As estrelas de José Mourinho

  • por Victor Mendes Xavier
  • 10 Meses atrás

Foto: Site Oficial da Uefa | José Mourinho e Zlatan Ibrahimovic se conheceram há oito anos e foram comandante e comandado, respectivamente, por apenas uma única temporada, na Inter de Milão

José Mourinho tem um plano que está melhorando o Manchester United. Depois de três temporadas opacas sob os comandos de David Moyes e Louis van Gaal, o planejamento da diretoria a partir do mercado deixava claro o interesse em retomar o poder na Inglaterra. No verão, a maior contratação foi Zlatan Ibrahimovic. Mourinho e Ibrahimovic se conheceram há oito anos e foram comandante e comandado, respectivamente, por apenas uma única temporada. Desde então, ambos percorreram caminhos diferentes e escreveram capítulos com histórias positivas e também negativas, é claro. O reencontro em Old Trafford já deixara dúvidas antes mesmo do novo contato: como Mourinho, astuto do jeito que é, valorizaria Zlatan após quase uma vida? O estilo do sueco, estático e pausado, contrasta com a livreta de um treinador que revolucionou o futebol subindo duas marchas sua máxima velocidade permitida. Ainda que a irregular segunda passagem pelo Chelsea tenha reduzido o miticismo que envolvia a sua figura, os princípios e as formas do gajo continuam os mesmos de outrora: leva seus futebolistas ao limite do emocional e aposta por um modelo baseado nas transições.

Em contrapartida, Ibra, com o tempo, foi perdendo cada vez mais velocidade. Se, com 23 anos, já se tratava de um centroavante de mobilidade escassa e que baixava a execução dos ataques até os zero km/h quando era conveniente, agora com 34 a tendência, logicamente, dobrou. No entanto, como um vinho, quanto mais velho, melhor fica Zlatan. Frio, calculista e inteligente para reparar as mudanças físicas, o artista escandinavo não teve nenhuma dificuldade para se readaptar a uma nova natureza, mantendo o status de homem diferencial. Laurent Blanc, por exemplo, construiu um projeto muito interessante em torno de Ibrahimovic e a sua capacidade de exercer de quarto meio-campista em uma fase ofensiva organizada (leia mais: O meio-campista Ibrahimovic). Durante os ataques posicionais do Paris Saint Germain, sobretudo na temporada 2015/2016, o atual camisa 9 do United controlava o andamento das trocas de passes como um autêntico maestro. Não à toa, o PSG se caracterizou pela posse lenta; mas nem de longe isso era um defeito. A imaginação, a finura, a classe, a imposição e o veneno de Ibra transformavam essa posse em um antídoto perigoso.

Se me perguntassem se Mourinho, passado um semestre de temporada, está priorizando a idealização de seu esquema no United em volta de Ibra, minha resposta seria, sem titubear, “não”. E, deixando claro que esse texto não tem a intenção de cravar nenhuma sentença, minha argumentação parte dos princípios que ficarão melhor evidenciado neste e nos demais parágrafos. Primeiramente, ao analisar os mecanismos da atual equipe do Red Devils, percebe-se que o teor destes não é buscar diretamente Ibrahimovic, até porque o sueco não é mais um exímio manejador das ligações diretas, como nos tempos de Inter (especialmente a de Roberto Mancini) e Milan, em especial, que apostavam nesse dispositivo. Hoje, o primeiro foco do Manchester é a saída curta. O passo seguinte é, ao passar do meio-campo, atacar com muita velocidade, fundamentalmente pelos lados (ato que, como explicado, diverge com Ibra, quiça o atacante de elite mais pausado do mundo).

É um time muito exterior: todos os primeiros passes estão orientados para serem recepcionados pelos laterais ou pelos pontas, ao ponto de que os dois interiores propendem a se deslocarem aos flancos e também irem à linha de fundo, desmarcando-se com frequência de fora para dentro. Tais características priorizam a Ibra um aspecto: a finalização. Já são 13 gols em 20 jogos na temporada. Atributo que, na convicção deste que vos escreve, o veterano atacante evoluiu bastante em sua última temporada no Parc de Princes: no que diz respeito a rematar jogadas a um toque, a versão de Ibra com Blanc foi, talvez, a mais contundente. Provavelmente pensando nessa aptidão que Mourinho resolveu dar sentido ao seu United que não tem em Zlatan o protagonista que interpreta a filosofia.

Então, quem (ou quais) seria(m) a(s) estrela(s) da parte vermelha de Manchester a que Mou se agarra? Os meios-campistas, é claro, mais precisamente Paul Pogba e Ander Herrera, jogadores cujo o português mais está trabalhando na hora de potenciar o coletivo visando a superioridade. O Manchester “é” e (dá a impressão que) “será” (totalmente) da dupla franco-espanhola. Como minha finalidade não é palpitar acerca do futuro, vamos ressaltar o presente.

Foto: Site Oficial do Manchester United | Dessa vez, Mourinho resolveu não construir seu projeto em torno do seu craque (Ibrahimovic), e sim a partir do seu meio-campo, mais precisamente os interiores do 4-3-3 (Ander Herrera e Paul Pogba)

Ander Herrera é a referência com a bola. O basco é quem, na maioria das partidas, mais vezes toca na pelota, ratificando ser quem já foi em seu último ano no Athletic Bilbao, com Ernesto Valverde, ainda que, na Espanha, fez mais as vezes de enganche, adiantado (leia mais: O novo meio-campista do Manchester United). O segredo para o sucesso do meia é mesclar os elementos de um típico interior de posse espanhol com a intensidade de um volante inglês. Em outras palavras, Ander parece ter nascido para triunfar na Premier, sem, necessariamente, abdicar das características que desenvolveu em La Liga: ordenar sua equipe e também ter físico e força para abarcar metros, pressionar à frente e dar um passe vertical quando necessário. Chega a ser curioso como o primeiro sistema do Manchester de Mourinho, basicamente um 4-2-3-1, não contava com Ander: Fellaini e Pogba formavam a dupla de volantes e Rooney atuava de camisa 10, auxiliando Ibrahimovic. Curioso porque, para ser o mais simples possível, Herrera teve que convencer Mou de que deveria ser titular e é um jogador essencialmente “mourinhista”: ao espanhol, não lhe falta nada do que exige o português e suas peculiaridades fomentam o entorno, tal qual Wesley Sneijder, que viveu seu auge com Mourinho na Inter de Milão. No caso de Sneijder, sua determinação encantou o natural de Setubal; com Ander é a criatividade, que no futebol do século XXI, onde a busca pela criação de espaços é incessante, é cada vez mais imprescindível.

Criação e criatividade também tem Paul Pogba. Se Ander Herrera é o dono da bola e dos passes, Pogba é o dono dos espaços e do físico. Tampouco é que seja pouco fazer essa associação por 100%, porque a versatilidade da dupla é visível: em alguns duelos, Pogba tem mais cuidado com a elaboração das jogadas e Ander ganha mais linha de fundo. Mas, até para tirar melhor proveito de ambos, para Mourinho é mais lucrativo ter Herrera de modelo de posse, já que Paul ganha mais tempo para se mover, ocupar espaços e chegar por trás. Mais livre, o francês, de interior esquerdo, pode receber próximo do gol adversário e dar um passe, um drible ou finalizar. Em suma, é um jogador completo, que exibe um bom nível na Inglaterra.

Ter esses dois interiores como líderes do modelo de jogo permite ao United ter precisão e velocidade para atacar com verticalidade e rapidez. E é essa agilidade na hora de trocar passes nos últimos metros de campo que garantem ao Manchester o selo Mourinho. Portanto, é errado cair no senso comum de que o comandante bi-campeão da Champions ainda não emplacou em sua nova casa. O trabalho está em andamento, um time está em formação e suas marcas já foram e estão sendo implantadas. E o mês de dezembro foi importante para Mou estabelecer seu padrão: quando se vê um jogo do United, já dá para reparar quem é seu treinador.

Foto: Site Oficial do Manchester United | O mês de dezembro foi importante para Mourinho estabelecer seu padrão: quando se vê um jogo do United, já dá para reparar quem é seu treinador.

Ademais, os mancunianos necessitavam de dois meias da estirpe do espanhol e do francês, porque os dois já perceberam o ritmo que o time e o treinador pedem e que os atacantes exigem. Talvez por isso já começamos a ver um bom Mkhitaryan, que entre linhas se move bem e pode ser lançado ao espaço, e o puzzle do meio-campo começa a ser montado de maneira eficiente. Defensivamente, no que ganha o Manchester com Ander e Pogba de interiores? Muita coisa, pois bem. Além da habilidade, impressiona o jeito como os camisas 6 e 21 influenciam sem a bola, muito pelo vigor e a energia em campo contrário, dando coerência às estratégias históricas da carreira de Mou como treinador: a nitidez para verticalizar e a qualidade para marcar no campo de ataque. Na vitória por 1 a 0 contra o Tottenham, o Manchester colocou a saída de jogo dos Spurs em apuros.

Estamos falando de Ander e Pogba como uma parceria que tem lógica, pois os atributos de um combinam com o de outro. Mas é importante analisar todo o contexto, porque há variações dentro do ecossistema vermelho.

– Por que o 4-3-3 funcionou melhor que o 4-2-3-1?


Em primeiro lugar, embora a tática com um enganche (na maioria das vezes, Rooney ou Mata) tenha dado posse mais alta, essa variante deu menos espaço, agressividade e pulsação ao United como todo. As consequências eram negras. A descontinuidade no ataque era perceptível e os adversários dominavam com facilidade as segundas jogadas, já que, ao estarem sempre bem posicionados e nunca desordenados, ganhavam os rebotes e saíam em transição. Dessa forma, por exemplo, De Bruyne e David Silva fizeram um estrago no dérbi de Manchester da Premier, na quarta rodada, na vitória do City por 2 a 1, no Teatro dos Sonhos.

Por outro lado, fixar Pogba no doble pivote reduz as virtudes do francês de jogar à frente da bola e a liberdade para se juntar ao ataque. Além disso, o United perde em capacidade de associação. Seja Rooney ou Mata, o escalado para jogar por trás de Ibrahimovic pende a ser relacionar com o último passe, paralisando as movimentações e estabilizando as posições. Resumindo: o Manchester não só ataca, como joga mal com uma linha de três meias e dois volantes.

– A questão Michael Carrick
Os números não mentem: com Carrick em campo, o Manchester venceu nove vezes e empatou duas. O impacto é claro. Único primeiro volante puro a quem Mourinho parece confiar, os movimentos do inglês servem de referência para Ander e Pogba darem um passo à frente. Mais: é capaz de protagonizar uma saída de bola, desafogando o espanhol e o francês e também os extremos, concedendo tempo para que se ajustem melhor. Martial e Mkhitaryan são os mais favorecidos com o triângulo no meio-campo com Carrick de primeiro volante.

Outro ponto fascinante de verificar é a hierarquia que Carrick tem. Aos 35 anos, o britânico disputou 432 partidas com a pesada camisa vermelha e é, ao lado de Rooney, um dos remanescentes dos tempos de glórias de Sir Alex Ferguson com Cristiano Ronaldo, entre 2006 e 2009 (leia mais: A bomba atômica). Na final da Liga dos Campeões de Moscou em 2008, foi titular ao lado de Scholes no triunfo contra o Chelsea. Ou seja: Michael conhece de cabo a rabo a identidade vencedora da instituição e o Manchester não pode esquecer de suas raízes. A experiência de estar no topo do mundo com o United só Carrick tem o peso de dizer que já viveu. Mentalmente, é um pai para todo o plantel.

Foto: Site Oficial da Uefa | Do elenco atual do United, Michael Carrick é, ao lado de Wayne Rooney, o único remanescente dos tempos de glórias com Sir Alex Ferguson e Cristiano Ronaldo, entre 2006 e 2009, e, portanto, conhece a identidade vencedora da instituição. O volante foi titular no triunfo contra o Chelsea na final da Liga dos Campeões de 2008, em Moscou, na Rússia

O que conta como negativo é a parte física. Carrick não é mais um menino e se lesiona com facilidade. Pode ser que, ainda nesta temporada, Mourinho tenha que modificar seu sistema pela ausência do inglês. Um problema semelhante ao de Diego Simeone no Atlético de Madrid: se Tiago, o primeiro volante diferencial do elenco, tivesse cinco anos menos, Cholo teria menos dúvidas na hora de definir sua equipe.

Recapitulemos: Ibrahimovic tem decidido muitas partidas (ainda que não no mesmo ritmo que decidia na Itália ou na França). Mas Pogba e Ander estão mudando silenciosamente o United. Arquitetar um plano em cima da jovem parceria tem coesão. Defeitos? Há, óbvio; não é uma equipe perfeita e seus melhores oponentes têm golpes para castigá-lo. Mas Mou encontrou um esquema, está desenvolvendo-o e o Manchester United está crescendo. Aproveitemos as próximas cenas.

Comentários

Jornalista, carioca e apaixonado pela Liga Espanhola desde a época em que Rivaldo, Zidane, Figo e Raúl foram seus professores. Colaborou para o programa Esporte@Globo da Rádio Globo São Paulo falando sobre o futebol do país das touradas. Repórter da Super Rádio Tupi.