COPA AFRICANA DAS NAÇÕES 2017: viva Camarões, viva os Leões Indomáveis!

  • por Rogério Bibiano
  • 7 Meses atrás

Com o Stade de l’Amitié, em Libreville (Gabão),, completamente lotado, a final da CAN2017 viu uma bonita festa. (foto: Sydney Mahlangu/BackpagePix)

A 31ª edição da Copa Africana da Nações (CAN), encerrou-se neste final de semana, consagrando a seleção de Camarões como a grande campeã. O torneio, disputado no Gabão, teve 32 jogos, com 66 gols marcados e o mais importante, bons e emocionantes jogos.

Como foi a final

De uma lado o Egito, maior campeão do continente com sete títulos em oito finais disputadas, uma equipe em plena renovação, comandada pelo experiente treinador argentino, Héctor Cúper e que estavam há sete anos sem participar da fase final da CAN, num claro reflexo dos problemas políticos que assolaram o Egito e que influenciaram o futebol local. Assim, a CAN2017 marcou o retorno de uma das potências do continente.

Do outro lado, outra equipe de muita tradição, Camarões, dona então, de quatro títulos em seis finais disputadas e que também passavam por um processo de renovação, após inúmeros recentes fiascos que marcaram negativamente sua participação em muitas competições e que justamente, lhe deram a condição de coadjuvante nesta CAN2017, especialmente porque muitos jogadores importantes recusaram a convocatória do treinador belga Hugo Bross, que assim, sem muitas opções, foi obrigado a promover uma renovação na sua equipe.

Em campo, o Egito pragmático dos primeiros jogos na competição, não mudou a sua postura, de esperar o adversário, mas de marcar com muita força e na transição ofensiva contar com o talento dos seus jogadores de frente, especialmente quando a bola chegava aos pés do ótimo Mohamed Salah. Já Camarões, com uma confiança muito grande, após eliminar os favoritos Senegal e Ghana, tinha mais posse de bola, entretanto parando no setor defensivo egípcio ou nos próprios erros de ataque. Apesar do Egito ter menos posse de bola, os “Faraós” chegaram duas vezes com maior perigo ao gol defendido por Fabrice Ondoa, na primeira, boa troca de passes em velocidade e Abdallah El-Said arrematou para defesa segura do arqueiro camaronês. Aos 22 minutos do primeiro tempo, o Egito voltou a trocar passes pelo lado direito do campo, e Mohamed Salah deu ótimo passe para Mohamed Elneny que chutou colocado no ângulo de Ondoa, marcando belo gol.

Mohamed Elneny (17) comemora o gol que abriu o placar na final da CAN2017. (foto: Samuel Shivambu/BackpagePix)

No segundo tempo, Camarões voltou com mais ofensividade em relação à primeira etapa. Apostando nas jogadas pelos flancos e nos arremates de média distância, os camaroneses fizeram a chamada “blitz” ao gol de Essam El-Hadary. O empate veio aos 31 minutos, com o experiente Nicolas N’Koulou, substituto do lesionado Adolphe Taikeu, que acertou cabeçada sem defesa para o veterano arqueiro egípcio. Já melhor em campo, o gol deu mais motivação aos camaroneses, diante de um Egito que sentiu a pressão do jogo. Aos 43 minutos, Vicent Aboubakar, que havia entrado no lugar de Robert També, recebeu lindo lançamento de Siani, dominou no peito, deu um chapéu em Gabr e chutou sem chances para El-Hadary, virando o jogo para Camarões. Na comemoração o camisa 10 dos “Leões Indomáveis” foi direto à tribuna de honra do Stade de l’Amité e apontou para dois ídolos históricos do futebol camaranoês: Samuel Eto’o e Roger Milla, que estavam sentados lado a lado, um gol que certamente fez jus à história de conquistas de Camarões na África.

O legado da conquista camaronesa

A quinta conquista camaronesa é fruto de um belo trabalho do belga Hugo Bross. Sob a incerteza de quem chegou a África para treinar pela primeira vez uma seleção local e numa equipe assolada nos últimos anos por diversos problemas extra-campo; Bross não teve os melhores jogadores à sua disposição, pois muitos recusaram a convocatória sob os mais diversos argumentos. Entretanto, o treinador soube ter o feeling necessário para promover um jogo consistente, com posse de bola e dando oportunidade aos mais jovens. Além disso, Bross conseguiu algo que poucos imaginavam, unir um grupo em torno do objetivo maior de recolocar Camarões novamente como uma seleção respeitada dentro da África. Assim, Camarões desembarcou no Gabão como uma incógnita e na condição de coadjuvante; agora deixa o país-sede da CAN2017 com a confiança de um trabalho organizado e acima de tudo, escrevendo novamente o seu nome dentro da história do continente.

Uma imagem, que reflete o atual estágio de Camarões. um grupo unido, algo que há alguns anos não se via dentro dos “Leões Indomáveis”. (foto; Guy Alain Suffo/Backpagepix)

Próximo passo: as Eliminatórias para a Copa do Mundo de 2018

No campo das seleções, as atenções se voltam para as Eliminatórias da Copa do Mundo da Rússia, da qual Camarões participa no grupo B, ao lado de Argélia, Nigéria e Zâmbia. Um grupo difícil pois conta com outras três forças do continente. Entretanto, a vantagem camaronesa está na auto-confiança adquirida e a participação e conquista desta CAN serviu para isso, ao contrário da Argélia, por exemplo, que foi a grande decepção e sequer avançou às quartas de final e ainda viu o também belga George Leeskens pedir demissão, num cenário de crise e da própria Nigéria, que sequer classificou-se à CAN, os camaroneses têm um momento favorável ao seu dispor e ainda contam com a participação na Copa das Confederações, torneio que certamente servirá para Hugo Bross ajustar ainda mais sua equipe. Num cenário aonde as seleções em geral possuem pouco tempo para se reunir e se aprimorar, Camarões tem uma bela oportunidade de manter a sua ótima fase e conquistar mais uma vez a classificação à Copa do Mundo, algo que certamente não será fácil, mas que dadas as circunstâncias mais recentes era pouco imaginável na cabeça do torcedor mais apaixonado.

As revelações individuais da CAN2017

A CAN2017 foi uma edição que marcou a estreia de jovens valores na principal competição de seleções da África, Doentes por Futebol selecionou algumas revelações com base no futebol apresentado no torneio.

Bertrand Traoré (Burkina Faso)

O jovem jogador de Burkina Faso, atuando pelo lado direito do campo, na formação adotada pelo treinador português Paulo Duarte, foi uma das gratas surpresas desta edição do torneio. Jogador habilidoso e que demonstrou uma capacidade tática enorme ao longo da competição. Com apenas 21 anos, assumiu a condição de um dos principais jogadores da sua equipe e certamente é o grande destaque jovem da competição.

Em sua primeira CAN, o jovem Bertrand Traoré (19), assumiu a responsabilidade e foi um dos destaques da competição. (foto: Guy Alain Suffo/BackpagePix)

Hervé Kouakou Koffi (Burkina Faso)

Outra aposta do treinador Paulo Duarte, o jovem goleiro de apenas 20 anos foi um dos bons destaques de Burkina Faso. Arrojado e com ótima colocação, impressionou já na estreia da competição, com suas saídas ousadas mas sempre precisas em relação ao ataque camaronês. Além disso foi autor de grandes defesas na competição. Já desperta a atenção de equipes da Europa e dificilmente deverá seguir no ASEC Mimosas, da Costa do Marfim, ao longo da temporada.

Arrojado e com muita qualidade técnica, Hervé Koffi, provou o motivo da confiança nele depositada pelo treinador Paulo Duarte.

Fabrice Ondoa (Camarões)

Outro goleiro de muito destaque nesta CAN2017 é sem sombra de dúvidas Fabrice Ondoa, campeão e um dos principais nomes de Camarões na competição. Com apenas 21 anos, o jogador do Sevilla Atletico, da Espanha, assumiu a condição de titular de uma seleção que historicamente possui uma das maiores escolas de goleiro da África, entretanto, com muita personalidade, não se eximiu desta responsabilidade e é um dos destaques da CAN2017, sendo que para muitos foi o melhor da posição na competição.

Mantendo a tradição de ótimos goleiros camaroneses, Fabrice Ondo foi peça decisiva na conquista da CAN2017. (foto: Samuel Shivambu/BackpagePix)

Farouk Miya (Uganda)

Com apenas 19 anos de idade, o jogador do Standard Liége, da Bélgica é um considerado um dos potenciais grandes jogadores da África no futuro. Estreando na CAN, Miya não decepcionou e fez bons jogos na competição, apesar das limitações técnicas e táticas, observadas pelo selecionado de Uganda, que segue firme e forte no sonho de conquistar uma das vagas africanas para a Copa do Mundo de 2018. No último jogo contra Mali, Miya presenteou aos admiradores do futebol com um belíssimo gol.

A Seleção Doentes por Futebol da CAN2017

1 – Essam El-Hadary (Egito)

Ele já foi campeão africano de seleções por quatro vezes e campeão continental de clubes outras quatro oportunidades, atuando pela mística camisa do Al-Ahly Cairo. Aos 44 anos de idade, Essam El-Hadary, já havia encerrado suas atividades junto a seleção do Egito. Porém, o jogador segue jogando no Wadi Degla e tendo ótimas atuações, tanto que virou homem de confiança de Héctor Cúper na fase de transição dos jovens valores. Nesta CAN2017, El-Hadary teve atuações memoráveis e decisivas em praticamente todos os jogos do Egito, sendo um dos responsáveis diretos por levar os “Faraós” a mais uma final de CAN. Na semifinal, diante de Burkina Faso, El-Hadary, teve uma atuação de gala, defendendo as cobranças derradeiras de Koffi e de Bertrand Traoré e merecidamente é o melhor goleiro da CAN2017.

2 – Steeve Yago (Burkina Faso)

Discreto mas eficiente marcador, Steeve Yago foi um dos pilares do sistema defensivo da equipe de Paulo Duarte. Aos 24 anos de idade, o lateral do Toulouse, da França vive um grande momento em sua carreira. Não tão badalado como seus companheiros, Yago realizou uma competição praticamente perfeita sob os pontos de vista técnico e tático, formando junto ao flanco direito de Burkina Faso, uma constituição tática muito forte e importantíssima, de onde se originaram as principais jogadas da sua equipe.

Marcador implacável, Yago (2) é um dos principais jogadores de defesa da África.

3 – Kara Mbodji (Senegal)

Um dos ótimos destaques da ótima seleção do Senegal sem sombra de dúvidas é o sistema defensivo, extremamente forte defensivamente e uma ameaça em potencial aos adversários nas bolas paradas. E esta alta performance se deve à chegada do treinador e ex-capitão senegalês, Aliou Cissé, que tem em Kara Mbodji, de 27 anos, seu principal jogador. O atleta do Anderlecht, da Bélgica vem sendo sondado por grandes equipes dos principais centros do futebol europeu e após suas seguras apresentações na CAN, dificilmente deverá seguir na equipe belga.

4 – Michael Ngadeu-Ngadjui (Camarões)

Polivalência talvez seja a palavra que melhor define, o zagueiro Michel Ngadeu-Ngadjui, uma das apostas do treinador belga Hugo Bross, que tirou o jogador de 26 anos da lateral-direita e colocou-o atuando como zagueiro mais centralizado, pelo lado esquerdo do campo defensivo camaronês. Com um histórico oscilante dentro da seleção de Camarões ora sendo convocado, ora sendo renegado, o defensor do Slavia Praga, da República Tcheca foi mais que um simples jogador do bom armado sistema defensivo de Bross. Foi um dos líderes da equipe e uma grata revelação à Camarões que carecia de um jogador assim, desde a aposentadoria do lendário zagueiro Rigobert Song.

6 – Ambroise Oyongo (Camarões)

Eficiente, discreto, mas um atleta de muitos recursos. Este foi o perfil apresentado por Ambroise Oyongo, outra aposta do treinador Hugo Bross nesta CAN2017. Jogador não tão badalado mas muito importante durante a competição e que aos 25 anos de idade, finalmente parece tomar conta do setor que em anos anteriores foi dominado pelo temperamental Assou-Ekoto. Vencer a desconfiança dos torcedores e da imprensa em geral talvez tenha sido o grande obstáculo de Oyongo, que estava em outros elencos da seleção, mas que nunca conseguia ter a oportunidade e certamente confiança para executar seu trabalho. O lateral esquerdo, que atua no Montreal Impact, do Canadá e que na verdade joga em mais de uma função, agora é uma ótima opção para Hugo Bross ao longo do seu trabalho.

O egípcio Amr Warda (22), foi uma aposta para vencer o determinado e implacável Ambroise Oyongo (6), que levou a melhor neste duelo. (foto: Reuters/Amr Abdallah)

5 – Charles Kaboré (Burkina Faso)

Figura carimbada em Burkina Faso, Charles Kaboré é muito conhecido por quem acompanha futebol, sobretudo pela sua passagem no Olympique de Marseille, da França. Hoje atuando pelo FC Krasnodar, da Rússia, Kaboré mais experiente, aos 28 anos, segue liderando em campo a seleção burkinabé e foi um dos destaques, pois com a mesma qualidade que desarma, aparece para o jogo, dando sempre uma ótima opção aos seus companheiros. Surpreendentemente Kaboré anunciou a sua retirada da seleção, logo após a vitória nas quartas de final diante da Tunísia. Desde 2006 vestindo a camisa 18 dos “Garanhões”, o meia explicou que sua decisão é para dar mais oportunidades à jovens valores que estão surgindo em Burkina Faso.

Charles Kabore mais uma vez mostrou excelente qualidade no meio de campo burkinabé. Jogador anunciou sua aposentadoria da seleção. (foto: Gavin Barker/BackpagePix)

8 – Chancel Mbemba (República Democrática do Congo)

Jogador moderno e que tem a noção de atuar em mais de uma posição, Chancel Mbemba, de apenas 22 anos de idade atua no Newcastle United, da Inglaterra. Nesta CAN foi escalado no meio de campo pelo treinador Florent Ibangé e foi um dos ótimos destaques da sua seleção. Com ótimo senso de marcação, mas com boa qualidade no passe, causou boa impressão atuando pelo setor. Agora resta saber se conseguirá manter o nível destas atuações no futebol inglês. Para a seleção congolesa uma ótima opção para o restante da temporada, especialmente na briga para ir à sua primeira Copa do Mundo na condição de República Democrática do Congo.

Mostrando polivalência, Mbemba foi um dos destaques da sua seleção e da competição em geral.

10 – Bertrand Traoré (Burkina Faso)

Teoricamente ele atuou mais pelo flanco direito de ataque. Entretanto, tinha liberdade para circular na faixa ofensiva e quando caía pelo meio também apresentava ótimos resultados. Grande revelação desta CAN, Bertrand Traoré, de apenas 21 anos de idade, deverá deixar o Ajax, da Holanda com destino a centros maiores do futebol europeu. Em grande fase e com muita qualidade técnica e tática, Bertrand Traoré é hoje a grande esperança burkinabé na realização de um sonho: a vaga à Copa do Mundo da Rússia; um sonho que certamente pelo futebol que Burkina Faso jogou, não é nenhuma loucura e sim uma realidade.

7 – Mohamed Salah

Outro jogador que jogou o fino da bola, mas que já é uma realidade dentro do futebol é Mohamed Salah, que juntamente com Essam El-Hadary foi um dos pilares da seleção egípcia. Assim, com belos gols e assistências primorosas, Salah simplifica o jogo e sobretudo a vida dos seus companheiros. Ciente da capacidade do camisa 10 do Egito, que fez grande primeiro tempo na final da CAN, o treinador Hugo Bross corrigiu o posicionamento de sua equipe evitando ao máximo que a bola chegasse aos seus pés. Assim, como tantos outros destaques, Salah é a grande esperança do Egito voltar à uma Copa do Mundo, após 28 anos.

9 – Junior Kabananga (República Democrática do Congo)

Convocado de última hora, para substituir o lesionado Hervé Kage, Junior Kabananga, é experiente junto a sua seleção. Entretanto poucos poderiam imaginar que o jogador de 27 anos de idade, que atua no FC Astana, do Cazaquistão, iria ao longo dos treinamentos, ganhar a posição de titular junto à equipe. Oportunidade dada, Kabananga não decepcionou, marcando gols contra Marrocos, Costa do Marfim e Togo. Com três gols é o artilheiro desta edição da CAN e apesar de 1m90 de altura, atua mais pelos lados do campo. Tais apresentações devem alavancar a carreira de Kabananga que não deverá permanecer no modesto Astana por muito tempo.

11 – Christian Bassogog (Camarões)

Com apenas 21 anos de idade, Christian Bassogog estreou muito jovem na seleção camaronesa, num ambiente impróprio à um jovem; cercado de problemas dentro do vestiário. Porém, o forte jogador que atua pelos lados do campo, soube aproveitar como poucos a oportunidade de renovação promovida pelo treinador Hugo Bross. Assim, o atleta do modesto AaB, da Dinamarca que antes da competição africana, os diretores da equipe já haviam informado oficialmente que Bassogog tinha propostas de outras equipes europeias. Após o camisa 13 ser considerado o melhor jogador da competição, ganhando a bola de ouro da Confederação Africana de Futebol (CAF) pela sua performance na CAN2017; agora que dificilmente dever permanecer na equipe, devendo ser negociado na próxima janela de transferência.

Decisivo e apresentando uma evolução tática muito grande, Bassogog foi eleito o melhor jogador da CAN2017.

O futebol africano iniciou a sua temporada em grande nível, ainda dentro do continente teremos a briga acirrada de 20 seleções buscando uma vaga no Mundial da Rússia; assim como a CAF Champions League vai movimentar os clubes do continente, sempre revelando jovens e bons jogadores. Todas as emoções do melhor do futebol africano, você acompanha aqui, no Doentes por Futebol, a casa africana do futebol no Brasil.

Comentários

Natural de Telêmaco Borba-PR e criado em meio à "boemia futebolística", com horas de papo sobre futebol, samba e cervejas na pauta. Influência do pai, que também adorava futebol, e da mãe, que sempre apoiou a iniciativa. Técnico em Eletrônica, formado desde 1999, e fanático por futebol, futsal, futebol de praia, society e todo esporte que tenha no futebol a sua essência.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado.