A bola rolou, mas a crise segue na Argentina

  • por Elcio Mendonça
  • 5 Meses atrás

Duas derrotas e dois empates. Esse é o saldo dos clubes argentinos na semana inaugural da fase de grupos da Libertadores. Enquanto o Brasil pode se orgulhar de somar três vitórias e quatro empates (com apenas Atlético Paranaense e Flamengo atuando como mandantes), os hermanos ainda não sentiram o sabor do triunfo.

Mas os problemas na terra de Maradona vão muito além de uma largada em falso na principal competição de clubes da América do Sul. O futebol argentino vive uma crise institucional, que colocou clubes e a própria federação local ladeira abaixo nos últimos meses.

Poucos sentiram a pancada do FIFA Gate como a AFA (Associação do Futebol Argentino). Desde a descoberta do escândalo, em maio de 2015, a associação viu dirigentes serem presos, seu principal parceiro comercial, a Torneos y Competencias, ser virada de ponta cabeça e teve sua marca desvalorizada no mercado.

Sob intervenção da FIFA desde a metade do ano passado, a AFA vive sérios problemas financeiros, que chegaram, inclusive, a atrapalhar a Albiceleste durante a disputa da Copa América Centenário, nos Estados Unidos.

E lá como cá, não existe uma liga responsável pela organização do torneios de clubes, cabendo à federação também ser responsável pelos campeonatos locais. Como era esperado, isso também pegou em cheio os times.

Isso tudo somado à crise econômica que toma conta da Argentina. O modelo neo-liberal implantado pelo presidente Maurício Macri, no cargo desde dezembro de 2015, trouxe um grande crescimento da inflação e enorme desvalorização ao peso, tendo como consequência uma forte recessão econômica.

Adepto do estado mínimo e do livre mercado, Macri defende um drástico corte nas despesas do governo. Até faz sentido em um país em crise, mas nem tudo pode ser cortado, e é preciso planejamento para lidar com aquilo que pode sofrer cortes.

Foto: Divulgação/CABJ – Macri foi bem sucedido à frente do Boca Juniors

Não demorou para o futebol sofrer também. No final de 2016, Maurício Macri, que já foi presidente do Boca Juniors, anunciou que rescindiria o contrato do programa “Fútbol Para Todos”, projeto criado por Cristina Kirchner em 2009, aonde o governo argentino era o responsável por comprar os direitos de transmissão do Campeonato Argentino, da segunda divisão e das fases finais de Libertadores e Sulamericana. Em troca, poderia exibir todos os jogos na tv aberta e internet.

Para se ter ideia, o Estado pagou 1.8 bilhão de pesos (cerca de R$360 milhões) à AFA pela temporada 2016. O dinheiro do FPT tinha forte importância na receita dos clubes, chegando a representar mais da metade do faturamento. Ao cortá-lo subitamente, Macri deixou as equipes com a faca no pescoço.

Faz todo o sentido ter empresas privadas brigando pelos direitos de transmissão. Além de tirar um peso das costas do governo, é até saudável para o próprio futebol argentino, mas fazer isso sem planejamento, sem um período de transição, deixou as empresas de comunicação em uma situação favorável para negociar. Fox Sports e Turner (dona do Esporte Interativo no Brasil) demonstraram interesse na compra, mas ofereceram pouco pelo contrato.

Mesmo antes do término do “Fútbol Para Todos”, as equipes já reclamavam de demora nos repasses dos pagamentos. Sem dinheiro em caixa, chegaram a atrasos de até quatro meses nos pagamentos dos atletas. Então entrou em campo o sindicato dos jogadores, preocupado não apenas com quem joga na primeira divisão, mas, principalmente, com os torneios menores, aonde a situação é ainda mais crítica. O resultado foi uma greve geral, que atrasou o reinício do Campeonato Argentino após a pausa do fim de ano, previsto para o começo de fevereiro, mas que só teve o pontapé inicial ontem, com a vitória do Vélez por 3 a 2 sobre o Estudiantes, em Liniers.

O fim da paralização só aconteceu porque o governo aceitou pagar parte da multa rescisória do FPT. Depositou 350 milhões de pesos (cerca de R$70 milhões), mas ainda faltam 175 milhões de pesos (algo em torno de R$35 milhões). Foi o suficiente para os clubes realizarem parte dos pagamentos, e a bola voltar a rolar.

Ainda assim a crise continua. Cabe aos clubes se unirem e lutarem, com um planejamento a médio e longo prazo, para mudar o sistema do futebol argentino. A possível criação da Superliga, que seria responsável pela gestão do campeonato nacional, pode ser um bom primeiro passo.

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Jornalista pós graduado em Gestão Aplicada ao Esporte e um doente por futebol. Trabalha atualmente como gerente executivo de esportes na RedeTV! e já passou por Esporte Interativo, Náutico, Portuguesa e Santo André.