As escolhas de Conte e os primeiros traços do Chelsea

  • por Lucas Sousa
  • 1 year atrás

Antonio Conte chegou ao Chelsea para arrumar a casa depois de uma temporada terrível. A 10ª colocação não coincidia com o estatuto, poderio financeiro e, principalmente, elenco do time londrino. Até por isso Conte não fez grandes mudanças na equipe. Kanté é a única aquisição que assumiu status de titular instantaneamente, os demais iniciam a temporada como opções de banco. Como era de se esperar, o novo treinador optou pelo caminho do básico e, porque não, pragmático.

Foto: Chelsea FC/Site oficial - Conte chega ao Chelsea para recolocar o time nos trilhos

Foto: Chelsea FC/Site oficial – Conte chega ao Chelsea para recolocar o time nos trilhos

Tradicionalmente o Chelsea se dá bem com treinadores mais conservadores. Foi assim nas três Premier Leagues conquistadas sob o comando de José Mourinho (uma delas com a melhor defesa da história: míseros 15 gols sofridos) e no inacreditável título da Liga dos Campeões com Roberto Di Matteo, também italiano. Sendo assim, é compreensível a opção do clube por Antonio Conte, treinador capacitado, enérgico e com uma sua veia pragmática.

O bom início do Chelsea dá aval e tranquilidade para Conte trabalhar e construir o time a sua maneira. Porém, não esconde algumas deficiências que precisam ser tratadas. São os problemas que o treinador precisa solucionar para manter sua equipe no caminho das vitórias, as escolhas de Conte para o Chelsea.

A principal questão: até onde vai o pragmatismo?

Há 20 anos o Chelsea não fazia uma campanha tão ruim no campeonato inglês, quando foi 11º na temporada 1995/96. Era preciso começar bem para recuperar a confiança e construir algo melhor. O clube, os jogadores e Antonio Conte precisavam disso. Esse cenário torna completamente compreensível a opção por um time pragmático: tem que vencer, não importa como.

Assim, o Chelsea iniciou a temporada no 4-1-4-1 adotando uma composição longe de ser ofensiva. A defesa é a mesma dos últimos anos (Ivanovic, Cahill, Terry e Azpilicueta), agora com Kanté logo a frente; Matic e Oscar completam o trio central de meio-campo; Willian e Hazard são os jogadores de lado; e Diego Costa o único centroavante. A mudança da formação tática não é o problema do novo time, mas sim as características e o comportamento dos jogadores que estão em campo.

Foto: Chelsea FC/Facebook oficial - Conte tem optado por uma postura cautelosa: segurança defensiva e trio de ataque decidindo

Foto: Chelsea FC/Facebook oficial – Conte tem optado por uma postura cautelosa: segurança defensiva e trio de ataque decidindo

O Chelsea não sobe para pressionar o adversário e nem tenta ocupar o campo de ataque. As jogadas procuram sempre os lados do campo, para Willian, Hazard e Diego Costa, que tem aparecido bastante no flanco esquerdo, construírem oportunidades de gol. É bem verdade que há uma solidez defensiva considerável, bem característico de Conte, mas também fica nítida a cautela da equipe, mesmo que não tenha enfrentado nenhum dos grandes até agora. Não à toa o Chelsea marcou vários dos seus gols em transições defensivas ou ofensivas (o que faz muito bem, por sinal), atacando de forma rápida e objetiva.

Se o pragmatismo foi importante para sedimentar um bom início de campeonato, é importante planejar alternativas para dar um passo adiante. Pesando que a maioria dos adversários jogarão fechados contra os Blues, Conte precisa organizar seus atletas para propor o jogo melhor. Para tanto, é preciso ter alguém qualificado comandando as ações da equipe desde o campo defensivo.

Um lugar para Fàbregas

A defesa e o trio de meio-campo que iniciaram a temporada não é um grupo de jogadores dos mais técnicos. Kanté é excepcional defensivamente, mas contribui pouquíssimo na construção das jogadas. Matic é alto, forte e até tem qualidade nos passes curtos, mas não é o cara que vai levar o time ao ataque. Oscar começou muito bem, mas não contribui tanto para tirar a bola da defesa e leva-la à frente, sendo mais um jogador de terço final do campo.

Com essa composição vimos o Chelsea ter bastante dificuldade para tirar a bola da sua intermediária e avançar no terreno. Muito passe de lado sem objetividade ou velocidade, o que chama o oponente para pressionar e complicar ainda mais a vida dos Blues, como no gol da virada do Swansea. Nesse contexto Fàbregas é imprescindível. O espanhol é capaz de adicionar o passe vertical para superar as linhas de marcação do adversário e fazer a redonda chegar até os jogadores mais adiantados.

Foto: Four Four Two/Stats Zone - Fàbregas contra o Swansea: pouco mais de 15 minutos em campo e 15 passes para a frente. Dois deles (azul claro) resultaram em finalizações

Foto: Four Four Two/Stats Zone – Fàbregas contra o Swansea: pouco mais de 15 minutos em campo e 15 passes para a frente. Dois deles (azul claro) resultaram em finalizações

Fàbregas oferece mais controle e a possibilidade de jogar pelo centro e diminuir o foco exagerado em Hazard e Willian. Isso não quer dizer que o Chelsea deixaria de acionar a dupla (que faz um ótimo início de temporada, vale destacar), pelo contrário, os deixariam em posições ainda melhores para decidirem no último terço do gramado. Para se ter uma ideia, em apenas 26 minutos de Premier League, o camisa 4 deu cinco passes para finalização. Com Cesc em campo o desempenho ofensivo azul tende a crescer.

Por que Kanté, Matic e Oscar?

Se Fàbregas oferece tantas vantagens ao Chelsea, por que Conte tem deixado o espanhol no banco e optado por Kanté, Matic e Oscar? Porque esse trio oferece intensidade, pressão e capacidade de roubar a bola nas transições defensivas. Assim que o Chelsea perde a posse, pressiona com muita agressividade para recuperá-la e atacar de novo rapidamente. Isso ameniza o fato do time não construir bem, já que quando chega no ataque consegue permanecer por mais tempo, não é aquele bate e volta.

O primeiro gol azul na competição nasceu dessa maneira: bola perdida na intermediária ofensiva, imediatamente roubada e pênalti sofrido.

Foto: Chelsea FC/Facebook oficial - Kanté é o símbolo da intensidade do Chelsea 16/17

Foto: Chelsea FC/Facebook oficial – Kanté é o símbolo da intensidade do Chelsea 16/17

Particularmente, Kanté é um monstro nesse momento da partida. Tem muita velocidade, dedicação e pulmão para pressionar incansavelmente o homem da bola ou fechar o passe para as opções próximas. Oscar tem evoluído bastante nesse quesito e, ao lado do companheiro francês, soma 13 desarmes na Premier League. Já Matic e seu 1,94m controla na força física e capacidade de desarme, nem tanto na velocidade.

O outro momento de transição, a ofensiva, também tem nesse trio uma base forte. Roubar a bola para sair em velocidade é algo que o Chelsea tem feito muitíssimo bem. O francês, o brasileiro e o sérvio são os três primeiros do elenco na lista de desarmes e, como o time não pressiona alto, sobra campo para Hazard e Willian puxarem contra-ataques com rapidez, como foi contra o Burnley. Nesse jogo de transições que Antonio Conte tem aplicado com eficácia, Fàbregas ainda está um pouco abaixo do trio. Resta saber se a opção do treinador vai passar pelas transições ou pela organização ofensiva.

Marcos Alonso para dar mais opções

Foto: Chelsea FC/Facebook oficial - Marcos Alonso, o lateral canhoto do elenco que pode ser peça importante no time de Conte

Foto: Chelsea FC/Facebook oficial – Marcos Alonso, o lateral canhoto do elenco que pode ser peça importante no time de Conte

Caso Conte decida por seguir no caminho do jogo de transições, mantendo o atual meio-campo e Fàbregas no banco, uma contratação pouco badalada pode lhe ajudar bastante. O lateral esquerdo/ponta Marcos Alonso não será apenas um reserva, ele pode se tornar peça importante na produção ofensiva blue. Isso porque o novo contratado se difere bastante dos dois laterais titulares da equipe.

Azpilicueta e Ivanovic são destros e não contribuem tanto nos últimos metros do campo. Por característica, o sérvio não faz ultrapassagens para cruzar da linha de fundo. É zagueiro de origem que foi convertido em lateral após chegar à Inglaterra. Já o espanhol joga torto e tende a levar a bola para sua perna boa, consequentemente centralizando o jogo.

Foto: WhoScored - Contra o Burnley, Ivanovic e Azpilicueta tiveram, combinados, 165 toques na bola. Apenas 12 deles nos últimos metros do campo

Foto: WhoScored – Contra o Burnley, Ivanovic e Azpilicueta tiveram, combinados, 165 toques na bola. Apenas 12 deles nos últimos metros do campo (área clareada)

Alonso é canhoto e bastante participativo ofensivamente. Pode dar ao Chelsea a profundidade que muitas vezes falta, especialmente no lado esquerdo, onde Hazard joga cortando para dentro. Com o recém-chegado na esquerda, Azpilicueta pode ser deslocado para a direita e, finalmente, ajudar a esticar o campo. É uma opção para ser pensada com carinho por conta da importância que Conte tem dado ao jogo pelos flancos. Ter dois laterais que podem fazer ultrapassagens e trabalhar com os pontas é uma boa alternativa para ser testada.

Comentários

Mineiro e estudante de jornalismo. Admira (quase) tudo que cerca o futebol inglês, não esconde seu apreço por times que jogam no contra-ataque (sim, sou fã do Mourinho) e acha que futebol se discute sim. Também considera que a melhor invenção do homem já ultrapassou os limites do esporte.