Trinta e três é pouco, Lahm

Conta-se nos dedos o número de jogadores que exerceram, como se lhes fossem naturais, as tarefas das duas laterais e do meio-campo. São poucos os espécimes dotados da capacidade de entender com perfeição o que se passa pelos flancos e pelo meio. A diferença das dinâmicas existentes entre os setores é gigantesca e é preciso enorme inteligência para entendê-la.

Foto: FCBayern.com

O alemão Philipp Lahm, ídolo eterno no Bayern de Munique, é um desses raros agraciados, um atleta que transmite a impressão de que jogará bem onde quer que seja escalado. E não é só isso: o jogador é um verdadeiro exemplo de profissional, um desportista exemplo e um exemplo de desportista que ainda hoje, aos 33 anos, atua em altíssimo nível.

Quem está no mínimo na faixa dos 20 anos não se esquece: Lahm inaugurou o placar da Copa do Mundo de 2006; e o tento esteve longe de ser convencional. À época lateral esquerdo, como se fosse um ponta, o alemão recuperou bola refugada pela retaguarda da Seleção Costarriquenha, livrou-se de seus marcadores, trouxe a bola para o meio – para favorecer a condução de bola, uma vez que sempre teve na perna direita seu grande trunfo – e acertou um chute de rara felicidade.

Confesso, em minha ignorância, que esse foi o marco que me levou a acompanhar mais de perto a carreira do jogador, então com 22 anos. Entrego-me também ao revelar que desde aquele dia passei a ter Lahm em alta conta. Sim, em um primeiro momento, foi por conta de um gol bonito. Perdoem a ingenuidade de um garoto de 13 anos.

Seu lugar mais especial, contudo, foi sempre a outra lateral, a direita; descobrimos isso com o passar do tempo (obrigado, Louis van Gaal). Com o transcorrer dos anos também percebemos que Lahm se tornaria mais um desses exemplos de lealdade da história do futebol. Não foram poucos os times que tentaram tirá-lo do Bayern de Munique – basta citar Barcelona e Manchester United como agremiações que o especularam como contratação para termos a exata noção do forte liame existente entre jogador e clube.

Foto: FCBayern.com

E o futebol é maravilhoso, dentre outras coisas, por isso: permite que os torcedores amem igualmente jogadores indisciplinados e profissionais exemplares. Lahm se confirmou com o passar do tempo um perfeito modelo da segunda categoria. As consequentes responsabilidades como capitão, tanto do Bayern quanto da Seleção Alemã, vieram confirmar isso. Entretanto, quando parecia que tudo se encaminhava para um prolongamento de carreira tranquilo como lateral, passados mais de 300 jogos pelo clube, chegou Pep Guardiola para “bagunçar tudo”. Nascia o ótimo volante Phillip Lahm.

Após viver uma temporada dos sonhos sob o comando de Juup Heynckes, com os títulos alemão, da Copa da Alemanha e da UEFA Champions League, Lahm enfrentou novo desafio. Saiu-se muito bem. Para o observador que nunca havia visto o alemão atuar pelas alas, não parecia que o meio-campo fosse uma novidade para o jogador. Com saída de bola excelente e bom tempo de bola, mostrou bom desempenho tendo todo o campo em seu horizonte e não mais uma faixa estreita do campo. Porém, seu lugar era mesmo na lateral.

Foto: DFB.de

Joachim Löw, técnico da Seleção Alemã, bem que tentou seguir a ideia de Guardiola na Copa do Mundo de 2014, mas percebeu que precisava de Lahm na lateral e, assim, o trouxe de volta a seu posicionamento original. Aqui, uma imagem confirma o acerto do comandante mais do que quaisquer palavras, basta observar o lateral erguendo o troféu de campeão. Como sempre, Lahm foi extraordinário.

Também é extraordinário perceber como um jogador de tão alto nível conseguiu conservar uma identidade tão low-profile. Foi assim que decidiu se aposentar da Nationalelf, sem alarde, preferindo se dedicar com exclusividade ao Bayern, ao seu querido Bayern. Também assim, neste último 7 de fevereiro, data sem qualquer importância, anunciou que se aposentará ao final da temporada 2016/17, aos 33 anos, apenas.

Foto: FCBayern.com

O mundo da bola transpira respeito quando precisa refletir sobre a carreira de Lahm. Por isso, ainda que não consigamos saber o que se passa em seu íntimo, nós, amantes do futebol, não conseguimos deixar de sentir uma nota de pesar com o anúncio de sua aposentadoria. À sua maneira, o polivalente atleta do Bayern e da Seleção Alemã conseguiu se tornar ícone. Ou melhor, lenda.

São 20 títulos pelo clube bávaro e mais uma Copa do Mundo pela Alemanha. É pouco? Certamente, não. O que parece ser pouca é a idade com a qual Lahm decidiu pendurar as chuteiras. Seu futebol segue em alto nível e sua idolatria, nos conformes. Então, sim: há um certo pesar nessas palavras. Pesar esse que só é compensado pela lembrança de que as lendas deixam os gramados, mas os gramados nunca as deixam. Lahm não foi o símbolo de uma geração. Ele é. E sempre será.

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Advogado graduado pela PUC Minas, mestrando em Ciências da Comunicação (Universidade do Minho), 24 anos. Admito minha preferência pelo futebol bretão, mas aprecio o esférico rolado qualquer terra. Desde a infância, tenho no atacante Marques e no argentino Pablo Aimar referências; o melhor jogador que vi jogar foi o lúdico Ronaldinho Gaúcho, na temporada 2004/05. Estou também no O Futebólogo, no Chelsea Brasil e na Corner.

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