Aos poucos morre o futebol

Da década de 90 para cá, a violência no futebol escapou à pontualidade para virar uma rotina. O choque ao ver as cenas de selvageria entre torcedores rivais, ou até do mesmo time, deu lugar apenas ao medo. As brigas, agora tão comuns, se tornaram apenas mais uma parte – negativa – do cenário futebolístico. Se sobra disposição em alguns membros das Torcidas Organizadas para sair na porrada, a mesma falta para os outros atores envolvidos nesse enredo.

Poder Público, CBF, Federações e clubes fazem da venda nos olhos a melhor arma para combater esse mal. Quando essa não funciona, preferem adotar posturas evasivas como se pouco, ou nada, tivessem a ver com a questão. Uma partida de empurra-empurra que dura muito mais do que 90 minutos. Os clubes dizem que é caso de polícia, mas a polícia, vilã e vítima de um sistema falido, possui pouco preparo para tal. CBF e Federações, “donas” do produto, preferem o silêncio constrangedor. E o Poder Público, por meio de seus craques engravatados, toma medidas inócuas e vazias, mas recheadas de comodismo. Tal qual pegar o cônjuge na cama com outro(a) e jogar a cama fora.

E é exatamente isso que tem sido feito a torto e a direito país afora. Muitos Estados se valem da violência entre as torcidas para fazer os Clássicos apenas com a torcida do time mandante. Em outros, o visitante tem uma carga baixa de ingressos e fica restrito a um mísero espaço nas arquibancadas. Fora que a maioria já não permite a entrada de bandeiras, instrumentos musicais e roupas ou acessórios das organizadas. Afinal, pedaços de pano e notas musicais brigam entre si a todo instante.

Agora, praticamente desligando os aparelhos de um doente que há muito vivia em estado vegetativo, o fenômeno da torcida única chega ao Rio de Janeiro. Um dos últimos que ainda resistia ao movimento que, cedo ou tarde, decretará a morte oficial do nosso futebol. Não precisa ser nenhum grande analista para perceber que todas as medidas tomadas até então não resolveram em absolutamente nada o problema da violência.

Pessoas seguem matando, pessoas seguem morrendo, como no dia a dia de nossas cidades. A solução mais básica, desenvolver e executar leis que realmente coíbam a violência, segue no banco de reservas. Como torcida única pode ser solução se, muitas vezes, organizadas do mesmo clube brigam entre si?

Um dia fomos aos estádios como rivais, nunca inimigos, e vimos nossos times dando tudo pela vitória. Gritamos, cantamos ofensas sadias aos nossos coirmãos que estavam na outra arquibancada.

A guerra era no grito, na batida do bumbo, no chacoalhar das bandeiras, era para ver quem tinha mais pulmão durante os 90 minutos. Nos tiraram as bandeiras, nos tiraram a bateria. Em breve torceremos calados, como se assistíssemos uma partida de futebol no teatro. Aos poucos, vão nos tirando dos estádios. Talvez, chegará o dia em que haverá somente a bola, triste e solitária, no círculo central.

E quem ousar chutá-la, será punido por violência.

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Jornalista trabalhando com marketing, carioca, 28 anos. Antes de mais nada, não acredito em teorias da conspiração. Até que me provem o contrário, futebol é decidido dentro das quatro linhas. Mais futebol nacional do que internacional. Não vi Zico mas vi Romário, Zidane, Ronaldinho, Ronaldo. Vejo Messi e Cristiano Ronaldo. Totti é pai.