A novidade que vem das Canárias

  • por Victor Mendes Xavier
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As Ilhas Canárias são uma das oito regiões com uma consideração especial da nacionalidade histórica reconhecidas como tal pelo governo da Espanha. Sua história é famosa desde a Antiguidade: estima-se que as ilhas tenham 30 milhões de anos. As Canárias eram habitadas por uma população indígena conhecida coletivamente como “guanches”. No entanto, as origens desses povos ainda são pautas de discussões entre historiadores e linguistas espanhóis. Várias teorias têm sido propostas, alcançando vários graus de aceitação. Porém, engana-se que somente os indígenas da ilha, cujo destino turismo tem crescido nos últimos anos e proporcionado o desenvolvimento da construção civil, é motivo de debate quando se pensa em Canárias. Isso porque, em âmbito esportivo, um clube proveniente da região tem encantado a todos neste início de temporada: a Unión Deportiva Las Palmas. Treinada pelo brilhante Quique Setién, os amarillos, como são chamados, estão na sétima posição com 11 pontos, somente a dois do Barcelona, que abre a zona de Liga dos Campeões.

Antes de começarmos a analisar o Las Palmas, vamos dar uma volta no tempo. A equipe voltou para a primeira divisão em 2015, depois de 14 anos disputando somente a segunda divisão, completando um trajeto que pôs fim a uma etapa dolorosa da instituição. A fórmula para competir no regresso à elite foi a mesma utilizada na década de 60, quando era habitual o clube brigar pelo título da Liga: formar um elenco essencialmente canário, com jogadores nascidos e criados na ilha, justamente para criar uma identidade. Mas o início de Liga foi complicado: somente quatro pontos em 24. As dúvidas não correspondiam somente a delicada questão numérica, mas sim também ao modelo de jogo, proposto pelo comandante Paco Herrera. Em suma, a equipe não se encontrava. Era necessária uma mudança. E ela, definitivamente, veio.

Foto: Site Oficial da Las Palmas | O criador: o técnico Quique Setién é o grande responsável pelo momento do clube das Ilhas Canárias

Foto: Site Oficial da Las Palmas | O criador: o técnico Quique Setién é o grande responsável pelo momento do clube das Ilhas Canárias

A chegada de Quique Setién representou o início de uma nova era ao Las Palmas. E o técnico, desde o primeira dia, estabeleceu um padrão: ter a bola, não importa o contexto. De certa forma, sua chegada significou uma troca radical de paradigma. Com Paco, o Las Palmas costumava atuar em um 5-3-2 que privilegiava um jogo mais físico e defensivo. Não estava dando certo. Setién deu espaço a um 4-2-3-1 que variava para um 4-1-4-1, esquema mais coerente às características do elenco. O motivo do time ter melhorado a qualidade da troca de passes nasceu através do impacto que teve a dupla de volantes formada por Roque Mesa e Vicente Gómez. Principalmente por Mesa, um dínamo que organiza o jogo no melhor estilo de Modric ou Xavi: inteligente para construir, ágil para vencer pressões, paciente para bater linhas.

Foram dois meses até os jogadores compreenderem e assimilarem por total a ideia, exposta numa partida contra o líder Barcelona no estádio Gran Canário em fevereiro. O Las Palmas perdeu por 2 a 1, mas foi elogiado pelos jogadores culés, que à época defendiam uma invencibilidade histórica e passavam a impressão que parecia uma missão impossível alguém derrotá-los. Estava claro: mesmo não tendo conquistado três pontos, o ritmo imposto pelos amarillos serviu para explodir e consolidar a fórmula implantada por Setién. A reta final de Liga explica a ascensão: nos últimos dez jogos, foram sete vitórias, um empate e duas derrotas. A expectativa para a temporada posterior era alta.

Mas, de uma forma ou outra, o Las Palmas das sete primeiras rodadas joga diferente. O futebol continua brilhante, mas Setién adicionou novos mecanismos que melhoraram o equilíbrio do time. Cabe evidenciar que os canários não são um time camaleônico, que se adapta a derivados contextos, mas sim que os recursos propostos pelo comandante permitem uma maior solidez na retaguarda. Não sabemos até onde vai durar, certamente uma hora o Las Palmas terá uma queda em seu jogo, mas se trata de uma equipe completa em todas as fases.

O ataque é organizado, os passes têm fluidez e a criação de jogadas é em alto nível. Além disso, a saída de bola é um aspecto que merece estudo. A figura de Lemos, a onipresença de Mesa e a inteligência de Gómez garantem consistência nos primeiros passes. Ademais, quando Tana ou Jonathan Viera recuam para garantir apoio, o Las Palmas também ganha em opções para transitar de maneira mais veloz. Por falar em Jonathan Viera, o camisa 21 é outro talento. Se Roque Mesa constrói em zonas mais recuadas, Viera assume funções em zonas mais relacionadas aos metros finais. É o Messi canário: um jogador versátil ofensivamente, rico em dribles, com movimentos em diagonais sempre perigosos e inventivo. Enquanto isso, Kevin Prince Boateng (a maior contratação do clube no verão) segue se encontrando rodada após rodada (e o coletivo tem ajudado-o bastante). Jogando aberto à esquerda, o ganês ainda não é o que os dirigentes sonharam, mas só o fato de ter ajudas que potencializam o individual já garantem uma certeza de que a evolução é certa.

Foto: Site Oficial da Liga Santander | Roque Mesa (esquerda) e Jonathan Viera (centro): os dínamos do meio-campo amarillo

Foto: Site Oficial da Liga Santander | Roque Mesa (esquerda) e Jonathan Viera (centro): os dínamos do meio-campo amarillo

O que mais impressiona nos Las Palmas é a confiança com a qual a equipe joga. Peguemos como exemplo o empate contra o Real Madrid por 2 a 2, há duas semanas. Não foi nem de longe a melhor partida dos amarillos no ano (pelo contrário, em um aspecto geral foi uma má atuação), mas conseguiram sair com um ponto. O que explica? O simples fato de, mentalmente, o time acreditar que pode contornar qualquer situação. Em condições normais, o que o Real construiu naquele dia valeria para uma vitória confortável. Não conseguiu porque enfrentou um desses conjuntos originais que nascem com certa frequência na Liga Espanhola. Aproveitemos.

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Jornalista, carioca e apaixonado pela Liga Espanhola desde a época em que Rivaldo, Zidane, Figo e Raúl foram seus professores. Colaborou para o programa [email protected] da Rádio Globo São Paulo falando sobre o futebol do país das touradas. Repórter da Super Rádio Tupi.

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