Vítima da precipitação

Junho de 2014: em casa, na Arena Corinthians, a seleção brasileira estreia no Mundial. Agosto de 2016: no Mané Garrincha, para quase 70 mil pessoas, o time de Rogério Micale parte em busca do inédito ouro olímpico. A relação entre os eventos é óbvia, sendo fácil elencar alguns paralelos. Todavia, as diferenças também são muitas. Outros jogadores, outro modelo de futebol, categorias distintas, etc. O grande e importante fato em comum está na ansiedade gerada por jogar (e ter de vencer) no próprio quintal.

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Se agora não mais há um David Luiz lançando de 60 metros a cada cinco minutos, falta tranquilidade da mesma forma – num grupo muito mais jovem, evidentemente. No 0 a 0 contra a África do Sul, ficou claro que vencer a Olimpíada irá além de um plano tático elaborado ou de belas individualidades. Para ganhar, o Brasil precisará de tranquilidade nos momentos decisivos.

O 4-3-3 de Micale deu sequência ao modelo de futebol já conhecido. Foi uma equipe de posse (65% ao final do duelo), que tentou pressionar logo após perder a bola (a linha de defesa esteve adiantada e agressiva), com muita liberdade nos movimentos – os laterais apareceram bastante por dentro, por exemplo. A ideia era triangular pelos lados, fazer um jogo apoiado para construir de forma planejada e daí acelerar perto da área rival. Porém, a Seleção resolveu pular para a última fase da ideia.

POSICIONAMENTO 1

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Com Renato Augusto extremamente apagado, faltou quem controlasse as ofensivas sem fazer a partida correr tanto. O Brasil verticalizou muito, foi individualista, tentou se impor exclusivamente por ter os melhores. Tanto que perdeu a pelota milhares de vezes e entregou inúmeros contragolpes no colo da África do Sul. Que defendeu ordenadamente, a partir de sacrifício e organização. Um conjunto de posse não se faz só de ações em direção ao gol, pelo contrário. É vital trabalhar para criar buracos, produzir as superioridades numéricas e todo o restante. Nada disso aconteceu.

O tempo atrapalhou ainda mais as coisas, enquanto o ânimo da torcida seguiu pelo mesmo caminho. Neymar foi um poço de imprecisão e conduções demasiadas sem tamanho, os ‘Gabriéis’ vieram logo atrás. A expulsão de Mothobi Mvala até fez a seleção tupiniquim se aproximar do 1 a 0, mas foi capaz de tornar os donos da casa mais nervosos. Como se a correria fosse virar tentos, a vontade extrema resultar em vitória. Sem critério, longe de alguma lucidez, distantes da mínima calma para executar o plano do ótimo treinador.

Sem título

Foto: CBF.com

O gol perdido por Jesus resume um pouco o cenário caótico no qual se meteu o grupo olímpico. Sob vaias, um lotado Mané Garrincha expulsou os brasileiros. Não que o crime seja de Rogerio Micale, apenas de Neymar ou da lesão de Fernando Prass. Nem Renato Augusto é o carrasco, nem Gabigol deve ser alvo. A questão é que são jovens, inexperientes garotos de 23 anos com o peso de um país sobre os ombros. Fardo este maciço demais até para os mais velhos, durante a passada Copa do Mundo. Se existe um enorme responsável, chamem-no de contexto. A culpa é quase toda dele.

Comentários

2000. Um doente por futebol que busca insistentemente entender esse jogo magnífico de forma completa - claro, sem sucesso.