A primeira face de um Sevilla sampaolista

Jorge Sampaoli é um treinador peculiar, de métodos inegociáveis e fora do comum. Com conceitos pouco popularizados pelo planeta, um louco pelos detalhes. Tal percepção já é possível quando se sabe que o argentino é contagiado por Pep Guardiola e Marcelo Bielsa – só isso. Nesta terça-feira (9), contra o Real Madrid, deu para sentir as primeiras sensações sampaolistas num Sevilla em plena reformulação.

Obviamente faltaram coisas, mas a Supercopa da Uefa pôde presenciar uma equipe que já possui o doce aroma de Sampaoli. Na dura derrota por 3 a 2, o mundo do futebol teve acesso oficial a um dos projetos mais interessantes da temporada 2016/17.

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Foto: SevillaFC.es

O Sevilla apresentou traços claros do técnico, suas vontades estiveram ali. Apesar do déficit físico por ser a estreia na temporada (o que limitou a pressão alta, por exemplo) ou de não contar com todos os jogadores, os espanhóis cumpriram as ideias de forma fluida. Foi uma equipe de posse, que pôs o Real no próprio campo, avançou vários homens, subiu a linha de defesa, transformou os laterais em pontas e – na medida do possível – teve intensidade. Era tolice esperar algo além, ao menos por agora. Mesmo que ainda distante da perfeição, veja a seguir como se comportou o primeiro Sevilla de Sampaoli.

“Colocamos uma das melhores equipes do mundo atrás”. Daniel Carriço.

Quando reteve a pelota, o conjunto da Andaluzia trabalhou a partir da ocupação racional dos espaços. O time do brasileiro Mariano tentou usufruir de cada centímetro do gramado, até a última gota. Abrindo os laterais para oferecer amplitude, centralizando o trio de meias para criar opções de passe pelo meio. Jogando o centroavante Vietto no limite da defesa madridista a fim de alcançar profundidade, gerando bastante movimentação nos volantes para tê-los ocupando os buracos criados.

O 4-2-3-1 de Sampaoli guardou ações repetitivas, ainda que cada jogada tivesse sua história. Dentro da obviedade, houve um leque de alternativas grande. O “problema” é que o futebol depende dos atletas. Sendo assim, o Sevilla pecou pela falta de um meio-campista organizador na saída de bola.

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Clique e amplie | Organização ofensiva do Sevilla

Em resumo, o time foi um maquinário bem equipado sem um especialista para guiá-lo. Isso deve mudar com as entradas de Ganso e Kranevitter. Outro lado negativo é a falta de manejo do goleiro Sergio Rico com os pés, algo que fez os andaluzes perderem a redonda algumas vezes.

“Me sinto orgulhoso do jogo, a forma de jogar foi emocionante para mim”. Jorge Sampaoli.

Individualmente, vale destacar como Franco Vázquez funcionou. Primeiro como um camisa 10, sendo acionado entre as linhas de marcação do Real para desequilibrar. Depois, já no 2º tempo, atuando de falso 9 e guiando os contra-ataques. Mariano, Vitolo e Kiyotake também sustentaram momentos positivos no confronto.

Defendendo, apenas mais sampaolismo. Retaguarda adiantada, pressão pelo campo inteiro até onde o físico permitiu, blocos juntos, etc. A ordem principal era recuperar a posse o mais rapidamente possível, incomodando a saída madrilenha.

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Clique e amplie | Pressão sevilhista sobre a saída do Real

Passada esta fase, o Sevilla recuava e reagrupava seus homens para depois seguir atacando a bola. Nas transições do ataque para a defesa, apesar da execução ruim, mais pressão para desarmar. Em compensação, os vermelhos pecaram muito quando o Real Madrid se aproximou da área. O segundo gol blanco, por exemplo, foi fruto de uma desatenção inaceitável.

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Clique e amplie | Organização defensiva espanhola

O Sevilla de Sampaoli está em construção, é um processo andamento. Não era possível exigir mais, não na quinzena inicial de agosto. Dito isso, é evidente que o elenco já assimila os conceitos e põe em prática o jogo do treinador. Aos poucos, esta equipe tende a virar uma coisa muito séria – na Espanha e no continente. O primeiro título da temporada escapou por pouco, entre os dedos. No fim de semana, frente ao Barcelona, a história pode ser outra.

Comentários

2000. Um doente por futebol que busca insistentemente entender esse jogo magnífico de forma completa - claro, sem sucesso.