A última transformação de David Silva

  • por Victor Mendes Xavier
  • 11 Meses atrás

Corria o ano de 2005 quando um jovem canhoto de apenas 19 anos começara a chamar a atenção do futebol espanhol. Na bela Galícia, mais especificamente em Vigo, David Silva dava seus primeiros passos como profissional. Emprestado pelo Valencia ao Eibar em 2004 e ao Celta em 2005, foi no clube de Balaídos que o mago canário ganhara visibilidade para voltar a Paterna pela porta da frente. Onze anos depois, Silva é campeão do mundo, mas sua carreira não tem a brilhantez outrora imaginada. No currículo do espanhol faltam títulos, e em seu álbum de fotos, mais momentos para a recordação.

Foto: Site Oficial da Uefa | Pelo Valencia, David Silva começou a chamar a atenção dos clubes de elite da Europa

Foto: Site Oficial da Uefa | Pelo Valencia, David Silva começou a chamar a atenção dos clubes de elite da Europa

Del Bosque sacrificou o meia após o primeiro jogo do Mundial da África. Também foi habitualmente sacado durante os jogos na Eurocopa da Ucrânia e Polônia. Ambos os torneios foram realizados entre 2010 e 2013, talvez o melhor momento do canário. A perspectiva para com o futuro de David, portanto, era diferente. Não negativa, mas diferente. Vem de temporadas discretas, com lampejos em determinados momentos. Os sinais de que ainda havia uma chama dentro de si para ser exposta eram claros. Mas faltava um treinador que conseguisse tirar uma última evolução do espanhol. E os deuses do futebol foram benevolentes com Silva ao colocarem Pep Guardiola como novo comandante do Manchester City.

Leia mais: Guardiola e a construção de um novo City

O futebol de David sempre gerou controvérsia ao ser analisado. Para muitos, o que Silva deveria ser não encaixava de todo com o que realmente mostrava. Esse conflito gerava uma decepção para os fãs, que acabaram encontrando uma palavra para defini-lo: irregular. Silva é irregular. Para dar essa sentença como verdadeira, primeiramente temos que deixar claro o que realmente é o número 21 do Manchester City.

Silva é um fantasista dotado de talento. Sua criatividade nos giros, controles e passes é peculiar. São raros os “Silvas” no futebol mundial. Mas onde nascem os problemas e as insatisfações que transformam Silva em irregular? Basicamente porque ao canário não interessa o que passa nos primeiros 60 metros do campo. Dá igual se faz sol, frio, que chova ou neva: David é homem de metros finais. Um típico camisa 10 europeu.

Com Pep, um novo Silva:

O City de Pellegrini foi por três anos um contexto de pouca motivação, mas, ao mesmo tempo, também de pouco desgaste, tanto físico, como emocional. David não viveu tempos de frustração, mas sim de inocuidade. É por isso que esse início de temporada com Josep Guardiola dá a sensação de que o espanhol será aquilo que todos pensávamos que seria em 2005. Nesse sentido, estar com um treinador que valoriza a sua figura e que aspira legitimamente aos principais títulos não poderia resultar em outra coisa senão ativar sua última transformação.

Foto: Site Oficial do Man City | David Silva é um fantasista dotado de talento. Sua criatividade nos giros, controles e passes é peculiar

Foto: Site Oficial do Man City | David Silva é um fantasista dotado de talento. Sua criatividade nos giros, controles e passes é peculiar

Guardiola é diferenciado. E isso se nota de imediato. Há cerca de quatro meses, o mesmo Manchester City, que disputou (e venceu) o dérbi de Manchester no final de semana como se fosse uma final de Copa do Mundo, entrava em campo para uma semifinal de Liga dos Campeões com uma postura tão vergonhosa que virou história. Era um time sem corpo e, sobretudo, alma. E o estado de ânimo no futebol tende sempre a ser subestimado. Se o Manchester City, por sistema e jogo, ainda não é o que sonha o treinador catalão, a mudança de mentalidade já é evidente e é por isso que os Skyblues agora passam a impressão de serem um time de verdade.

Um recital no Old Trafford:

A primeira demonstração do novo Silva veio no Old Trafford. Esqueçam aquele enganche irregular de pouca constância nos 90 minutos. Ele está fadado ao “esquecimento”. O que vimos no sábado foi uma atuação hierárquica de David, digna dos melhores maestros do futebol no século. É como se Zidane ou Xavi tivessem se fantasiado de Silva. Cada apoio à defesa para dar clareza à saída de bola e descompactar as linhas do United eram valorosos.

Em suma, Silva brilhou como um gestor de jogo que ele nunca foi e que, particularmente, poucos esperavam que ainda seria na carreira. Não para Pep Guardiola, o treinador que todos desejam, que desenhou essa função sui generis para o seu novo maestro. À espera de Gundogan, Silva por enquanto parte do interior esquerdo do 4-3-3/4-1-4-1 marcado pela associação com De Bruyne, o interior direito. É a dupla que determina a forma com a qual o City vai atuar e inclusive a altura de seu jogo.

David não teve tantos momentos de grandeza, mas chegou a ter o perfil de jogador que modificava contextos e reescrevia as regras. Atualmente, seu repertório individual é menos poderoso, mas a sua mente está conservada. E para sua felicidade, o seu novo treinador o entende como nenhum outro o entendeu. Silva deu um salto de qualidade no âmbito da imutabilidade. Seguramente, a última versão do canário, hoje com 30 anos, é justamente a que mais tende a ser dominante. Veremos na Champions, onde o Manchester City e Pep Guardiola se entregarão a David “Zinedine” Silva.
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Jornalista, carioca e apaixonado pela Liga Espanhola desde a época em que Rivaldo, Zidane, Figo e Raúl foram seus professores. Colaborou para o programa Esporte@Globo da Rádio Globo São Paulo falando sobre o futebol do país das touradas. Repórter da Super Rádio Tupi.