O Pato de Milão

  • por Victor Mendes Xavier
  • 7 Meses atrás

“Voltar à Europa e jogar em um time grande como o Villarreal é um grande desafio. Estou bem e concentrado naquilo que tenho de fazer para jogar em alto nível. Estou certo de que o Villarreal me dará tudo que preciso para jogar em alto nível”.

Demorou, mas Alexandre Pato enfim teve o seu primeiro grande momento no Villarreal. Se a sua temporada, até então, rendia debate, a exibição diante do Sporting Gijón, na última rodada do ano, deixou claro que ainda existe um jogador de nível. Foi somente um gol na vitória amarilla por 3 a 1 fora de casa, mas o arsenal técnico exibido pelo paranaense encheu os torcedores do Villarreal de orgulho e esperança para o segundo semestre e até mesmo os torcedores do Gijón, que o aplaudiram ao ser substituído por Leo Suárez. Proteção de bola, apoio ao campo de defesa pra ajudar na saída e nas transições, inspiração nos dribles, confiança para executar jogadas e, principalmente, agilidade para se movimentar e dar dinamismo ao ataque.

Se o Sporting tem se caracterizado pelo estilo mais conservador, dessa vez o treinador Abelardo Fernandez optou por uma equipe mais agressiva na pressão para combater o “novo” Villarreal de Fran Escribá, menos militar e focado mais nos ataques posicionais do que na época do seu antecessor, Marcelino García Toral. Até por isso, Pato concentrou muitas ações às costas da dupla de volantes gijonesa, formada por Sérgio Álvarez e Rachid. E, quando escapava, encarava no um a um o terceiro zagueiro Mere, incapaz de pará-lo nos 90 minutos. O brasileiro desfilava como se estivesse no San Siro em 2010.

A Pato, as limitações físicas nos últimos anos sempre foram as justificativas para a irregularidade demonstrada em suas últimas equipes. No Villarreal, os lampejos são semanais, mas, de fato, faltava maior impacto dentro do sistema desenhado por Escribá e, obviamente, os gols. Até o jogo contra o Gijón, eram somente quatro (um pela UCL, um na Liga e dois na Liga Europa). Nesta terça-feira, chegou à segunda partida consecutiva marcando: balançou as redes no empate contra o Toledo, por 1 a 1, pela volta da fase de 16 avos da Copa do Rei. Seria errado dizer que Pato faz má temporada. A boa parceria de ataque com Sansone, a inteligência para criar fora da área e os movimentos aos lados do campo concedendo as penetrações de Soriano e Jonathan dos Santos comprovam o bom entendimento do esquema tático.

A formação do sistema ofensivo casa com o estilo de Pato. Ao lado de Sansone ou Bakambu, o paranaense tem companheiros que se movam a todo instante, distraem e ameaçam os zagueiros adversários, permitindo-o exibir sua faceta mais “camisa 10”. As sensações são verdadeiramente positivas. O Pato de 2016 não tem a energia do Pato do Milan, mas adquiriu um aspecto essencial para voltar a triunfar em solo europeu: a sabedoria. Atualmente, o atacante de 27 anos não se impõe pela velocidade, mas pela mescla de movimentos, verticais e diagonais, e a serenidade para se posicionar da melhor maneira possível quando tem que concluir alguma jogada, além de precisos e eficazes passes.

Foto: Site Oficial da Uefa | Na engrenagem montada por Fran Escribá, Pato mostra bom entendimento do sistema tático

A temporada do Villareal tinha tudo para ser um desastre. O pedido de demissão surpresa de Marcelino, por divergências com a diretoria, ainda na pré-temporada, parecia o (re)início de uma história que se passou no próprio El Madrigal há cinco anos, culminando no trágico rebaixamento para a segunda divisão. A queda precoce na fase eliminatórias da Liga dos Campeões para o Mônaco tinha tudo para ser o estopim de um novo pesadelo. Mas quis os deuses do futebol que o processo de reconstrução não fosse demorado.

Fran Escribá devolveu o sorriso e a competitividade ao elenco. O caminho percorrido pelo Submarino Amarelo nesta temporada é semelhante à daquele amigo que você reencontra e diz, com orgulho, “que alegria vê-lo assim novamente”. Porque é uma alegria ver o Villarreal, sem nenhum tipo de alarde, fazer o que vem fazendo no século XXI. Estar na zona de classificação à Champions não é casualidade. É fruto de um planejamento competente e um trabalho sério do elenco e da comissão técnica. Escribá poderá passar o Natal tranquilo. Ainda mais porque sabe que pode contar com uma peça única no seu elenco, o “seu” Alexandre Pato.

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Jornalista, carioca e apaixonado pela Liga Espanhola desde a época em que Rivaldo, Zidane, Figo e Raúl foram seus professores. Colaborou para o programa Esporte@Globo da Rádio Globo São Paulo falando sobre o futebol do país das touradas. Repórter da Super Rádio Tupi.