DOENTES POR FUTEBOL

O repertório de Messi e Iniesta

Foto: Site Oficial do Barcelona | O gentleman e o alienígena: contra o Espanyol, Messi e Iniesta elevaram, mais uma vez, esse esporte a outro patamar

O Camp Nou projetou neste domingo uma película que foi a tônica de 2016. Durante um período, mais especificamente os 35 minutos iniciais, o rival do Barcelona ofereceu uma imagem reconhecível, acima de tudo competitiva, exibindo virtudes e ações positivas. No caso desse final de semana, foi o Espanyol, no grande dérbi da Catalunha. Treinado por Quique Sánchez Flores, o primo pobre de Barcelona tem feito uma Liga Espanhola elogiável, coerente com o seu estilo, mais focado na defesa. Dessa vez, ao contrário da equipe extremamente ofensiva que construiu no Atlético de Madrid entre 2009 e 2011 (e foi campeão da Liga Europa em 2010), Quique arquiteta um paredão difícil de ser penetrado. Para tal, a solução dos adversários é dispor do maior talento possível em campo para quebrar as compactadas linhas azuis e brancas. E, quando falamos de talento, nenhum time do mundo tem mais que o Barça em seu onze inicial.

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O Espanyol foi a campo em seu costumeiro 4-4-2; a diferença residiu na altura em que Quique optou por trabalhar sem a bola. Em vez dos tradicionais blocos baixos, o objetivo foi adiantá-los para impedir as ações de Busquets e Iniesta e, como consequência, dificultar que a bola chegasse limpa ao trio MSN, além de permitir que a posterior pressão alta não fosse superada. Neste cenário, o normal é Messi recuar até o meio-campo, vestir a capa de Xavi e gerir o jogo. No entanto, Luis Enrique preferiu verticalizar as jogadas e jogar mais diretamente.

Em uma dessas ligações, Iniesta deu o primeiro aviso da noite: um lançamento de mais de 40 metros, à la Gerson, para Suárez abrir o placar e colocar um sorriso no rosto do Camp Nou.

A solução tática que abriu o festival e deu boas vindas a Messi foi a posição de Neymar.

O brasileiro centralizou seu local de partida, juntou-se a Lionel e também liberou o camisa 10 de abrir à direita. Assim, o Barcelona tratou de embater no um contra a um a dupla de volantes do Espanyol, o suficiente para Iniesta dominar com maior alívio, sem Gerrard o perturbando, e impor o ritmo desejado pelos blaugranas. Taticamente, Luis Enrique dava a volta em Quique Sánchez Flores. O próximo passo seria entregar-se aos seus comandados.

E aí começou o show de Messi.

Contemplar o milagre a cada três dia nos faz cairmos em clichês para elogiar a figura de Lionel, mas seria um pecado não comentar o seu segundo tempo. Em apenas 45 minutos, Leo acumulou um volume de ações que resumem o que tem sido sua versão após Josep Guardiola, com o acréscimo de que o seu talento emula constantemente os maiores deste esporte.

Querem exemplo?

Primeiramente, mimou a bola como Maradona no segundo gol do Barcelona, marcado por Suárez.

Depois, arrancou em diagonal e triturou a marcação dupla périca tal qual Ronaldo Fenômeno no seu auge, no 3 a 0 de Alba. Messi cria passes como Zidane, quando pode cabeceia como Cristiano Ronaldo, destroça um rival friamente como Pelé e evolui na bola parada como Ronaldinho.

Ah, claro, Messi também marcou um gol, o quarto do Barça. Foi lançado ao espaço, arrancou pelo flanco, tabelou com Suárez e finalizou de primeira, na pequena área, relembrando aquele baixinho cheio de marra nascido no Rio de Janeiro, o tal do Romário.

Os súditos culés ovacionaram seu Rei. Seus rivais podem pressioná-lo no ataque, esperá-lo na defesa ou conservar um meio mais físico para combatê-lo. Mas nenhuma receita é válida quando Lionel Messi recorda por que tem o mundo aos seus pés desde 2009. Jogar bem contra o Barça não é garantia.

Primeiro porque Iniesta desarma um inimigo em um ou dois toques, para, por fim, Messi caçá-lo com sangue nos olhos.

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Jornalista, carioca e apaixonado pela Liga Espanhola desde a época em que Rivaldo, Zidane, Figo e Raúl foram seus professores. Colaborou para o programa Esporte@Globo da Rádio Globo São Paulo falando sobre o futebol do país das touradas. Repórter da Super Rádio Tupi.