Mudar para ganhar

  • por Lucas Sousa
  • 79 Visualizações

A Premier League, já tão badalada pelos milionários acordos de TV, craques mundiais e ótimos treinadores, recebeu José Mourinho e Pep Guardiola para esta temporada. Duas das principais figuras do futebol nos últimos anos e símbolos de formas distintas de se pensar futebol. Mourinho foi campeão por onde passou se baseando no jogo reativo, estruturando suas equipes sobre uma defesa sólida e sendo eficiente no ataque. Guardiola é o herdeiro de Johann Cruyff e da escola holandesa que sempre quer ter a bola e controlar o jogo a partir disso. As filosofias são opostas, mas nesta temporada ambos passam pela a necessidade de mudar algumas ideias para seguir vencendo.

Montagem: Doentes por Futebol – Guardiola e Mourinho: mudanças para brigar pelo topo

Isso por que nenhum outro torneio nacional do continente é tão competitivo quanto o campeonato inglês. Isso não quer dizer que ele tenha os melhores times, mas que todos são capazes de competir em alto nível, jogando bem ou não. Mesmo as equipes menores são capazes de formar um bloqueio eficiente no seu campo de defesa, jogar com bolas longas e imprimir um ritmo altíssimo na partida. É uma questão cultural e histórica de como se joga futebol na Inglaterra que ainda é preservada nos menores centros, ainda que haja exceções. Assim os pequenos conseguem roubar pontos dos grandes, ou ao menos vender caro uma derrota. Neste cenário, Guardiola e Mourinho chegaram a Manchester com a obrigação de vencer. Para superar as dificuldades e alcançar o objetivo, ambos estão se moldando as características do jogo inglês.

Foto: Manchester City/Facebook oficial – Guardiola tem feito mudanças para encontrar o melhor City

Quando Guardiola chegou ao Manchester City tinha duas certezas na sua cabeça: 1) treinar o Manchester City seria o maior desafio da sua carreira, apesar de todo poder financeiro do clube; 2) a forma como Barcelona e Bayern de Munique jogavam não poderia ser replicada na Inglaterra, o treinador teria que adaptar seu estilo ao futebol local. Na sua transição da Espanha para a Alemanha, Pep destacou a qualidade dos alemães nas transições ofensivas. Se quisesse domar as partidas da Bundesliga como fazia em La Liga, seu time precisaria controlar os rápidos contra ataques adversários. Assim ele fez e foi tricampeão nacional. Agora, na Premier League, o catalão se depara com um futebol extremamente físico e de bolas longas, estilo que vai de encontro com suas ideias. Contra sua pressão no campo de ataque os ingleses fazem ligação direta e disputam a bola aérea com jogadores mais altos e fortes. “A bola fica mais tempo no ar e é difícil de controlar”, disse Guardiola ao destacar que o jogo inglês é mais imprevisível.

Leia mais: Guardiola e a construção de um novo City

Se na Alemanha Pep se adaptou aos contra-ataques para triunfar, na Inglaterra precisará controlar a segunda bola, como Xabi Alonso o aconselhou. Como o jogo é mais direto, a bola fica mais tempo “sem dono” e é aí que reside o controle dos jogos: ganhando a posse após uma ligação direta, chute a gol, dividida ou qualquer outra situação em que a bola fique solta. Cabe ao treinador encontrar os melhores caminhos para isso dentro da sua filosofia de jogo. É certo que Guardiola não abrirá mão do seu modo de enxergar o futebol. Não abdicará de ter a posse de bola, propor o jogo, ocupar o campo de ataque com muitos jogadores e sempre buscar o gol. O ponto aqui é que, assim como fez em sua estadia no Bayern de Munique, o treinador terá de adequar seu estilo ao futebol do país.

“Em Munique falei com Xabi Alonso e ele me dizia: ‘você tem que se adaptar a segunda bola’. Eu não lhe dava tanta importância, mas agora que estou aqui vejo que é preciso controlar a segunda e a terceira bola. Nunca foquei nisso na minha carreira”. Pep Guardiola

Do outro lado de Manchester, a situação de Mourinho é um pouco diferente. Tricampeão da Premier League, o português conhece o torneio como poucos e sabe do seu nível competitivo. O Special One, famoso por preferir um jogo defensivo, reativo e vertical, alterou seu estilo para o Manchester United finalmente decolar na temporada. Trocou a velocidade e a dependência dos contra-ataques por mais cadencia e capacidade de propor o jogo, mudanças centrais para que os Red Devils começassem a vencer e escalar a tabela.

Foto: Manchester United/Facebook oficial – A alterações na estrutura da equipe finalmente inseriram Ibra e Pogba no jogo do United

Tudo isso passou pela necessidade de dar mais peso para as novas estrelas do elenco, Ibrahimovic e Pogba. A dupla não se encaixam naquele jogo de Mourinho, algo evidente no início da temporada. Aos 35 anos, Ibra está longe de ser um centroavante de explosão e trombador, mas tem inteligência e qualidade técnica muito acimas da média para trabalhar em uma equipe mais propositiva, como foi nos tempos de PSG. Por sinal, enquanto esteve na França, evoluiu demais seu jogo fora da área se tornando bastante participativo na construção das jogadas, características exploradas por Mourinho hoje. Pogba é outro que veio de uma equipe acostumada a tomar as rédeas da partida. Mais do que isso, foi moldado como jogador de alto nível neste cenário, que potencializava sua capacidade de dribles curtos para clarear jogadas e a criação no terço de ataque.

Leia mais: As estrelas de José Mourinho

O plano de Mourinho para ter mais capacidade de propor o jogo se completou em Michael Carrick. O volante inglês talvez seja a peça mais importante dessa mudança. Não pelo que ele faz, mas por permitir que seus companheiros façam. Com ele o treinador português abandonou o 4-2-3-1, sua formação base desde os tempos de Chelsea, e adotou o 4-1-4-1. A entrada de Carrick a frente da defesa aliviou o trabalho de Herrera e Pogba na saída de bola e os liberou para alternarem momentos entre as linhas do adversário com recuos para distribuir a bola. A isso se soma o grandioso trabalho de Ibrahimovic ocupando espaços longe do gol, a boa fase de Mkhitaryan e o excepcional momento de Herrera, certamente um dos melhores meio-campistas do campeonato. Depois que passou a gostar mais da bola, o United cresceu demais e finalmente encontrou seu rumo.

“Nós não somos um time que defende e espera o adversário cometer erros. Eu sei como construir esses times, eu fiz isso antes, sendo muito pragmático. Essa não foi nossa escolha. Não é algo que os torcedores e diretores querem. Não é algo que eu quero para esse projeto, então estamos indo em outra direção a não vamos mudar”. José Mourinho

É fato que Guardiola e Mourinho não passam por uma metamorfose completa. O primeiro segue querendo a bola para jogar, enquanto o segundo prefere entregar a posse e defender em seu campo. O que chama a atenção são as adaptações para sobreviver numa liga exigente. Mudar para vencer, reconhecer que não existe uma fórmula mágica para a vitória e que sempre é preciso reavaliar o trabalho. São necessidades impostas pelo futebol de alto nível e que desenham o jogo para os próximos anos. Será preciso dominar todas as fases da partida, ter repertório e versatilidade se quiser estar no top. Pep e José caminham nessa direção.

Facebook Comentários

Mineiro e estudante de jornalismo. Admira (quase) tudo que cerca o futebol inglês, não esconde seu apreço por times que jogam no contra-ataque (sim, sou fã do Mourinho) e acha que futebol se discute sim. Também considera que a melhor invenção do homem já ultrapassou os limites do esporte.

  • facebook