COPA AFRICANA DAS NAÇÕES – PARTE 2 – A HISTÓRIA DA COMPETIÇÃO

  • por Rogério Bibiano
  • 10 Meses atrás

Maior competição do continente africano entre seleções, a Copa Africana das Nações (CAN) completa, em 2017, 60 anos de disputa. Uma história belíssima do futebol africano, que revelou grandes jogadores, seleções que entraram para a história e muitas lembranças memoráveis ao longo de todos estes anos. Inaugurada em 1957, passou a ser realizada de dois em dois anos desde 1968.

Os primórdios da competição

Disputada pela primeira vez no Sudão, a primeira edição da CAN contou com apenas três seleções participantes: Egito, Sudão e Etiópia. A grande curiosidade é que o quarto participante seria a África do Sul, que foi desqualificada devido à política do Apartheid. Em 1956 foi fundada a Confederação Africana de Futebol (CAF), durante o terceiro congresso da Fifa, realizado em Lisboa (POR), o que impulsionou o desenvolvimento do futebol africano, fazendo com que os dirigentes montassem uma competição com o intuito de abranger as seleções da África. Assim nasceu a competição.

Com a desclassificação sul-africana, a Etiópia avançou diretamente à final e foi derrotada pelo Egito, por 4×0. Assim, os “Faraós” foram os primeiros grandes campeões da CAN, título que viriam a conquistar em 1959, atuando em casa, contra o Sudão.

Em 1957, coube ao Egito, a honra de conquistar a primeira edição da Copa Africana das Nações (foto: divulgação)

Anos 60 e a CAN cresce no continente

Três anos depois, a Etiópia, um dos países mentores da competição, sediou a competição pela primeira vez e conquistou a CAN ao quebrar a hegemonia do Egito (4×2).

Em 1963, Ghana sediou pela primeira vez o torneio e venceu o Sudão na final (3×0). Começava, nesta conquista, a bela história das “Estrelas Negras” na CAN. Dois anos depois, na Tunísia, os ganeses venceram os donos da casa (3×2), em duelo emocionante, decidido na prorrogação. Foi a segunda conquista consecutiva. Em 1968, desta vez na Etiópia, o Congo-kinshasa (atual República Democrática do Congo) venceu Gana na final (1×0).

Campeã em 1963, Ghana se tornou uma das potências futebolísticas da África (foto: divulgação)

Em 1968, o primeiro recorde de participantes foi registrado, com 22 seleções inscritas. Surgiu-se a necessidade, pela primeira vez, da realização de eliminatórias para qualificar os participantes à fase final da competição, que a partir desta edição contava com oito finalistas. Este formato permaneceu até a edição de 1992.

Entre 1968 e 1970, o atacante marfinense Laurent Pokou marcou 14 gols nas duas edições do torneio, totalizando 14 tentos em fases finais da competição, recorde superado apenas em 2008 pelo camaronês Samuel Eto’o. Laurent Pokou, astro do Rennes (FRA), é um dos maiores atacantes da história do futebol africano.

O marfinense Laurent Pokou, em duas edições, anotou 14 gols. Não à toa é um dos maiores atacantes da história do futebol africano (foto: divulgação)

Anos 70, a década dos campeões

Seis diferentes nações conquistaram a CAN na década de 70, em clara demonstração do equilíbrio e, ao mesmo tempo, do desenvolvimento do futebol no continente: Sudão, Congo, Zaire (atual República Democrática do Congo), Marrocos, Gana e Nigéria.

Em 1970 foi a vez do Sudão sediar novamente e colocar seu nome na galeria de campeões, ao vencer Gana (1×0) na final; esta foi a primeira edição da competição a ser transmitida pela televisão. Dois anos depois, em Camarões, foi a vez do Congo vencer Mali (3×2) em jogo extra, um dos grandes duelos finais da história da CAN. Em 1974, no Egito, a seleção do Zaire (atual República Democrática do Congo) bateu Zâmbia (2×0) na final. Foi a primeira e única vez na história da CAN que o campeão se classificou automaticamente para a Copa do Mundo, disputada à época na então Alemanha Ocidental.

Em 1970, o Sudão venceu a favorita seleção de Ghana e escreveu seu nome na galeria de campeões do continente (foto: divulgação)

Novamente sede do torneio, em 1976, a Etiópia presenciou a consagração do primeiro e único título do Marrocos na história da CAN, que venceu o quadrangular final e superou Guiné, Nigéria e Egito. Em 1978, Ghana sediou e reconquistou a CAN, ao vencer Uganda (2×0). Com a conquista, Ghana chegou ao terceiro título e obteve em definitivo a posse do troféu Abdelaziz Abdallah Salem, homenagem ao primeiro presidente da CAF. Em 1980, a Nigéria foi sede da competição e, diante de sua fanática torcida, chegou ao seu primeiro título, vencendo de forma absoluta a Argélia (3×0) na grande final.

Anos 80, os Leões Indomáveis dominam o continente

Em 1982, a Líbia organizou uma bela competição em diversos aspecto, mas, nas penalidades (7×6), foi superada por Gana na final, após empate em um gol no tempo regulamentar e na prorrogação. Curiosamente, esta seria a última conquista de Gana, que amarga 35 anos de jejum.

Em 1984, com os olhos voltados para a Costa do Marfim, que sediava a competição pela primeira vez, o mundo assistiu a um embate de gigantes, com Camarões vencendo a Nigéria (3×1) na final, chegando ao seu primeiro título africano. Dois anos depois, os camaroneses foram superados no Egito, pelos donos da casa, nas penalidades (5×4) após empate sem gols nos 120 minutos. Demonstrando toda a sua força, Camarões chegou à terceira final consecutiva e conquistou seu segundo título ao vencer novamente a Nigéria (1×0), desta vez tendo o Marrocos como sede.

Em 1984, Camarões apresentou uma excelente geração ao Mundo, conquistando sua primeira CAN (foto: divulgação)

Em 1990, a Argélia sediou a CAN pela primeira vez. Após anos fazendo grandes campanhas, viu enfim a melhor geração de sua história conquistar a CAN pela primeira (e única) vez. Na final, bateu a poderosa Nigéria (1×0), marcando o final de uma equipe que tinha Rabat Madjer e Belloumi, grandes nomes da história do futebol africano (confira abaixo, o gol de Chérif Oudjani, que garantiu o título para os argelinos).

Os anos 90, surpresas e a consolidação definitiva da CAN

A edição de 1992 foi disputada no Senegal. Pela primeira vez, o torneio, que desde 1968 contava com oito seleções na fase final, passou a ter 12 seleções classificadas. Estas foram divididas em quatro grupos de três equipes; as duas primeiras colocadas de cada grupo avançaram. A Costa do Marfim, de forma surpreendente e dramática, mas com grande atuação de Ben Sallah e Fofana, venceu o torneio pela primeira vez nas penalidades (11×10), contra Ghana, após empate nos 120 minutos (confira parte das cobranças no vídeo abaixo).

Em 1994, na Tunísia, a Nigéria voltou a ser campeã da CAN, ao vencer a supreendente seleção de Zâmbia na final (2×1). Meses depois, as “Super Águias”, com um futebol extremamente ofensivo e bonito de se assistir, foram uma das gratas surpresas da Copa do Mundo dos Estados Unidos, com uma geração que tinha Jay-Jay Okocha, Rashid Yekini, Daniel Amokachi, Emmanuel Amunike, entre outros grandes valores.

Em 1996, a África do Sul vivia um excelente momento político, com o fim do Apartheid e Nelson Mandela como presidente do país. Assim, neste clima de absoluto renascimento, os sul-africanos sediaram, pela primeira vez, a CAN, que chegava à sua vigésima edição. O número de seleções classificadas às finais mudou, de 12 para 16. Entretanto, alegando razões políticas, a Nigéria desistiu de participar da competição, já em “cima da hora”, deixando o torneio com 15 participantes. Com grande atuação coletiva, os sul-africanos escreveram seu nome no hall dos campeões ao superarem a Tunísia (2×0) na final.

Nelson Mandela, com os braços erguidos, celebra a vitória emblemática da África do Sul, na CAN de 1996 (foto: AFP)

A pequena nação de Burkina Faso foi a sede da CAN de 1998, pela primeira vez em sua história. Em uma das mais surpreendentes edições da competição,o mundo viu o renascimento do futebol do Egito, que venceu a favorita África do Sul (2×0) na final e chegou à sua quarta conquista continental.

Um novo século também no futebol africano

A edição de 2000 foi coordenada por duas potências do continente, Ghana e Nigéria, que substituíram Zimbábue na organização da competição. Em uma das melhores edições da história, com jogos eletrizantes, a final não poderia ter sido diferente: Camarões venceu a Nigéria nos pênaltis (4×3), após empate nos 120 minutos (2×2). A CAN 2000 marcou o final da excelente geração nigeriana que encantava o mundo desde 1994 e que marcava o ressurgimento do futebol camaronês, através de uma geração vitoriosa. Com esta conquista, os “Leões Indomáveis” tomaram posse em definitivo do troféu denominado “Troféu da África Unida”, em disputa desde 1980.

Em 2002 foi a vez do Mali ser sede da CAN, vencida novamente por Camarões. Assim como dois anos atrás, os camaroneses superaram nas penalidades a favorita seleção do Senegal (3×2), após empate sem gols no tempo regulamentar e na prorrogação. Senegal, meses depois, seria umas das seleções de grande destaque do Mundial disputado na Coréia do Sul e no Japão.

Após muitos anos de tentativas, em 2004 foi a vez da Tunísia, em casa, escrever seu nome na galeria dos campeões. Os tunisianos venceram o Marrocos (2×1) na final, com atuação destacada do brasileiro naturalizado Francileudo dos Santos, ídolo histórico das “Águias de Cartago”.

Dois anos depois, o Egito sediou novamente a CAN e, com a força da sua torcida, superou nas penalidades (4×2) a favorita Costa do Marfim, após jogo tenso e sem gols. Assim, os “Faraós” chegaram ao seu quinto título continental, façanha que viriam a repetir em 2008, desta vez em Ghana, ao superarem Camarões na final (1×0), chegando ao seu sexto título da CAN (veja os melhores momentos da decisão abaixo). Muitos clubes europeus intercederam junto à Fifa para que o torneio passasse do início do ano para o meio, por conta do calendário europeu. Em polêmica declaração à época, o então presidente da Fifa, Joseph Blatter, anunciou que gostaria que a CAN fosse realizada em junho ou julho. Entretanto, caso tal medida fosse adotada, muitos países da África Central e Ocidental estariam impedidos de sediar o evento, em função da estação das chuvas ser justamente nesta época do ano. A CAF se impôs e manteve a competição no início do ano.

A década da afirmação da Copa Africana das Nações

Em 2010, Angola sediou de forma inédita a competição que teve a desistência da seleção do Togo, que já estava no país para a disputa, mas foi alvo de um ataque terrorista de um grupo miliciano armado que reivindicava a região petrolífera de Cabinda. Neste ataque à delegação togolesa, um jogador faleceu e outros ficaram gravemente feridos. O Egito novamente sagrou-se campeão, desta fez ao vencer Ghana (1×0) na final, estabelecendo um recorde de finais consecutivas ganhas (três) e chegando ao seu sétimo título, consagrando uma geração comandada por Mohamed Aboutrika.

Além disso o Egito estabeleceu um outro recorde: 19 jogos de invencibilidade (desde 2004) e nove vitórias consecutivas.

Em maio de 2010, a CAF anunciou uma mudança estratégica na competição, que passaria a ser disputada, a partir de 2013, nos anos ímpares, para evitar que a competição seja realizada nos anos de Copa do Mundo.

Em 2012, Gabão e Guiné-Equatorial organizaram conjuntamente a competição. Viram, enfim, a seleção de Zâmbia, após inúmeras tentativas, ser campeã, ao vencer a favorita Costa do Marfim nas penalidades (8×7), em grande atuação do goleito Kennedy Mwene, eleito o melhor da sua posição no torneio.

Em 2012, após algumas tentativas, Zâmbia enfim colocou seu nome na galeria de campeões (foto: sport24.com)

Em 2013, a África do Sul assumiu o lugar da Líbia – afetada pela guerra civil – na organização da competição. Sob o comando do ex-jogador Stephen Keshi, a Nigéria subiu ao pódio mais alto novamente, ao vencer a surpreendente seleção da Burkina Faso (1×0) na final.

O Marrocos seria a sede da CAN em 2015. No entanto, temendo a epidemia de Ebola que se alastrava pela África, os marroquinos optaram por abrir mão da organização do torneio, que passou para a Guiné-Equatorial. Já sem um dos seus maiores astros, Didier Drogba, a Costa do Marfim, capitaneada por Yaya Touré, enfim conquistou a taça, a segunda do país, ao vencer nas penalidades a seleção de Ghana (9×8), depois de empate sem gols durante os 120 minutos de jogo, assim como em 1992, quando também superaram as “Estrelas Negras”.

A partir deste sábado, um novo capitulo desta riquíssima história será escrito. E para você, Doente por Futebol, quem levará a Copa Africana das Nações deste ano?

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Natural de Telêmaco Borba-PR e criado em meio à "boemia futebolística", com horas de papo sobre futebol, samba e cervejas na pauta. Influência do pai, que também adorava futebol, e da mãe, que sempre apoiou a iniciativa. Técnico em Eletrônica, formado desde 1999, e fanático por futebol, futsal, futebol de praia, society e todo esporte que tenha no futebol a sua essência.