu sistema na Alemanha? Nem ele sabe. O tempo o converteu em um camaleão de imprevisível. Ancelotti estreou como treinador ainda impactado por Arrigo Sacchi, como o líder do Milan dos holandeses (4-4-2) que mudou o futebol, o time da pressão alta e domínio posicional no campo rival. Os primeiros anos de Ancelotti, portanto, foram de um fundamentalista do esquema mais clássico, com duas linhas de quatro e dois atacantes. Até o ponto em que, dirigindo o Parma, renunciou a chegada do jovem Roberto Baggio porque “meu sistema não tem enganche e os onze jogadores devem trabalhar igualmente sem a bola”. Hoje, analisa aquela decisão como o erro mais grave da sua carreira. A dor o mudou, como faz com os melhores. A partir daí, estudou, aprendeu e implementou variados esquemas. Ainda que, como não poderia ser diferente, tem algumas preferências.

– a primeira linha é sempre de quatro, sem pensar em um plano B*

– priorizar o domínio da área. A velocidade não é a característica principal de suas duplas de zagueiros. Nem a de Pepe e Sergio Ramos (!)

– projeção ofensiva dos seus laterais de forma simultânea

– liberdade aos seus atacantes, tanto por dentro como por fora

Ancelotti tem um dom para converter promessas em realidades. Detecta o talento, aposta por eles com segurança e sabe guiá-los. Buffon, Thuram, Cannavaro, Pirlo, Seedorf, Kaká, Carvajal, Di María ou Drogba foram provas absolutas de que Carlo é muito bom nesse aspecto. Talvez a presença de Didier na curta lista possa surpreender, mas há justificativa. A história do marfinense no Chelsea de Mourinho teve paralelismo com a de Benzema: Gudjhonsen e Crespo estiveram para o centroavante como Higuaín esteve para o francês. Com Ancelotti, ambos fizeram as temporadas de suas vidas (Drogba em 2009/2010 e Benzema em 2013/2014). Kimmich, Thiago Alcântara, Coman, Green e Starke não são jogadores prontos, necessitam oportunidades e ajuda. E Ancelotti sabe disso.

Carlo Ancelotti é um treinador antigo se compararmos-o a Josep Guardiola, e seguramente incomparável ao catalão em términos globais. Um é um maestro contemporâneo do espaço, o outro da bola. O plano de Pep não deu certo na Europa porque careceu de virtudes para ele indispensáveis: a eficiência e a letalidade cara a cara. Nas três eliminações, em todas teve a chance de abrir o placar na casa do rival. Depois, a ansiedade o matou. Faltaram jogadores grandiosos com a bola. Faltaram Robben e Ribery, em 2015 e 2016. Douglas Costa explodiu, mas a relação do brasileiro com o gol ainda é muito escassa, incluindo quando se exibe. Götze nunca pôde ser Götze com Pep. Corrigir essa falta de gols da segunda linha é um obstáculo que Ancelotti terá na Alemanha. Acompanhemos. O ancelottismo é um presente para o futebol no século XXI.

*com a única exceção da linha de cinco defensores da Juventus de Zidane, entre 1999 e 2001.

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Jornalista, carioca e apaixonado pela Liga Espanhola desde a época em que Rivaldo, Zidane, Figo e Raúl foram seus professores. Colaborou para o programa [email protected] da Rádio Globo São Paulo falando sobre o futebol do país das touradas. Repórter da Super Rádio Tupi.

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