Um Atlético de Madrid que joga

  • por Lucas Sousa
  • 10 Meses atrás

Diego Simeone recuperou o Atlético de Madrid nos últimos anos baseando seu jogo numa defesa consistente, contra-ataques fulminantes e bolas paradas pra lá de eficientes. Nos acostumamos a ver os Colchoneros com pouca posse, onze jogadores atrás da bola e o 1 a 0 a favor no placar. Em resumo, era uma equipe reativa, que não gostava de propor e entregava a bola para o adversário, desafiando-o a furar um dos bloqueios mais sólidos da Europa. O Atléti era assim, não é mais. O início da temporada 2016/17 mostra um Atlético de Madrid que também sabe jogar.

Foto: Ángel Gutiérrez - Simeone organizou um Atlético capaz de propor e se defender com eficiência

Foto: Ángel Gutiérrez – Simeone organizou um Atlético capaz de propor e se defender com eficiência

Desde a temporada passada Simeone já utilizava um ataque posicional, apontando na direção de ter mais posse e aprimorar os mecanismos ofensivos de seu 4-4-2. Não era aquele time voltado apenas a se defender, como também não era ótimo quando tinha a bola nos pés. Vivia mesmo o momento de transição entre o time campeão espanhol em 2013/14 e o que vai se desenhando como a melhor versão do Atlético de Madrid na era Simeone.

Essa transformação não aconteceu da noite para o dia e, muito menos, por acaso. É fruto do grandíssimo trabalho de Cholo e o resultado de uma série de fatores que se encaixaram para formar esse excelente time.

Griezmann: o ponto alto do ataque

Foto: Ángel Gutiérrez - Griezmann tem se consolidado como um dos melhores atacantes da atualidade

Foto: Ángel Gutiérrez – Griezmann tem se consolidado como um dos melhores atacantes da atualidade

O crescimento ofensivo do Atlético de Madrid passa diretamente por Antoine Griezmann. O francês chegou ao Vicente Calderón como um jogador de lado, mas foi transformado em um ótimo atacante nas mãos de Simeone e se transformou na melhor peça ofensiva da equipe. Partindo do centro do ataque, Griezmann circula por todo o campo, busca espaços nas costas dos volantes e, principalmente, infiltra muito na defesa adversária. Sem dúvidas o camisa 7 é um dos melhores do mundo quando o assunto é atacar o espaço e concluir em gol, virtude muito bem explorada pelo Atléti.

Essas características de Antoine são exploradas em estratégias adotadas pela equipe. Seu companheiro de ataque, seja Kevin Gameiro ou Fernando Torres, se coloca entre dois defensores, segurando-os para criar espaço entre as linhas de defesa e meio-campo do oponente. Griezmann circula por ali constantemente para receber bolas vindo de todas as regiões do campo. Sua qualidade na leitura dos espaços, aliada ao faro artilheiro que tem desenvolvido, faz do atacante a melhor arma ofensiva colchonera e o coloca entre os tops da posição.

Foto: Reprodução - Fernando Torres entre os zagueiros e Griezmann no espaço entrelinhas

Foto: Reprodução – Fernando Torres entre os zagueiros e Griezmann no espaço entrelinhas

Além de toda essa capacidade ofensiva, Griezmann mostra muito trabalho quando seu time não tem a bola. Infectado pelo “vírus Simeone”, o francês faz a primeira pressão com muita dedicação, se posiciona para fechar linhas de passe e volta até a intermediária defensiva se for necessário. Simeone melhorou Griezmann, e Griezmann melhorou o Atlético.

“(Simeone) me convenceu da importância de defender, algo que antes não fazia e agora é um prazer. E isso não me impede de fazer gols. Me transformou por completo. Com ele aprendo todos os dias, seja tatica ou tecnicamente”. Antoine Griezmann

Carrasco e Correa: reforços que já estavam na casa

Foto: Ángel Gutiérrez - Ferreira-Carrasco é um dos principais nomes do Atléti na temporada 2016/2017

Foto: Ángel Gutiérrez – Ferreira-Carrasco é um dos principais nomes do Atléti na temporada 2016/2017

Yannick Ferreira-Carrasco, um dos destaques do surpreendente Mônaco da temporada 2014/15, e Ángel Correa, revelação da Libertadores 2014 pelo San Lorenzo, não empolgaram de imediato com a camisa vermelha e branca. Carrasco até foi titular na maior parte da temporada passada, mas seus quatro gols em 29 partidas de Espanhol mostram que o desempenho este aquém do esperado. Terceiro reserva mais utilizado no último ano, Correa também decepcionou: cinco gols em 26 jogos.

No entanto, as mudanças táticas promovidas por Simeone deram vida nova a dupla e a alçou ao posto de componente fundamental no modelo de jogo proposto. Isso porque o Atlético de Madrid 16/17 utiliza muito as laterais do campo para agredir o adversário. A base ofensiva colchonera é o jogo pelos flancos, buscando incessantemente os pontas e os laterais. Nesse cenário, Carrasco e Correa são acionados com frequência, embora possuam funções distintas.

Foto: Ángel Gutiérrez - Jogando aberto ou centralizado, Correa é um dos destaques colchoneros

Foto: Ángel Gutiérrez – Jogando aberto ou centralizado, Correa é um dos destaques colchoneros

Ponta pela esquerda, Carrasco se mantém próximo à linha lateral na maior parte do tempo. O belga só deixa a região quando pode participar ativamente da jogada, ou seja, quando pode tocar na bola em situações de triangulações, aproximação ou condução. Dessa forma o Atléti pode extrair algumas das melhores virtudes do seu camisa 10: a jogada individual e o potente chute de perna direita partindo de fora pra dentro.

Na outra beirada, Correa tem se destacado como um jogador de mais mobilidade. Mesmo sem a bola o argentino transita pela região central. Assim como Griezmann, se aproveita dos espaços gerados pelo atacante entre as linhas adversárias para aparecer mais próximo à área em busca de finalizações. Quando está nessa faixa dialoga com a dupla de ataque, faz tabelas e infiltra na defesa. Em relação a Carrasco, Correa tem muito mais instinto atacante de se enfiar na área e chutar a gol.

Juanfran e Filipe Luís: avalanche pelos lados

Como equipe que visa atacar o oponente pelos flancos, os laterais do Atlético de Madrid recebem papeis importantes. Eles são responsáveis pela amplitude do ataque desde a saída de bola até os últimos metros do gramado. Isso quer dizer que, quando a bola ainda está com o goleiro, Juanfran e Filipe Luís já grudam nas linhas de lado para alargar a área de atuação da sua equipe.

Um comportamento fundamental para o jogo posicional colchonero parte da movimentação sem bola de seus laterais. Eles se adiantam e levam consigo o ponta do time adversário, empurrando-os para trás e gerando espaço para seu time sair jogando com passes curtos. Esse movimento insere Gabi e Koke na construção do ataque, já que eles abrem para ocupar o setor deixado pelo lateral.

Foto: Reprodução - Lateral (circulados) avança e empurra o jogador adversário. Koke abre para ocupar o espaço deixado e iniciar o ataque colchonero

Foto: Reprodução – Lateral (circulado) avança e empurra o jogador adversário. Koke abre para ocupar o espaço deixado e iniciar o ataque colchonero

Além desse trabalho na iniciação das jogadas, Juanfran e Filipe são importantíssimos no terço final do campo. Sempre bem abertos, fazem ultrapassagens (principalmente associadas com diagonais dos jogadores ofensivos, que levam os adversários para dentro e abre o lado), recebem inversões de jogo para abrir a defesa e tabelam com os pontas. Em todo ataque vermelho e branco a dupla incomoda de alguma forma. É impressionante a dedicação de ambos em campo aos 31 anos. Atacam e defendem com muita intensidade, não param de correr um minuto sequer.

Koke: quem torna tudo possível

A principal engrenagem desse novo Atlético de Madrid é Koke. Jogando ao lado de Gabi na volância, o camisa 6 comanda as ações ofensivas, se evolvendo com todos os jogadores do time. Ele se movimenta basicamente de maneira horizontal, ou seja, de um lateral a outra, sem avançar muito em direção ao gol. Sua função é acionar os laterais, os pontas e os atacantes, por isso é importante que sempre seja opção de passe para algum desses companheiros. Koke é quem mais toca na bola e isso dá fluidez ao jogo, fazendo o time andar.

Foto: Ángel Gutiérrez - Como meio-campista Koke faz o Atlético de Madrid jogar

Foto: Ángel Gutiérrez – Com Koke de meio-campista o Atlético cresceu ofensivamente

Sua qualidade permite que o time tenha várias opções na hora de atacar. Frequentemente vemos o Atlético atrair o adversário para um lado do campo e então Koke inverte o jogo de uma vez, acionando o lateral do lado contrário que está livre. Esse tipo de lance pode gerar vantagem numérica contra o oponente (alguém no mano-a-mano ou até dois contra um no lado que recebe a inversão), abrir espaços entre os jogadores da defesa e cansar o adversário, que fica correndo de um lado para o outro.

“Temos trabalhado muito tempo com Koke para que possa ocupar essa posição importante no meio, coisa que não fará sempre. Ele é determinante quando joga nesse lugar porque nos da muita fluidez de jogo e nos possibilita ter mais ferramentas em algum dos lados.” Diego Simeone

Ele também abastece o ataque com passes verticais, que furam as linhas da defesa e encontram os atacantes nas costas dos volantes. O crescimento de Griezmann também tem a contribuição do meio-campista. Afinal, de nada vale abrir espaços para o francês se não tiver alguém para encontra-lo com um passe, e Koke é esse cara. É um trabalho conjunto para que o time possa atacar bem: um abre o espaço, outro ocupa esse espaço e um terceiro faz a bola chegar lá. E um leque de possibilidades que se abre com o simples deslocamento do camisa 6 para o centro do campo.

Após parar em mais uma final de Liga dos Campeões, Simeone deu um passo importante para que o Atlético de Madrid siga competitivo e possa voltar a final continental. Os Colchoneros evoluem muito ao treinar e desenvolver planos para atacar bem, necessidade que surgiu desde o retorno ao grupo dos grandes do continente. Isso tudo sem deixar de lado a entrega, dedicação, paixão e a fortaleza defensiva que caracterizou a equipe nos últimos anos. O Atléti cresce ainda mais.

Comentários

Mineiro e estudante de jornalismo. Admira (quase) tudo que cerca o futebol inglês, não esconde seu apreço por times que jogam no contra-ataque (sim, sou fã do Mourinho) e acha que futebol se discute sim. Também considera que a melhor invenção do homem já ultrapassou os limites do esporte.