Antonio Conte e a metamorfose do 3-4-3

  • por Israel Oliveira
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A chegada de Antonio Conte ao Chelsea foi bastante aguardada e tida como fio de esperança para dias melhores. Após uma temporada 15/16 “desastrosa”; com direito a demissão do ídolo Mourinho e término em 10º lugar na EPL, a vinda do estrategista italiano era incensada como oportunidade de melhor aproveitamento do vasto elenco do clube londrino.

Início cauteloso (e difícil nos grandes jogos)

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Nos quatro primeiros jogos do Chelsea na EPL; jogando no 4-1-4-1 (contra West Ham, Watford, Burnley e Swansea), o time encontrou cenários idênticos em cada partida: domínio da posse de bola (teve mais de 60% de posse em todos os duelos) e propondo o jogo. Já que o sistema ofensivo se encontrava em formação sob comando de Conte, tudo dependia demais de Hazard e Diego Costa. Algo que ficaria exposto na difícil sequência contra Liverpool e Arsenal.


Leia mais: As escolhas de Conte e os primeiros traços do Chelsea


Por serem conjuntos que atuam juntos há mais tempo; Liverpool, Tottenham e Arsenal principalmente, já era esperada superioridade coletiva dos rivais diretos pelo título inglês. Mas a forma como ela ocorreu ligou o sinal de alerta para Antonio Conte.

Principalmente no primeiro tempo dessas duas partidas, o Chelsea foi dominado de forma impiedosa.

Tendo campo mais estreito para trabalhar a bola nestes jogos, o time não conseguia trocar passes como nos primeiros jogos; tampouco acionar Eden Hazard e Diego Costa para situações favoráveis no jogo. Acima de tudo, os blues se defendiam mal e não ofereciam resistência aos já entrosados ataques adversários.

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Tomando um acachapante 3×0 do Arsenal, Conte foi pragmático e mudou a formação para um 3-4-3; buscando equilíbrio defensivo e evitar uma goleada histórica do rival. Dentro do próprio jogo, apesar dos gunners terem reduzido o ritmo, o esquema mostrava um bom caminho; com a bola chegando mais rapidamente ao terço final do campo e garantindo mais segurança defensiva a meta de Courtois. Impressão essa que se consolidaria nos jogos seguintes.

Surgindo numa situação emergencial, o 3-4-3 de Antonio Conte virou marca de uma sequência impressionante dos azuis de Londres.

Entenda melhor esta metamorfose.

Três zagueiros para proteger a área … e armar o jogo (!?)

Todos sabem que David Luiz é um jogador difícil de ser “controlado” taticamente. Extremamente inconstante e irregular durante os jogos, numa linha de 4 defensores consegue destruir e destabilizar um sistema ao natural.

Conte tem a fama de fazer seus zagueiros evoluírem. Mas os primeiros movimentos do zagueiro brasileiro em seu retorno ao Stanford Bridge foram inseguros e desastrosos; além da dificuldade inicial proposta pelos adversários de alto nível.

Toques, passes, passes na área adversária, cabeceios defensivos, bloqueios e arrancadas dos zagueiros nos primeiros 04 jogos no sistema 3-4-3 (Hull City, Leicester, Southampton e Manchester United). | Créditos da imagem: Sky Sports

Para proteger melhor seu gol, Conte elegeu David Luiz, Azpilicueta e Cahill para protegerem a área.

Jogar ao lado de dois zagueiros é um sonho para David Luiz; que pode sair a caça da referência em diversos momentos sem deixar um buraco às suas costas. Assim, o brasileiro está num contexto que lhe permite usar e abusar de seu vigor físico. Apesar de que Cesar Azpilicueta, lateral de origem, geralmente também recebe essa liberdade, até por ser um jogador ágil e especialista no combate terrestre. Gary Cahill é o que mais guarda a posição no momento defensivo, e vem demonstrando segurança. Quando o inglês está num sistema que lhe protege, não compromete. A trinca sempre está em superioridade numérica em relação ao adversário e recebe um ótimo suporte dos laterais/alas e volantes.

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Estatísticas dos 06 primeiros jogos do Chelsea no novo esquema implantado por Antonio Conte. Espetacular.

Geralmente quando as coisas não funcionam na armação de um time, automaticamente associamos a ausência de um camisa 10. Porém, no Chelsea, esta função é dos zagueiros. Tocam a bola pacientemente entre si, alargam o campo, conduzem a bola; vão ao campo de ataque e lançam com bom aproveitamento buscando os diversos receptores no campo de ataque.

David Luiz apesar de ser instável defensivamente, sempre mostrou qualidade com a bola nos pés. E o atual modelo é um convite para seus recursos ofensivos. Assim como Azpilicueta também se aproveita da experiência de lateral para levar a bola ao ataque. Gary Cahill também vem se encontrando muito bem familiarizado, arriscando inversões e passes verticais. Não é raro Matic ou Kanté baixarem alguns metros para atrair a marcação e gerarem espaço para as aventuras dos zagueiros no ataque.

Créditos da imagem: whoscored.com

Créditos da imagem: whoscored.com

Menor sobrecarga para Kanté e Matic

Kanté e Matic são conhecidamente marcadores da maior qualidade, cada um com seus métodos. E o advento dos três zagueiros só fez a dupla crescer – principalmente o sérvio, que fez péssimo 2015/2016. Se no Leicester, Kanté podia correr o quanto quisesse para desarmar; no Chelsea encontrava dificuldades tendo que proteger mais a frente da defesa. Vem se adaptando cada vez mais, mas tem mais liberdade para seus sprints de tirar o folego. Matic antes atuava de interior, e mostrava certa lentidão pra proteger seu setor. Agora marcando mais próximo a área e alinhado à Kante, reencontra seus melhores momentos defensivos.

Mais do auxílio defensivo, a nova formatação deu vida a Kanté e Matic quando estão com a bola no pé. Se antes precisavam iniciar o jogo, selecionar passes e ditar o ritmo – nenhum dos dois sendo muito criativo na saída de bola -; agora precisam apenas dar sequência ao jogo, assim como fazem Busquets, Weigl e outros volantes da elite. Os alas sempre desmarcados também colaboram para os dois, principalmente Kanté, que vem acertando o pé em seus passes longos.

Ambos também possuem liberdade para atacar, principalmente quando o Chelsea concentra um número alto de jogadores próximos a área.

Ladeado a nomes consagrados na arte de deixar os companheiros na cara do gol, como Coutinho e De Bruyne. Nada mal para Matic. | Créditos: Premier League.com

Ladeado a nomes consagrados na arte de deixar os companheiros na cara do gol, como Coutinho e De Bruyne. Nada mal para Matic. | Créditos: Premier League.com

Nemanja Matic é o vice-líder de assistências da Premier League (até a 12ª rodada).

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E Kanté já fez golaço contra o Manchester United.

Na somatória dos jogos, todos atacam e participam do jogo ofensivo.

Alas

Se nos times de Guardiola os laterais muitas vezes atuam por dentro pra garantir uma saída de bola limpa; no Chelsea de Antonio Conte eles servem para alargar o campo e atacar o tempo inteiro. Victor Moses e Marcos Alonso simplesmente não param de atacar, sempre ao mesmo tempo.

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Quando um chega mais ao final do campo e passa para a área, o ala do lado oposta fica mais por dentro para finalizar e acompanhar o seguimento da jogada.

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Estatísticas de Moses em seus primeiros 04 jogos na função designada por Antonio Conte. O nigeriano parece ter se encontrado em alto nível, jogando como ala. | Créditos: whoscored.com

Moses parece que encontrou sua posição. Se sente um Cafu, tamanha confiança e autoridade no lado direito do campo. A função se encaixou perfeitamente aos seus atributos físicos. E tecnicamente vem correspondendo, sendo que geralmente necessita apostar corrida com os defensores adversários ou acionar um dos homens de ataque. O espanhol Alonso chegou para completar o elenco e vem correspondendo positivamente, embora ainda falte um acerto técnico maior.

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Defensivamente, ambos recuam e se alinham aos três zagueiros, onde ambos correspondem muito bem, principalmente o nigeriano em confrontos diretos.

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Trio de Ataque

Como são os alas que ocupam o limite da linha lateral, cabe ao trio de ataque jogar por dentro e causar o caos nas defesas adversárias. O posicionamento inicial é Eden Hazard à esquerda, Pedro na direita e Diego Costa no centro. Porém, no jogo existem diversas mutações, principalmente do craque belga, que constantemente vai ao encontro da bola para produzir jogadas no terço final.

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Diego Costa segue sendo letal: O segundo jogador que melhor converte gols a cada chute (24.3%); o terceiro que mais chuta no alvo e o quarto que mais finaliza em todo o Campeonato Inglês | Créditos da imagem: Sky Sports

Diego Costa segue o mesmo atacante de sempre: um tanque, rompedor de defesas, de muita entrega e faro de gol. Cada vez mais letal em seus jogos. O desenho atual favorece o atacante que além de criar muito para si mesmo, vem recebendo mais chances de gol.

Pela direita, jogam Pedro (titular no momento ou William). Enquanto o Brasileiro é mais garantia de dribles, o espanhol mostra muito oportunismo e entendimento dos movimentos coletivos da equipe.

Por último, mas definitivamente o mais importante, vem o craque do time (se redimindo sob a batuta do novo comandante):

O melhor Hazard possível

Após temporada 15/16 pouco inspirada, Eden Hazard vem mostrando o futebol que o consagrou como melhor jogador da EPL 14/15. Embora, há de se marcar que de jeito diferente. O belga serve os companheiros e passa numa frequência menor, mas vem se mostrando cada vez mais atacante e goleador.

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Respectivamente: Jogos; gols / assistências; chutes por jogo, passes-chave por jogo, dribles por jogo, passes por jogo, % de acerto de passes. Vemos um Hazard mais completo, mais participativo e finalizador de jogadas. | Créditos: whoscored.com

 

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No 3-4-3 idealizado por Conte, Hazard é um atacante que se movimenta livremente. Como o esquema de posicionamento feito pela BBC mostra, o belga fica grande parte dos jogos à frente até mesmo do matador Diego Costa. | Créditos das imagens e fontes de dados: posicionamento médio do Chelsea (BBC); Gols, assistências e números respectivos de Hazard na atual temporada (whoscored.com)

Quando recebe a bola, sempre busca um destino vertical às jogadas; geralmente combinando com Diego Costa, com Alonso ou Pedro num ataque ao espaço vazio. Antonio Conte viu que um jogador do talento de Hazard, “fixo” apenas num lado do campo era desperdício. E que aparecendo em todos os setores, se torna um problema para as defesas inglesas.

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É o craque do time. A quem mais se atribuí o sucesso ofensivo da equipe; que é de naturalmente refém da sua capacidade de atacar, criar, driblar e conduzir a bola.

Geladeira de Antonio Conte

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As mudanças promovidas por Conte geraram excelentes resultados, porém, nada acontece sem gerar impactos. Jogadores do quilate de John Terry, Michy Batshuayi e Cesc Fabregas perdem espaço até na rotação do elenco.

O zagueiro inglês talvez não tenha o mesmo vigor físico de Cahill para participar do ataque. E desmontar a defesa que não tomou gol em 6 jogos consecutivos não aparenta ser muito justo com o elenco. O atacante belga, que no começo da temporada sempre foi utilizado como fato novo para modificar o panorama de jogos; duplando com Diego Costa e aumentando a presença de área. Agora, sequer deve ser cogitado num onze inicial enquanto o hispano-brasileiro não ser suspenso ou se lesionar. O meia catalão no início da trajetória de Conte despontou como uma solução, por sua capacidade de criar e iniciar o jogo, mesmo que deixasse dúvidas quanto a sua intensidade. Agora, num esquema que não presa tanto pela figura do meia passador, deve ficar escanteado nesse momento.

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E ainda temos o futuro retorno de Kurt Zouma; defensivamente talvez seja o melhor jogador do elenco do Chelsea, e que tem características que se encaixam nas tarefas dos zagueiros, até porque já jogou de volante com José Mourinho.

Sucesso e mais testes importantes à frente

Após início turbulento na Premier League, com a defesa sofrendo gols em quase todas as partidas, o Chelsea parece ter atingido alto grau de estabilidade defensiva e de assimilação das ideias de seu treinador.

O treinador foi merecida e incontestavelmente eleito o melhor do mês de outubro.

O treinador foi merecida e incontestavelmente eleito o melhor do mês de outubro.

Tudo isso graças ao trabalho de Antonio Conte, que percebeu a tempo as necessidades e características do time londrino. O 3-4-3 simplesmente usa o que o Chelsea tem de melhor e vem se mostrando mais versátil que o esperado. A posse de bola da equipe é de 52%; que também já mostrou que consegue alternar entre ser reativo e propor o jogo.

As partidas contra Manchester United e Everton servem para resumir o altíssimo nível de equilíbrio alcançado pelo Chelsea de Conte:

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https://www.youtube.com/watch?v=ZehwY3V_S14

Porém, como sempre no futebol de alto nível, a cada jogo o 3-4-3 será testado a respeito de sua eficiência. Os próximos dois jogos são de suma importância para averiguar a solidez e maturidade do esquema montado por Antonio Conte: enfrentar Tottenham (casa) e Manchester City (fora) serão ótimos parâmetros acerca do nível atual do Chelsea.

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