Caricaturas da Bola

  • por Leandro Lainetti
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Felipe Melo, Renato Gaucho e Vanderlei Luxemburgo. Jogador, técnico e técnico desempregado. Em comum, a facilidade que têm para abrir a boca e, no mínimo, soltar declarações que fogem ao trivial festival de entrevistas feitas do futebol brasileiro. Um sopro de originalidade que alegra imprensa e torcedores cansados de ler e ouvir sempre as mesmas expressões.
Desses três espera-se sempre algo a mais, talvez uma manchete mais atrativa, ou a possibilidade de um debate acerca de suas polêmicas palavras.

O problema começa quando os personagens passam a dominar as pessoas, e a figura central se transforma em uma caricatura da própria realidade. A autenticidade e naturalidade daquelas declarações são encaradas como galhofa e, muitas vezes, o que deveria ser uma entrevista distinta vira deboche na boca do povo, e dos jornalistas.

Luxemburgo, um dos técnicos mais vencedores da nossa história, vem colecionando trabalhos fracassados nos últimos anos. De quem se esperava tanto, hoje espera-se tão pouco. A ridícula campanha na segunda divisão chinesa parece ter sido a gota d’ água. Desde então, nenhum clube brasileiro mostrou verdadeiro interesse em contar com o trabalho do Pofexô.

Começou, então, o show de Luxa pelos canais de televisão. Foi em praticamente todos os programas de entrevistas e debates esportivos, chegando a discutir avidamente com PVC, Cleber Machado e Caio Ribeiro, e não se furtou a atacar Guardiola. No “Bem, Amigos”, proclamou-se um técnico de vanguarda, sendo responsável pelos conceitos modernos do futebol mundial.

Já Renato Gaúcho voltou ao Grêmio após a saída de Roger. Reconhecido muito mais pelo aspecto motivador do que por um trabalho diferenciado na metodologia de treinos e sistemas táticos, sagrou-se campeão da Copa do Brasil, em cima do badalado elenco do Atlético Mineiro de Marcelo Oliveira. Aproveitou a oportunidade para destilar ironias a jornalistas e técnicos que procuram se especializar. Foi daí que surgiu a polêmica frase “quem não sabe estuda, quem sabe tira férias na praia”, repetidas inúmeras vezes por ele mesmo nos dias subsequentes ao título. No Bola da Vez, da ESPN, disse que foi melhor jogador do que Cristiano Ronaldo.

Enquanto isso, na chegada ao Palmeiras, Felipe Melo desembarcou mostrando, digamos, seu lado menos agradável. De coleira solta, o Pitbull soltou ataques à imprensa, ao VP de Comunicação do Flamengo e até falou em “dar tapa na cara de uruguaio”. Nas primeiras partidas do Campeonato Paulista, um pouco mais do personagem “Ousado”, como se auto intitula. Palavras fortes para Neto, comentarista da Band, gritos na cara de um jogador adversário caído e uma boa chacoalhada em Dudu, após o atacante não comemorar um gol.

Tudo isso repercute na mídia e em redes sociais, mantendo as três figuras sob os holofotes do público, seja para o bem ou para o mal. No caso dos treinadores, as palavras levam à ironias e descrédito ao trabalho por parte de quem está do lado de cá. Para Felipe, que tanto quer se desgarrar da imagem de jogador violento, continuam sendo dados olhares negativos, reprovando suas atitudes pouco usuais.

Quando as caricaturas são mais vistas que os verdadeiros indivíduos, é hora de repensar a postura e entender que, por mais autêntico que se queira ser, nem sempre é bom estar fora do senso comum.

Jornalista trabalhando com marketing, carioca, 28 anos. Antes de mais nada, não acredito em teorias da conspiração. Até que me provem o contrário, futebol é decidido dentro das quatro linhas. Mais futebol nacional do que internacional. Não vi Zico mas vi Romário, Zidane, Ronaldinho, Ronaldo. Vejo Messi e Cristiano Ronaldo. Totti é pai.

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