DPF Entrevista: Felipe Surian, treinador do Volta Redonda

 

A Série D do futebol brasileiro já está se encaminhando para a definição de seu campeão. Com os acessos determinados, a Terceira Divisão do futebol brasileiro contará com as presenças de Moto Clube, São Bento, CSA e Volta Redonda. Os dois últimos são os finalistas e decidem o título da competição. Treinado pelo jovem Felipe Surian, de 34 anos, o Voltaço chega invicto à final e pode conquistar um título inédito.

Foto: Volta Redonda Oficial

Foto: Volta Redonda Oficial

Homenageado pela diretoria do clube, que reconhece seu excepcional trabalho, o juiz-forano Surian vai se firmando um dos bons nomes para o futuro do futebol nacional, já tendo também passado por Anápolis-GO, Caldense-MG, Tupi-MG (com o qual conseguiu o acesso à Serie C, em 2013) e Villa Nova-MG e conquistando a Taça Rio deste ano com o clube aurinegro.

Dirigindo a equipe fluminense desde o final de 2015, o comandante tem respeitáveis 62,63% de aproveitamento, com 17 vitórias, 11 empates e apenas cinco derrotas. Desde sua estreia, quando venceu o Fluminense por 3×1, o técnico já dava mostras de que estava trabalhando no sentido certo. Vale mencionar também que o clube chegou a vencer o Flamengo na Taça Guanabara e ameaçar a classificação dos quatro grandes às semifinais da competição. Hoje com 17 jogos de invencibilidade na temporada, o Voltaço vive momento brilhante.

Foto: Felipe Surian/ Arquivo Pessoal

Foto: Felipe Surian/ Arquivo Pessoal

Buscando entender melhor as razões que justificam tal ocorrência, o DPF conversou com o técnico Felipe Surian, que falou sobre sua carreira e a ótima fase que vive no Volta Redonda.

Wladimir Dias (DPF): Em primeiro lugar, gostaria de saber de onde surgiu a vontade e o interesse em se tornar treinador de futebol e como você enxerga o desafio que é o mercado brasileiro, muitas vezes apontado como “fechado”, sempre circulando em torno dos mesmos nomes.

Felipe Surian: Eu fui atleta profissional durante 10 anos, só que tive que parar precocemente, com 27 anos, com um problema de coluna, hérnia de disco. Tendo que parar de jogar, ingressei na faculdade de educação física com o desejo de continuar no futebol e como sempre tive o “tom” de liderança por onde passei, a parte técnica foi a área em que mais me encaixei. Comecei como auxiliar, trabalhei cinco anos como auxiliar e hoje vou terminar o meu quarto ano como treinador. Esse é o meu segundo acesso nacional, tive um título esse ano, da Taça Rio, aqui no Volta Redonda e agora vou buscar o título brasileiro.

Falando agora dos treinadores, não acho que seja um ciclo vicioso. É às vezes fechado e falta oportunidade de acreditar em valores novos, não só (por parte) dos diretores, mas também da imprensa em geral. Falta acreditar que tem espaço para ideias novas, para novos conhecimentos e novos profissionais. Falta um pouquinho de oportunidade, mas isso tem mudado bastante e em breve acho que vamos ter novos nomes nesse mercado de nível de Série A. Acredito que vá haver uma reciclada também.

Foto: Volta Redonda Oficial

Foto: Volta Redonda Oficial

WD: Quando aceitou o cargo de treinador do Volta Redonda, você imaginava a obtenção de tanto êxito, com destaque no Estadual e o acesso, invicto, à Série C? Até que ponto a experiência do acesso com o Tupi em 2013, o ajudou nessa nova trajetória?

FS: Eu tenho me preparado para onde chegar mostrar minha filosofia de trabalho, meu método de trabalho, e fazer com que a minha equipe vença. Cheguei a um estado diferente, onde eu ainda não tinha trabalhado, mas já conhecia bastante, por morar próximo ao Rio. Então, acompanhava e sabia que quando tivesse a oportunidade eu teria condições de fazer uma eventual busca por títulos. Sei que combater as equipes grandes é mais difícil, mas mesmo assim fizemos bons jogos, vencemos o Fluminense, vencemos o Flamengo, empatamos com o Vasco em São Januário e foi bacana.

Se eu esperava esse êxito? Eu não esperava, mas me preparei para isso e propus ao meu grupo acreditar no trabalho e fazer com que eles jogassem dentro daquilo que era o meu conhecimento. Por ser o primeiro ano foi bacana. Essa invencibilidade também, é fruto do mesmo trabalho, da manutenção do estadual e a busca incessante pelo aperfeiçoamento. Eu passo para os atletas: o próximo jogo tem sempre que ser melhor do que o passado, o treino de hoje tem que ser sempre melhor do que o de ontem. A nossa vida tem que ser assim, não só no futebol.

Quanto à experiência que tive no Tupi, não foi só a de 2013 com o acesso. Esse é o meu terceiro acesso, já fui campeão brasileiro em 2011, também com o Tupi, só que eu ainda era auxiliar. Esse está sendo meu terceiro acesso e como já tive muitas experiências passadas, vividas na competição, dentro série D, pude ajudar nesse trajeto também.

Foto: Pedro Borges / Volta Redonda Oficial

Foto: Pedro Borges / Volta Redonda Oficial

WD: Você acredita na definição de um estilo de jogo próprio, pessoal, ou interpreta que a opção por uma ou outra forma de jogar depende necessariamente do elenco que se tem nas mãos?

FS: Eu tenho um estilo, gosto de, quando eu posso, montar o grupo, como fiz aqui (no Volta Redonda), gosto de fazê-lo conforme o meu estilo de trabalho. Agora, quando você chega a uma outra equipe, dando um exemplo, chega durante uma competição, e chegando lá você não tem jogadores que vão ao encontro do seu estilo, eu acho que tudo tem que ser maleável, você tem que saber jogar com outras peças.

WD: Pela sua pouca idade, imagino que já tenha treinado jogadores mais velhos que você. Em sua opinião, a idade é uma barreira para o trabalho de um treinador jovem no futebol brasileiro?

FS: Já treinei, tive a experiência em 2013, em nosso acesso com o Tupi. Meu atacante tinha 38 anos, foi artilheiro da competição. Aqui, esse ano, tinha o Lopes, ex-Palmeiras, Lopes Tigrão, também com 36 ou 37, salvo engano, e não vejo dificuldade alguma ou barreira. Ainda não tive nenhum problema, porque acho que o que vale é o respeito, independente da idade, se é criança, jovem, adulto, ou velho. Quando você respeita a pessoa independente de cor, idade, condição social, acho que o respeito é recíproco. Não senti barreira alguma.

Foto: Nina Abreu/ Federação Mineira de Futebol | No Tupi, Surian treinou o experiente Ademilson, á época com 38 anos

Foto: Nina Abreu/ Federação Mineira de Futebol | No Tupi, Surian treinou o experiente Ademilson, à época com 38 anos

WD: Na condição de técnico, como você enxerga a opção feita pela CBF pela contratação de Dunga após a Copa do Mundo e a recente troca, com a chegada de Tite?

FS: A escolha do Dunga acho que foi mais pela liderança dele, quando jogava também era líder, por ser uma pessoa séria. Acredito que foi nesse sentido, optaram por essa qualidade dele. Já o Tite agrega mais qualidade no sentido de experiência profissional, nos últimos anos ele tem tido êxito nos seus trabalhos.

WD: Muito se fala que os treinadores têm pouco tempo para trabalhar no Brasil e que os resultados precisam ser imediatos. Corroborando esse entendimento, temos exemplos de trabalhos de longo prazo que tiveram sucesso, como os de Londrina-PR e Brasil-RS. Você tem planos para construir um trabalho longevo no Volta Redonda?

FS: Infelizmente, no Brasil você tem a questão do resultado, os dirigentes não têm muita paciência. Mas eu sou a favor da manutenção e já vou completar um ano aqui em Volta Redonda. Tenho um projeto pessoal e se for ao encontro do projeto do clube, eu prefiro permanecer.

Foto: Volta Redonda Oficial

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WD: Como se deu o processo de remontagem do elenco após o Carioca, com a perda de algumas peças e a chegada de outras?

FS: Eu procurei trazer as peças dentro da minha filosofia, do meu propósito de trabalho, método de trabalho. É muito complicado, porque no estadual (o time) já estava encaixado, mas conseguimos trazer peças interessantes e que se encaixaram bem dentro dessa metodologia, estamos invictos e vamos tentar manter a invencibilidade.

WD: Qual é seu grande objetivo como treinador?

FS: Meu principal objetivo é poder passar para os atletas a consciência de que o futebol não se joga só com a bola, ele também se joga sem a bola. Infelizmente, no Brasil houve determinadas épocas em que se falava que o jogador brasileiro era o melhor do mundo e que só as jogadas individuais resolveriam. Hoje, vemos que não é só isso. Meu principal objetivo é fazer com que minha equipe jogue um futebol bonito, coletiva e individualmente falando, mas também organizado sem a bola. Meu principal objetivo é fazer com que as minhas equipes se mostrem bem organizadas, com ou sem a bola.

É claro, se for a questão de clubes, meu objetivo principal é trabalhar na Série A e também no exterior.

Foto: Volta Redonda Oficial

Foto: Volta Redonda Oficial

WD: A que você atribui todo o sucesso obtido nesta temporada? Como você vê esse êxito em relação ao futebol do interior do Rio de Janeiro, que já teve forças emergentes como o Duque de Caxias e o Macaé, mas sofre hoje com a pouca e fraca representação nacional?

FS: O futebol, para dar certo, tem que ter tudo alinhado, a comissão técnica, a diretoria, os jogadores. Acho que o sucesso foi aí, conseguimos formar aqui um grupo bom de trabalho, a comissão técnica também muito boa e a diretoria abraçou a ideia. Quando você tem correntes que às vezes duvidam ou vão contra a sua metodologia atrapalha muito, então acredito que o sucesso seja esse, todos pensando no mesmo sentido.

Com relação ao futebol aqui no Rio de Janeiro, existem (casos de clubes), como o Duque de Caxias e o Macaé, que estiveram na Série B e hoje, infelizmente, não estão mais. Acho que tudo é planejamento, não adianta você só chegar. De qual forma você chegou? Você planejou? Quando você planeja, chega forte, quando não planeja, você até chega, mas aquilo se vai. Acho que tudo na vida é planejamento, que é o que a gente tem feito aqui. Tenho certeza de que esses clubes que estiveram lá e não estão mais, estão planejando voltar. Esperamos que todos estejam fortes.

Foto: Volta Redonda Oficial

Foto: Volta Redonda Oficial

WD: Do ponto de vista tático, o que você considera ser o fator preponderante entre o sucesso e o fracasso no futebol?

FS: O mais difícil para um grupo de jogadores é ele entender o que você pensa de esquema tático, realizar aquilo que é passado a ele nos treinamentos e fazer com que nos jogos isso aconteça. Não adianta muitos treinadores, até amigos meus, falarem muito em futebol europeu, Barcelona, Manchester United, Manchester City, não adianta você ficar no seu conhecimento.

O preponderante é passar o que você conhece da forma mais clara e os atletas assimilarem. Não adianta nada não saber expressar, passar isso aos atletas. É como um professor de faculdade que sabe muita coisa, mas os alunos dele não o acompanham. O sucesso é fazer o seu conteúdo, o seu conhecimento, realmente virar uma prática para o grupo dos atletas.

WD: Muito se fala de que os técnicos brasileiros ainda estão muito atrás dos europeus e também de outros sul-americanos. Você concorda com essa análise? Se sim, qual é o caminho para a evolução?

FS: Eu acho que não, atrás não. Temos bons treinadores no Brasil, tem bons (nomes) chegando no mercado. Mas, acredito que a dificuldade na Seleção Brasileira no Mundial, não só nos alertou quanto aos atletas, mas também quanto a nossa capacitação de técnicos, a nossa orientação técnica. A reciclagem tem que existir, o conhecimento não pode parar, tenho essa filosofia comigo. Você tem que buscar se aperfeiçoar, melhorar, buscar conhecimento. Tenho certeza de que as coisas vão fluir no Brasil. Já temos hoje a Série A com bons jogos, boas equipes, tática e tecnicamente falando, isso se deve à busca do conhecimento.

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Advogado graduado pela PUC Minas, pós-graduando em Direito Desportivo e Negócios do Esporte, 24 anos. Admito minha preferência pelo futebol bretão, mas aprecio o esférico rolado qualquer terra. Desde a infância, tenho no atacante Marques e no argentino Pablo Aimar referências; o melhor jogador que vi jogar foi o lúdico Ronaldinho Gaúcho, na temporada 2004/05. Estou também no "O Futebólogo", meu blog, e no "Bundesliga Brasil".