Danilo Barcelos: polivalência a serviço de Roger Machado

O calendário indicava o início de maio de 2016. Era o dia 1º daquele mês e Atlético e América se encaminhavam para o gramado do Estádio Independência para a disputa do primeiro jogo da final do Campeonato Mineiro. Completavam-se, naquele momento, 15 anos sem que o Coelho conquistasse o estadual das Minas Gerais.

Mal sabia o torcedor do Decacampeão que a estrela de um jogador que deixaria o banco de reservas brilharia tanto que ofuscaria a das outras que adornavam o campo; por obra dos pés do iluminado Danilo Barcelos se desenhou o fim de uma incômoda espera.

O 2×1 no placar, com dois tentos de Danilo (Lucas Pratto diminuiu para o Galo no apagar das luzes), deixou a situação à feição para que, na semana seguinte, tendo o Mineirão como palco, o América conquistasse o título mineiro.

Foto: Divulgação/ América Mineiro

O que muitos possivelmente não imaginariam é que novamente o mais intenso brilho visto no Gigante da Pampulha sairia do corpo do camisa 14 americano, que marcou o tento do título de seu clube, aos 38 minutos do segundo tempo. Em duas oportunidades, em que estiveram presentes jogadores da estirpe de Victor, Robinho ou Lucas Pratto, foi o polivalente Danilo quem determinou o andamento dos trabalhos.

Início no América

Para muitos, esse foi o marco que permitiu conhecer o futebol desse mineirinho, de Coronel Fabriciano. No entanto, desde 2011, ano em que se profissionalizou, o atleta tem tentado deixar sua marca dentro das quatro linhas. Formado no Coelho – e com passagens pelas categorias de base de Bahia e Cruzeiro –, rodou por Francana, Poços de Caldas e Anápolis, até finalmente ganhar oportunidades no América; 2013 foi o ano que o projetou.

Bryan, lateral-esquerdo que despontou com grande destaque no clube mineiro, havia se transferido para o Benfica e sua posição ficou vaga. Situação que não durou muito. Rapidamente, Danilo ocupou o posto e começou a se destacar. Em 39 partidas, marcou dois gols (contra Bragantino e ASA) e ajudou o América a sonhar com o acesso à Série A do Campeonato Brasileiro (faltaram três pontos).

Foto: Divulgação/ América Mineiro

Seu futebol não passou despercebido em 2013, mas, mesmo assim, o América optou pelo retorno de Gilson, lateral que havia tido bom desempenho com a camisa do clube em 2011. Assim, para que pudesse dar continuidade à sua evolução, Danilo partiu para o Sport, clube que seria sua casa até 2015.

Na ocasião, profetizou: “sou cria do América e tenho um orgulho muito grande do clube. Eu quero voltar um dia para cá e poder contribuir da melhor maneira possível para o time conseguir realizar seus sonhos”.

Passagem pelo Sport

Foto: Williams Aguiar / Sport Club do Recife

Foi no clube pernambucano, contudo, que o jogador começou a dar demonstrações mais sólidas de sua polivalência. Em sua primeira experiência na Série A do Brasileirão, teve a missão ingrata de disputar posição com Renê, então o lateral-esquerdo titular e uma das peças de maior destaque do Leão da Ilha. Aos poucos, todavia, foi entrando no time, não na sua função habitual, mas no meio-campo, pelo lado esquerdo.

Foi dessa forma que Danilo atuou na maior parte do período em que esteve na Ilha do Retiro, o que se prolongou até o final de 2015. Não obstante, no referido ano, o Sport contou com um elenco mais qualificado. Mantida a titularidade de Renê e contando com jogadores como Marlone e Diego Souza no meio-campo, o lateral/meia perdeu parte de seu espaço.

Foto: Sport Club do Recife

“Não esperava encontrar tanta estrutura [no Sport], precisava sair do clube que me formou para crescer como atleta e homem. Fui tão feliz no Sport, que, além dos títulos, me casei e tive a notícia de que minha filha estava por vir. Com certeza, 2014 e 2015, no Sport Recife, estarão marcados para sempre em minha vida!”, disse o jogador em entrevista exclusiva ao Doentes por Futebol.

Após 58 partidas e oito gols marcados, com a conquista dos títulos da Copa do Nordeste de 2014 e do Campeonato Pernambucano de 2015, era chegado o momento de o atleta cumprir sua promessa e retornar a Belo Horizonte.

Volta ao Coelho e conflito de emoções

Ironicamente, ao retornar ao América, voltou a ter a concorrência de Bryan. No início do Campeonato Mineiro de 2016, começou a disputa como titular, inclusive marcando gol contra a Caldense, mas perdeu a posição na 5ª rodada, ocasião em que foi substituído por seu competidor e o viu anotar um belo gol. O rival? Ninguém menos que o Cruzeiro. A partir de então, passou à reserva.

Foto: Divulgação/ América Mineiro

Nos encontros que se seguiram imediatamente, Danilo foi muito utilizado no decorrer das partidas, não na vaga de Bryan, mas fazendo dobradinha com o ala, pela esquerda. Vieram, pois, as partidas finais do Campeonato Mineiro e, como falado, a partir delas tudo mudou. Do banco ao posto de herói, viu Bryan se transferir ao Cruzeiro e o caminho ficar livre para que pudesse dominar a lateral esquerda americana.

Aos quatro gols marcados no estadual, seguiram-se mais seis no Brasileirão, números que confirmaram o jogador como o grande destaque de um América que não resistiu e foi rebaixado à Série B.

Foto: Divulgação/ América Mineiro

“A sensação [de ser o destaque das finais do Mineiro] foi maravilhosa, apesar de naquele momento estar fora, eu estava aguardando ansioso por minha chance, sabia o quanto eu podia ajudar. 2016 foi um ano complicado para nós, houve muita coisa errada, desde que o professor Givanildo [Oliveira] saiu não fomos os mesmos. O Brasileirão, apesar de ser longo, é rápido, depois que vira o turno, não dá para voltar mais [atrás do prejuízo]”, acrescentou.

Na competição, também voltou a atuar no meio-campo em algumas ocasiões, sobretudo após novo retorno de Gilson. Assim, com destaque individual, poder de decisão e se confirmando um coringa, Danilo Barcelos carimbou seu passaporte para a grande oportunidade de sua carreira.

A grande chance de sua carreira

Nos dias finais de 2016 saiu o anúncio oficial: por três temporadas, aos 25 anos, Danilo chegava ao Atlético Mineiro, clube em que novamente teria disputa dura pela titularidade. Selecionável, Fábio Santos já era o dono da lateral esquerda atleticana; nada que tenha impossibilitado o ingresso do novo contratado alvinegro no time.

Foto: Divulgação/Bruno Cantini/Atlético Mineiro

Vivendo período de escassez de alternativas para o setor defensivo de seu meio-campo, o Atlético começou 2017 com dificuldades para se encaixar. Contando, em um primeiro momento, apenas com Rafael Carioca e os garotos Yago e Ralph, o treinador Roger Machado precisou de apenas dois jogos para entender que o time precisava de mudanças. Assim, mudou: colocou Danilo no meio-campo atleticano e o coletivo ganhou consistência.

Diferentemente do que era visto no América e no Sport, o lateral não tem atuado como meia aberto pela extrema esquerda, mas como uma espécie de segundo volante pela faixa canhota. Auxiliando Rafael Carioca na saída de bola, invertendo posições com Fábio Santos e encostando nos atletas do setor ofensivo para criar, Danilo vem se tornando peça importante no time. A capacidade que demonstra para ler o jogo e compreender onde sua presença é mais necessária foi a principal chave para a evolução do Galo no início de 2017.

“Com certeza [o Atlético é a grande chance de minha carreira], eu escolhi o Galo para minha vida. Estou totalmente preparado para essa nova fase, fui recebido muito bem. [O Atlético] é um clube que briga por títulos todo ano e tenho certeza de que nesse ano não vai ser diferente. Eu escolhi com o coração e acho, de verdade, que desde que pisei aqui, com esse pensamento, as coisas foram se tornando mais fáceis, espero que assim continuem”, conclui o polivalente atleta.

Com Danilo em campo, o Galo não perdeu nenhuma partida, vencendo oito encontros e empatando um. A análise, contudo, vai além disso. Em nove partidas, marcou três gols e proveu três assistências. Além disso, defensivamente, já conseguiu nove desarmes. É impressionante a rapidez com a qual o jogador se adaptou ao clube, o que vem agradando o treinador Roger Machado, que tem ressaltado o equilíbrio alcançado com a presença de Danilo.

Foto: Divulgação/Bruno Cantini/Atlético Mineiro

Com gols, assistências, contribuição ofensiva e defensiva, o jogador que chegou como alternativa para a lateral esquerda vai conquistando muito espaço no meio-campo. Com o ganho gradativo de entrosamento com seus companheiros, a tendência é que evolua ainda mais e continue sendo alternativa usual, um jogador que durante as partidas exerce múltiplas funções e ainda aparece como elemento surpresa.

O setor por onde tem atuado tem se fortalecido. Chegaram Elias e Adílson (além do meia-atacante Marlone) e há expectativa para o desembarque de Roger Bernardo no meio da temporada. No entanto, hoje Danilo é peça importante no time do Galo.

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Advogado graduado pela PUC Minas, pós-graduando em Direito Desportivo e Negócios do Esporte, 24 anos. Admito minha preferência pelo futebol bretão, mas aprecio o esférico rolado qualquer terra. Desde a infância, tenho no atacante Marques e no argentino Pablo Aimar referências; o melhor jogador que vi jogar foi o lúdico Ronaldinho Gaúcho, na temporada 2004/05. Estou também no "O Futebólogo", meu blog.

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