A arte de manejar os espaços

  • por Lucas Sousa
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“Pensar rápido, buscar espaços. Isso é o que eu faço. Todos os dias. Sempre estou buscando os espaços. As pessoas que não jogaram não sabem o quão difícil é. Espaço, espaço, espaço”.

Quem disse isso foi Xavi Hernández, um dos jogadores que melhor entenderam a constante busca por espaços que é o futebol atual. Preencher os pedaços de campo mais importantes de acordo com o momento é uma batalha que os treinadores enfrentam a cada jogo. A defesa quer negar qualquer metro de gramado que possa favorecer uma investida do adversário. Logo, cabe ao ataque saber manejar suas peças para criar os preciosos espaços e, então, atacar.

Foto: SSC Napoli/Site oficial – Maurizio Sarri, o arquiteto do Napoli

A teoria é bem simples, mas, como disse Xavi, a prática é muito difícil. Basta ver quantos de fato conseguem propor o jogo com consistência e as dificuldades que Barcelona, Pep Guardiola e Thomas Tuchel, para citar alguns, têm passado. Do sul da Itália, porém, vem o exemplo de um time que sabe manipular os espaços com maestria. O Napoli de Maurizio Sarri é uma das equipes mais agradáveis de se assistir no Velho Continente. Bola no chão, passes curtos, linhas de passe, triangulações, infiltrações, velocidade… tudo isso baseado no jogo de abrir espaços na marcação rival.

O Napoli se organiza para poder jogar com passes curtos desde a saída de bola com o goleiro. Pepe Reina sempre busca sua linha de defesa nas reposições e aí o estilo napolitano entra em ação. Começam os movimentos para gerar espaços e fazer o jogo fluir, um ciclo de abrir e ocupar terreno que é visto desde o terço defensivo até os últimos metros do campo. Todos jogam com a bola e trabalham sem ela para que a equipe possa mantê-la. Se o adversário foca em marcar o talentoso trio de meio-campistas de Sarri, os zagueiros levam o time ao ataque, sem chutão. Apenas movendo o adversário e criando espaços.

Contra o Genoa aconteceu exatamente isso: meio-campo fechado e saída com os zagueiros, explorando seu lado forte com Kalidou Koulibaly, Marek Hamsik e Lorenzo Insigne, além do ótimo lateral Faouzi Ghoulam. Por diversos momentos, Koulibaly comandou o início dos ataques napolitanos e colocou a bola no campo adversário, sempre contando com o apoio de seus companheiros para abrir a defesa e fazer a bola rodar. Tanto que a combinação de passes que mais repetiu-se ao longo do jogo foi Koulibaly-Insigne, do zagueiro direto para o extremo esquerdo, sem escalas e com a bola no chão.

Foto: Reprodução/Four Four Two Stats Zone – Mapa de passes de Koulibaly para Insigne: zagueiro conduz até o terço central e conecta o atacante

Isso só foi possível porque os outros nove jogadores de linha sabem jogar sem a posse. Os meio-campistas, cientes de que estão sob marcação, desorganizam o adversário e criam buracos para seu time jogar. Assim, os zagueiros inserem-se no jogo e podem iniciar as jogadas da equipe.

Além de todo esse excepcional trabalho coletivo comandado por Sarri, a equipe do sul tem ótimas individualidades para potencializar seu jogo. Hamsik faz o jogo fluir no centro do campo e chega ao terço final para concluir ou colocar seus companheiros em condição de finalizar. Insigne sai da esquerda para ocupar espaços centrais entre as linhas adversárias, criando opções de passe e atraindo rivais. E Dries Mertens está excepcional no comando de ataque. Após a grave lesão do centroavante Arkadiusz Milik, contratado para substituir Gonzalo Higuaín, o belga assumiu a responsabilidade de jogar centralizado e tem feito partidas sensacionais. Oferece muita dinâmica ao tipo de jogo napolitano com movimentações rápidas para apoiar o companheiro ou infiltrar na defesa, tem agilidade e técnica para jogar entrelinhas, inteligência para sair da área e criar espaços e uma veia artilheira que não se via desde a temporada 2011/2012, quando ainda vestia as cores do PSV.

Foto: SSC Napoli/Site oficial – Insigne, Mertens e Hamsik: o trio que comanda a temporada napolitana

No ritmo desse trio, o Napoli consegue envolver seu oponente mesmo quando este recolhe as linhas. É isso que o time italiano tem feito de diferente em relação aos citados Barcelona, Borussia Dortmund e Manchester City. Estes três, mesmo com grandes jogadores e treinadores, têm tido dificuldades quando enfrentam uma barreira sólida nos últimos 40, 30 metros. Tanto que a parcela dos seus gols que saem de contra-ataque ou bola parada são maiores se comparadas ao melhor ataque da Itália, que só não foi à rede em três ocasiões na temporada.

Veja como a equipe de Sarri utiliza todos seus jogadores e vai movendo o adversário, abrindo linhas de passe, criando e usando os espaços para manter a posse no campo de ataque. Em pouco mais de um minuto, diversos movimentos são executados e a bola chega duas vezes nas proximidades da área.

Esse é o jogo do Napoli, um exercício constante de gerar espaço e ocupá-lo, desorganizar o oponente e atacá-lo. Maurizio Sarri fez seus jogadores entenderem que o futebol se joga assim, buscando áreas importantes para ajudar seu time e atrapalhar o adversário. Como disse Johann Cruyff, “o futebol é um jogo que se joga com a cabeça e se utilizam os pés”. E o Napoli 2016/2017 sabe como desfrutar dessas duas extremidades.

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Mineiro e estudante de jornalismo. Admira (quase) tudo que cerca o futebol inglês, não esconde seu apreço por times que jogam no contra-ataque (sim, sou fã do Mourinho) e acha que futebol se discute sim. Também considera que a melhor invenção do homem já ultrapassou os limites do esporte.

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