Não é o aumento de vagas que vai enfraquecer a Libertadores

Nova Libertadores G6Torneio cujo nível técnico frequentemente é contestado, a Copa Libertadores vai ter mais participantes – e pode se beneficiar muito com a mudança.

O grande barulho do futebol no último fim de semana foi a mudança nas regras de classificação para a Copa Libertadores. O torneio continental passa a ter 44 clubes. Argentina, Chile e Colômbia ganham uma vaga cada, mas o maior beneficiado mesmo foi o Brasil: de cinco vagas, agora contará com sete, distribuídas entre os seis primeiros colocados no Campeonato Brasileiro e o campeão da Copa do Brasil.  E como não poderia deixar de ser, as modificações no regulamento já suscitaram muitas incertezas entre os torcedores mais críticos.

A principal delas diz respeito a uma possível queda de qualidade da Libertadores. A preocupação é legítima, considerando que até mesmo clubes com aproveitamento medíocre no Campeonato Brasileiro poderão sonhar com em disputar a principal competição continental. Mas através de uma contextualização dos aspectos técnicos e comerciais, é possível identificar benefícios que a mudança pode trazer ao torneio e aos clubes sul-americanos.

(Só que lá no Twitter, o pessoal discorda)

Mar de mediocridade

É bastante discutível a ideia de que o torneio pode vir a perder em competitividade. Primeiro porque, de acordo com o que foi divulgado pela Conmebol, a fase de grupos manterá o mesmo formato, com 32 equipes, e o aumento no número de clubes deve alterar apenas a estrutura da chamada “pré-Libertadores”, que agora terá duas etapas. E em segundo lugar, porque o nível das últimas edições do torneio não tem sido tão alto assim a ponto da entrada de mais seis times fazer despencar a qualidade dos jogos. Em suma: a Libertadores já é, em certa medida, medíocre.

Também já está mais do que comprovado que a qualidade técnica não vem sendo o fator mais decisivo nas últimas edições do torneio. Que o digam os clubes brasileiros, que costumam montar elencos caríssimos quando se aventuram pelo continente, mas nos últimos três anos, não obtiveram resultados. Pelo contrário: têm ficado pelo caminho, assistindo à festa de equipes mais baratas e limitadas, porém mais organizadas e entrosadas.

Além do mais, a história recente mostra que o Brasil teria enviado à Libertadores vários times competitivos, se a regra de 2017 já valesse desde 2011. Nenhum timaço, é verdade, mas por outro lado, boa parte deles parecia ter material humano e futebol para fazer suas torcidas acreditarem que era possível escapar de um vexame en español – quem sabe, sonhar até em fazer história.

Galeria: Se houvesse “G6”, eles teriam ido à Libertadores

Planos ao alcance

Do ponto de vista comercial, o aumento no número de clubes tem tudo para ajudar a aumentar também o interesse sobre a Copa Libertadores. Com seis novas vagas para as quatro ligas mais fortes do continente, é de se esperar a presença de mais camisas de tradição – no retrospecto dos últimos cinco anos, por exemplo, dos dez brasileiros que teriam se classificado no “G6”, oito são campeões nacionais.

(Em relação ao Uruguai, que por sua tradição, também poderia ter sido agraciado, pesa o quase amadorismo do campeonato nacional charrua, que muitas vezes fica nítido já no atual formato da Libertadores)

Para a organização da competição, a participação dessas equipes, ainda que apenas nas fases preliminares, sem dúvida representará um acréscimo significativo de receitas e engajamento, que consequentemente proporcionarão cotas mais gordas para todos os participantes, permitindo que todos se planejem mais e melhor.

Se a intenção é fazer da Libertadores um torneio atrativo em escala global, com audiência em todos os continentes, primeiro é preciso reconhecer que a Copa há alguns anos não tem sido nenhum primor técnico. Dentro desse baixo nível generalizado, não é a entrada de seis clubes na fase preliminar da Copa que vai tornar os jogos menos interessantes (aliás, alguém assiste à pré-Libertadores sem seu time envolvido?). O ganho, por outro lado, pode se dar justamente no aspecto que diferencia a competição de suas congêneres pelo mundo: mais torcidas apaixonadas farão festas ainda maiores, embaladas pelo gostinho inigualável de jogar a principal competição do continente.

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Recifense, rubro-negro, apaixonado por música e estudante de Jornalismo. Sócio-diretor do Doentes por Futebol, com passagens por Seleção do Rádio e SuperesportesPE. Curioso observador de tudo o que cerca o futebol brasileiro e internacional.