CAN2017: Resumo da primeira fase e um panorama das quartas de final

A Copa Africana das Nações 2017, disputada no Gabão, teve nesta semana o final da sua primeira fase, classificatória às quartas de final. Bons jogos, gols bonitos e sobretudo, surpresas com a desclassificação de favoritos ao título e a ascensão, em aspectos técnicos e táticos de seleções que outrora não têm tanta tradição dentro do Continente. Doentes por Futebol, acompanha a principal competição da África e traz à você um resumo da primeira fase do torneio e uma prévia das quartas de final.

Os destaques

Um dos principais representantes da escola africana de futebol, Camarões chegou ao Gabão como uma grande incógnita. Com desfalques importantes, muitos jogadores recusando a convocatória do treinador do treinador belga Hugo Bross. Entretanto, sem tempo à lamentar as ausências, o treinador belga deixou de lado o medo e apostou na valorização de novas promessas. Conquistou o respeito do grupo, que nitidamente, fechou com o treinador, algo raro para Camarões nos últimos anos. Contando com um sólido sistema defensivo, comandado pelo experiente N’Kolou e com bons jogos de Moukandjo, os “Leões Indomáveis” avançaram às quartas de final jogando a pressão para seus adversários e fizeram o dito “dever de casa”. Diante do Senegal, Camarões irá ter sem sombra de dúvidas seu grande teste de fogo.

Benjamin Moukandjo (8) assumiu a responsabilidade e vem sendo um dos destaques camaroneses nesta CAN2017 (foto: Gavin Barker/BackpagePix)

Apontada como favorita e com uma geração de muito talento, Senegal apresentou um ótimo futebol nesta primeira fase. Líder do grupo D, com sete pontos ganhos, os senegaleses têm muita força ofensiva, mas ao contrário dos últimos anos, uma sólida defesa, que passa muita confiança. Apontado, por razões óbvias, como um dos destaques da sua seleção, Sadio Mané até aqui não vem decepcionando os que acreditam nesta sua condição e vem sendo, sem dúvidas, um dos grandes jogadores de sua equipe, muito bem montada pelo ex-jogador/capitão senegalês, Aliou Cissé, que trouxe à sua equipe uma característica de jogo semelhante ao Senegal de 2002, que encantou o Mundo e era treinado pelo francês Bruno Metsu: a transição em passes rápidos da defesa ao ataque, sempre em velocidade e com qualidade técnica.

Sadio Mané, é um dos destaques da CAN2017 (foto: Sydney Mahlangu/ BackpagePix)

Após anos no ostracismo, o “Rei de Copas” da África, sob a batuta do argentino Hector Cuper, recuperou seu estilo de jogo, pragmático e acima de tudo, extremamente competitivo. O resultado foi o primeiro lugar do grupo D, com sete pontos ganhos, à frente de Ghana, Mali e Uganda. Apostando na consistência defensiva que marcou as grandes seleções egípcias ao longo da história, os “Faraós” fizeram um jogo equilibrado diante de Mali e venceram pela mínima contagem Uganda e Ghana. Pode ser pouco, mas historicamente o Egito das grandes conquistas sempre jogou assim, valorizando a posse de bola e sabendo jogar a pressão para cima dos seus oponentes. Levando em consideração, esta primeira fase, a equipe recuperou este estilo, perdido nos últimos sete anos.

Com um grupo jovem e de muito talento, o Egito vem recuperando o espaço perdido no cenário (foto: Chris Ricco / Backpagepix)

Terceiro lugar na CAN 2015, a República Democrática do Congo, sob batuta de Floriant Ibengé, treinador local que conhece como poucos o futebol africano e que desde 2014 vem realizando excelente trabalho à frente dos “Leopardos”, vem adquirindo uma mentalidade vencedora, podemos definir assim. E esta mentalidade vencedora faz
de sua equipe, líder do difícil grupo C, com sete pontos ganhos, deixando para trás Marrocos, Costa do Marfim e Togo, uma equipe candidata a voos mais longos. Jogando ofensivamente, com muita velocidade na transição. Além destes fatores, a República Democrática do Congo conta, até aqui, com a grande fase de Junior Kabananga, que marcou em todos os jogos e com três gols é o artilheiro do torneio. Além de Kabananga, Neeskens Kebano e o experiente Diumerci Mbokani vêm jogando muito bem e são esperanças diante de um páreo duro para os congoleses nestas quartas de final: a temida Ghana!

Neeskens Kebango (10), comemora seu gol diante da Costa do Marfim (foto: Samuel Shivambu/BackpagePix)

As Surpresas

Vice-campeã em 2013, Burkina Faso não chega a ser uma novidade, entretanto é inegável que o retorno do treinador português Paulo Duarte, que lançou muitos dos jogadores que hoje estão na seleção,  trouxe aos “Garanhões” o padrão de jogo perdido após a sua saída da equipe. Contando com um grupo entrosado e experiente, Burkina Faso terminou em primeiro lugar do grupo A, com grande destaque para as atuações de Préjuce Nakoulma, na literal função do centroavante de referência, é um dos destaques da sua equipe.

Bertrand Traoré (branco) é um dos bons valores de Burkina Faso (foto: Sydney Mahlangu/Backpagepix)

Segundo lugar no dificílimo grupo C, Marrocos tem no seu banco de reservas, um grande trunfo: Hervé Renard, treinador francês bicampeão da competição. Após a derrota na estreia (1×0 para a República Democrática do Congo), os “Leões dos Atlas” colocaram os nervos no lugar e venceram Togo (3×1) e os atuais campeões, a Costa do Marfim (1×0). Diante dos marfinenses, os marroquinos jogaram esperando o momento do contra-ataque, aposta bem sucedida, graças ao talento técnico de Rachid Alioui, autor de um dos gols mais bonitos da competição neste duelo que definiu a passagem marroquina às quartas de final.

Com Hervé Renard no comando, Marrocos avançou às quartas e sonha com o título (foto: Samuel Shivambu/BackpagePix)

As decepções

País-sede e com boas participações em outras edições da CAN, certamente esperava-se muito mais de Gabão. Entretanto, nitidamente o clima de instabilidade político-econômica vivido no país atrapalhou demais a seleção, somando isso a um planejamento totalmente errado da federação local que às vésperas da CAN, trouxe o espanhol Antônio Camacho para o lugar do português Jorge Costa. Em campo, uma equipe confusa e que em momento algum soube exercer o fator mandante com o apoio do seu torcedor. Assim, nem com o talento de Aubameyang, foi suficiente para evitar a precoce desclassificação.

Nem o talento de Aubameyang foi capaz de livrar o Gabão da precoce desclassificação (foto: Gavin Barker/)

Ainda “sobrevivendo” dos maravilhosos feitos do Mundial de 2014, a Argélia é certamente uma das grandes decepções e parece que a ausência do mentor daquela seleção, o treinador Vahid Halilhodžic, é o grande problema. De lá para cá, a expectativa criada é sempre grande, mas a Argélia não tem conseguido superar as mesmas. Nesta CAN não foi diferente, apesar do ataque executar um bom trabalho, a defesa segue sendo o grande problema e as falhas apresentadas ao longo dos jogos do torneio, mostram isso e apesar do esforço de Sophiane Hanni, Ryad Mahrez e Islam Slimani, não foi o suficiente para colocar a Argélia nas quartas de final!

Apesar de um ataque eficiente, a defesa argelina tem sido o ponto fraco da equipe (foto: Sydney Mahlangu/ BackpagePix)

Atual campeã, a Costa do Marfim chegou ao Gabão cercada de muitas boas expectativas quanto a mais uma participação. Entretanto contando com apenas 10 jogadores da vitoriosa campanha de 2015 e muitos jovens valores estreando na competição, os “Elefantes”, sucumbiram justamente à falta de experiência e a ansiedade claramente vista ao longo dos jogos, onde tiveram domínio territorial mas não conseguiam no passe final converter em gols as oportunidades criadas. O alerta está ligado entre os marfinenses, mas o treinador Dussuyer deve seguir com a renovação que vem promovendo.

O primeiro teste da renovação marfinense, não foi bem sucedido. (foto: Samuel Shivambu/BackpagePix)

As camisas de respeito

Após a derrota na estreia (2×0 para o Senegal), muitos deram a Tunísia como eliminada da competição. Cabe ressaltar que os tunisianos criaram inúmeras oportunidades mas esbarraram em seus próprios erros de ataque, perdendo a partida para os senegaleses. O jogo decisivo entretanto seria diante da Argélia e com uma atuação convincente, as “Águias de Cartago” venceram (2×1) e seguiram rumo a classificação às quartas de final. Com grande destaque para a força ofensiva, onde Youssef Msakni vem jogando o fino da bola, sendo um dos  bons destaques da equipe de Henryk Kasperczak.

Após recuperar-se da derrota na estreia, Tunísia segue firme na CAN (foto: Sydney Mahlangu/ BackpagePix)

Eles podem não estar em seus melhores dias, podem estar há 32 anos sem conquistar o continente, mas a seleção de Ghana é sempre um adversário à ser respeitado. Apesar do segundo lugar no grupo D, os ghaneses foram uma das primeiras seleções a garantir lugar nas quartas de final. Se já não possuem o mesmo futebol vistoso e com o volume intenso de anos anteriores, os comandados de Avant Grant têm muita experiência, um conjunto entrosado liderados em campo, por Andre Ayew e Asamoah Gyan. O destaque coletivo de Ghana fica justamente em função da consistência defensiva.

Tetracampeã africana, Ghana segue firme e forte na competição. (foto: Chris Ricco/BackpagePix)

Os gols mais bonitos da primeira fase

Não que seja necessariamente nesta ordem, afinal, cada um dos apaixonados pelo futebol têm suas próprias impressões. Entretanto, a primeira fase da CAN 2017, teve muitos gols bonitos, desde gols em jogadas individuais, cobranças de falta com primor e chutes de longa e média distância. Doentes por Futebol selecionou algumas destas obras primas da primeira fase da competição.

O jogo era diante da poderosa seleção de Camarões, entretanto, o atacante Piqueti, da estreante Guiné-Bissau não se intimidou e marcou um golaço, misturando habilidade, velocidade e objetividade. Uma obra prima desta CAN.

Jogo decisivo entre Marrocos e Costa do Marfim, onde somente a vitória interessava às duas equipes e numa aula de contra-ataque, os marroquinos chegaram ao gol da vitória, com cinco toques na bola e uma maravilhosa conclusão de Rachid Alioui, assinando esta obra de arte!

A Argélia caiu precocemente na fase de grupos, mas Ryad Mahrez, no jogo de estreia, assinou uma obra prima diante do Zimbabwe, marcando um belo gol e mostrando os motivos que o levaram a ser eleito o melhor jogador africano de 2016.

Diante do Togo, Mubele, recebeu uma bola rebatida da defesa congolesa. Com muita classe e domínio dominou a pelota e com um “tapa” assinou um belo gol, colocando a República Democrática do Congo nas quartas de final.

Um dos destaques de Uganda, Farouk Miya não passou em branco nesta CAN. Apontado como uma jovem promessa do futebol africano, Miya anotou diante de Mali um golaço, para comprovar a sua capacidade técnica e a grande fase que vem atravessando.

Um dos gols coletivamente mais bacanas desta fase de classificação da CAN 2017 é de Abdallah Said, do Egito, diante de Uganda. Com uma troca de passes consciente, de pé em pé, até chegar ao lateral egípcio, que foi o elemento surpresa e finalizador da jogada.

Diante da Argélia, o Senegal mostrou força de reação e com um belíssimo gol de Papakouli Diop, acertando um lindo sem pulo, os “Leões de Teranga” chegaram ao empate e garantiram assim, o primeiro lugar do grupo.

Diante de Uganda, no jogo derradeiro da primeira fase, Yves Bissouma cobrou uma falta com perfeição, lembrando os bons cobradores deste estilo de falta, misturando força e muita precisão. Golaço malinês na CAN2017.

Jogo complicado e truncado, clássico do futebol africano e eis que surge falta na entrada da área para a cobrança perfeita de Mohamed Sallah. O astro egípcio cobrou com violência e marcou um golaço que colocou o Egito no caminho da classificação e liderança de sua chave.

Na estreia da CAN, Benjamin Moukandjo presentou aos torcedores com uma bela cobrança de falta diante de Burkina Faso, vencendo o ótimo goleiro burkinabé, Herve Koffi e colocando Camarões no rumo da classificação às quartas de final.

Para encerrarmos, outra bela cobrança de falta. Desta vez, o autor da obra é, Paul-Jose M’Pokou, da República Democrática do Congo, autor do segundo gol contra o Togo,com uma batida perfeita, firme e muito precisa, sem chances para o experiente Agassa.

Os confrontos das quartas de final

Burkina Faso x Tunísia – 28/01 – 14h (horário de Brasília)

Primeiro colocado no grupo A, Burkina Faso enfrenta a Tunísia,segunda colocada no grupo B. Em termos gerais, o grupo tunisiano era mais difícil e a tradicional força do norte da África chega com um leve favoritismo pelo futebol apresentado na primeira fase. Por outro lado, Burkina Faso, nas mãos de Paulo Duarte demonstra ser uma equipe com boa postura tática e conta justamente com a força do seu veloz contra-ataque e com a grande fase de Bertrand Traore e Préjuce Nakoulma para avançar às semifinais, repetindo o feito da CAN 2013.

Senegal x Camarões – 28/01 – 17h (horário de Brasília)

Um clássico desta edição da CAN está reservado para esta fase. De um lado o Senegal, seleção que mais impressionou positivamente à todos na primeira fase, terminando na liderança do grupo B, sem nenhum questionamento. Do outro a tradicional força de Camarões, que ficou em segundo lugar no grupo A, mas que com muitos desfalques superou as perspectivas negativas em torno da sua participação. O favoritismo, pelo futebol jogado, é do Senegal com sua força ofensiva, mas Camarões corre por fora e com seu pragmatismo de jogar a responsabilidade aos senegaleses, pode, porque não, surpreender.

República Democrática do Congo x Ghana – 29/01 – 14h (horário de Brasília)

Outro grande jogo pelas quartas de final envolve a República Democrática do Congo, em busca de voltar aos seus melhores dias; diante da força de Ghana, uma das gigantes da África. Os congoleses avançaram em primeiro lugar no dificílimo grupo C; não tão fácil, Ghana passou em segundo lugar no também complicado grupo D. A República Democrática do Congo terá nestas quartas de final um teste decisivo ao seu futebol bem jogado até aqui, diante de uma Ghana com muita experiência em todos os aspectos. Assim, apontar um favorito neste jogo é algo complicado, tanto que o mistério em torno de prováveis escalações, por parte de ambas as seleções vem desde que se souberam os confrontos e qualquer detalhe num jogo de forças equilibradas, como este, poderá ser decisivo e fazer enorme diferença.

Egito x Marrocos – 29/01 – 17h (horário de Brasília)

Fechando as quartas de final, um clássico da África do Norte, da África Árabe, com duas seleções buscando retomar o tempo perdido em suas próprias histórias e com dois grandes treinadores em seus respectivos bancos de reservas. Primeiro colocado no grupo D, o Egito de Hector Cuper, a cada dia que passa vem recuperando a auto-estima e com um futebol pragmático de outros tempos, mas extremamente coletivo e eficiente, é uma das gratas surpresas desta CAN, por tudo que representa a sua camisa. Do outro lado, um adverário que igualmente busca ressurgir no cenário futebolístico mundial, o Marrocos do bicampeão africano Hervé Renard, que nitidamente impôs sua mentalidade vencedora e de autoconfiança à sua equipe, que também apresentou um bom futebol na primeira fase, surpreendendo por exemplo, a Costa do Marfim, atual campeã continental, mas já eliminada pelos marroquinos. Assim, este é mais um jogo aonde apontar um favorito, é não fazer justiça ao que ambas as seleções apresentaram na primeira fase e salvo, qualquer “acidente de percurso” teremos um jogo que poderá ser decidido no tempo extra ou nas penalidades.

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Natural de Telêmaco Borba-PR e criado em meio à "boemia futebolística", com horas de papo sobre futebol, samba e cervejas na pauta. Influência do pai, que também adorava futebol, e da mãe, que sempre apoiou a iniciativa. Técnico em Eletrônica, formado desde 1999, e fanático por futebol, futsal, futebol de praia, society e todo esporte que tenha no futebol a sua essência.