País de Bale

  • por Victor Mendes Xavier
  • 9 Meses atrás

É muito difícil, é praticamente impossível explicar em pleno século XXI quem foi Diego Armando Maradona. O mundo mudou, os tempos são outros e o conceito de jogo desapareceu. Agora o que existe é a estratégia global e a “identificação” é mais complicada de sentir. Ocorre que, felizmente, a cada seis ou sete anos aparece um contexto que se junta à experiência do outro mundo, que quer viver neste o que outros viveram naquele. É o caso de País de Gales. Um povo novo que jogou uma Eurocopa em alto nível em 2016 com uma particularidade que o diferenciava dos demais: a bênção de ter um jogador como Gareth Bale, um jogador que, quando está representando seu país, muda o seu patamar e veste a capa de herói em todas as noites. Sem exceção.

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Bale suporta todo o peso de uma nação. Encerrado o hino nacional, a esperança de três milhões de almas se convertem em pressão e recaem sobre seus ombros, mas ao mesmo tempo a energia de cada uma se transforma em paixão e impulsiona o meia-atacante. Em condições normais, o natural de Cardiff é fantástico.

Por isso, o Real Madrid pagou uma fortuna para tirá-lo do Tottenham. Depois de quebrar a hegemonia do Barcelona de Guardiola na Liga Espanhola, Florentino Pérez sabia, em 2013, que seria a hora definitiva de recuperar o prestígio em terras europeias. A obsessão pela conquista da décima taça de Liga dos Campeões tinha que acabar. Sim ou sim. Então, foi a Londres buscar aquele enérgico extremo em plena evolução para se juntar a Cristiano Ronaldo e dar o passo final rumo à glória continental. Três anos depois, o Real não só conquistou La Décima, como também somou à sua vitoriosa história a Undécima.

Mas acontece que o Bale de Gales é outra coisa. Não melhor ou pior. Mas diferente. Monopolizou a produção goleadora ao chegar a um ponto de haver participado de 78% dos gols da equipe durante a fase classificatória para a Eurocopa: foram sete gols e duas assistências no geral. Não cabe dúvida de que esse é o maior recurso que o meia-atacante oferece ao técnico Cris Coleman, mas é bom deixar claro que o sistema de jogo é totalmente dependente das ações do camisa 11 em campo.

A proposta que o comandante achou para competir foi organizar um esquema com uma linha de cinco atrás, evidenciando a tendência de recuar e atacar com velocidade e verticalidade ao recuperar a bola, aproveitando a potência de Bale, sem uma posição definida. Na teoria, o craque tem toda a liberdade do mundo para atuar como uma espécie de segundo atacante ou camisa 10, auxiliando Robson-Kanu, a referência. Bale cai muito pelas pontas, mas sua principal função é gerir o contra-ataque recebendo numa zona mais central. A Gales, é conveniente entregar a bola ao adversário e apostar em um jogo conservador porque Bale permite agressividade e profundidade mesmo se receber uma bola a 40 metros do goleiro rival.

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Em território francês, quando expôs para o mundo sua autoridade, personalidade e heroísmo quando o assunto é defender sua pátria, Bale demonstrou ser capaz de quase tudo. Vimos aparecer em qualquer posição do campo, tomar decisão com o mais absoluto critério, ter gestos técnicos maravilhosos, fazer jogadas impossíveis, receber no meio-campo e, mesmo assim, criar uma ocasião de gol. Em resumo, foi (e é) um tormento. Sofreu, lutou, venceu batalhas, mas não venceu a guerra. Perdeu, evidentemente. Em primeiro lugar, porque não é Maradona, caso contrário haveria conquistado a taça. Em segundo, porque perdeu para Cristiano Ronaldo. O futebol é como uma balança. Coloca-se em cada lugar o que pesa cada jogador. E quando um enfrenta o outro, como naquela noite de Lyon, ao galês todavia restam quatro anos para tentar ser mais decisivo que o gajo.

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A missão de Bale na terra ainda não acabou. A penúltima prova consiste em colocar País de Gales em uma Copa do Mundo. Mesmo após a Eurocopa, a seleção ainda é vista como uma surpresa. Sua história já foi escrita e cravada como lendária. Mas Bale quer mais. Não está satisfeito. Tem um desafio e quer levar seu exército para a Rússia. Com ele começou a aventura em uma heroica classificação inédita à fase final de Euro, com ele continuou através de sua ascensão no torneio na França, que permitiu aos outros 22 guerreiros ganhar confiança suficiente para acreditar que era possível, e de Bale é agora a incumbência de que a história (ainda) não pode terminar. Os dois últimos tropeços de Gales, contra Geórgia e Áustria, colocaram a equipe na terceira colocação do grupo D, atrás de Irlanda e Sérvia.

Hoje, os galeses estariam fora do Mundial. Mas Bale já mostrou que gosta de desafiar o impossível. Como o bom e velho Diego Maradona.

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Jornalista, carioca e apaixonado pela Liga Espanhola desde a época em que Rivaldo, Zidane, Figo e Raúl foram seus professores. Colaborou para o programa Esporte@Globo da Rádio Globo São Paulo falando sobre o futebol do país das touradas. Repórter da Super Rádio Tupi.