DOENTES POR FUTEBOL

Futebol feminino: as lições de uma prova flamejante

Mineirão abarrotado, mata-mata apertado. Contra um adversário que pressiona incansavelmente. Craque apagado, incapaz de decidir por si só. Prorrogação, bola no travessão brasileiro. Penalidades. A consagração de quem está sob a baliza. Este poderia muito bem ser o roteiro de Brasil x Chile, na última Copa do Mundo – todavia, não é.

Trata-se da partida das mulheres tupiniquins contra a Austrália, apenas a maior prova de fogo enfrentada nesta Olimpíada 2016. Foi uma noite épica, digna da Seleção que emocionava em décadas não tão distantes. Porém, apesar da atuação esplêndida e bastante completa das australianas, o time de Vadão tem várias lições a tirar. Partindo dele, inclusive. A pior exibição verde-amarela na competição grita para ser devidamente interpretada. Mesmo sem a fundamental Cristiane, é hora de fazer isso.

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Foto: CBF.com

Antes de tudo, é vital entrar numa questão chamada Marta. Que fez um 1º tempo apagadíssimo, desperdiçou pênalti no momento decisivo e – sendo capitã – perdeu o controle emocional em público. Pois é humana, uma jogadora capaz de acertar ou falhar. Como qualquer atacante do Barcelona, cujo nome não precisa ser revelado. Este esporte é coletivo. De qualquer maneira, o foco aqui é outro.

“Temos uma equipe equilibrada, cada um tem sua função. Marta faz parte de um contexto”. Vadão.

Lá vamos. Ter a camisa 10 tão fixa pelo centro, como aconteceu na etapa inicial, se mostrou algo totalmente desinteressante. Porque tira tempo para pensar e espaço para executar, chutando seu melhor argumento na cova dos leões. Quando abriu e ganhou liberdade, Marta voltou a participar de forma constante. Por outro lado, seu jogo limitado foi a ocasião para demonstrar que o Brasil tem mais 10 atletas dispostas a somar. Andressa Alves, citando uma, provavelmente é a mais complexa futebolista nas engrenagens de Vadão.

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Foto: CBF.com

O treinador, aliás, também deve repensar inúmeros aspectos. Partindo das decisões, como a de passar 116 minutos com três alterações no bolso. Sendo que a equipe indicava o natural desgaste e Andressa Alves chegou a terminar a prorrogação mancando. Colocar Andressinha apenas para os pênaltis parece outro problema. Uma jogadora de 21 anos, fria, enfrentando o Mineirão lotado. No fim, é bom dizer, as duas converteram suas penalidades. A evidente falta de plano na saída de bola dá sequência ao panorama negativo.

“Não seria um jogo como esse que nos serviria de lição. Aprendemos a lição no Mundial do ano passado”. Vadão.

Quando o Brasil finalmente encontrou uma seleção de pressão alta, as meninas se viram encurraladas. Sem velocidade para rodar a pelota, perdendo a posse no próprio campo – ou forçando ligações diretas ausentes de sentido. Vadão tinha alternativas, porém preferiu segurar a estrutura e aceitar este conjunto que pula o meio-campo. Tal estratégia quase deu o triunfo, entretanto também aproximou do revés. Não houve controle, comprou-se o risco.

POSICIONAMENTO 1

Clique e amplie | Posicionamento inicial do Brasil

Sobre Bárbara, simplesmente a heroína. Superando as barreiras físicas (tem 1,71m), ela soube se agigantar para pôr a Seleção na semifinal. Burlou a regra, adiantou dois passos a cada cobrança de pênalti, mas a árbitra estava lá para isso. Voltando um pouco o disco, a Austrália cercou a baixa arqueira nos escanteios e assustou quase sempre. É uma fragilidade exposta, algo fácil de montar. As finalizações de média distância foram tão ameaçadoras quanto. É fundamental saber proteger a número 1, compreendendo seu estilo e suas debilidades.

Certamente foi o jogo menos organizado das mulheres, assim como o mais emocionante. Claro que houve o lado positivo, Rafaelle protagonizou 120 minutos de manual.

Andressa Alves voltou a ser perfeita nos detalhes táticos, Beatriz superou o início desconectada para fazer de tudo no fim. Formiga, aos 38 anos, entendeu tão bem a partida a ponto de atuar por duas horas seguidas de muita intensidade. Mas são os erros que eliminam, as falhas podem apagar tudo. Começando por Vadão, o grupo precisa revisar esse confronto calmamente. As mulheres da Austrália até perdoaram, talvez a medalha não.

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Estudante, 16 anos. Um doente por futebol que busca entender esse jogo magnífico de forma completa - claro, sem sucesso.