Luis Suárez e o sangue charrua: o herói de Uruguai

  • por Victor Mendes Xavier
  • 4 Meses atrás

Quando se pensa em Seleção Uruguaia desde 2010 é quase impossível não associá-la a Luis Suárez. Até mesmo Neymar admitiu que a ausência do Pistoleiro por suspensão na dura derrota charrua na quinta-feira frente ao Brasil em Montevidéu por 4 a 1 impactou negativamente na atuação da Celeste num geral. Por mais que a Canarinho com Tite seja outra, tática, técnica e mentalmente, em relação à seleção treinada por Dunga, é difícil não lembrar da exibição no confronto do primeiro turno, na Arena Pernambuco, quando o camisa 9 do Barcelona silenciou o estádio marcando um gol e dando uma assistência no empate por 2 a 2. Na segunda colocação, com 23 pontos, ao Uruguai o revés no Centenário pode servir alerta: em uma Eliminatória tão equilibrada, qualquer tropeço pode ser fatal. Por isso que, na terça-feira, quando encarar o Peru, Suárez vai entrar em campo mais uma vez vestindo a capa de super-herói de seu país.

Essa geração do Uruguai que conhecemos e admiramos nasceu através de uma finalização de um Suárez ainda jovem e não tanto midiático. Foi no dia 26 de junho de 2010 contra a Coreia do Sul, nas oitavas-de-finais da Copa do Mundo da África do Sul. Devido às condições climáticas do dia em Porto Elizabeth, a partida que abriu a fase de mata-mata da Copa não foi das mais memoráveis. Diante de muita chuva, os uruguaios transformaram uma partida que, até então, tinha tudo para ser tranquila em uma batalha emocionante, muito por causa da vontade dos coreanos, que lutaram até o fim. A referência técnica da seleção de Oscar Tabárez era Forlán, mas foi por causa de Suárez, com dois gols, que o passaporte às quartas-de-finais foi carimbado. A partir daí, a história do futebol uruguaio ganhou uma outra dimensão. Teve as mãos de Luisito contra a Gana, os pênaltis contra a Argentina na Copa América de 2011 (culminando no título charrua ao término do torneio) e o histórico confronto contra a Inglaterra na Copa de 2014. Tudo conquistado desde a união de um grupo que, mais que uma equipe, era uma família, que não tinha medo de jogar feio quando se devia, muito menos de demonstrar a garra peculiar.

Uruguai é um país pequeno, cuja população chega a cerca de 3,5 milhões de habitantes, dos quais 1,8 milhão vivem na capital, Montevidéu, e em sua área metropolitana. Situada a 498 km de Montevidéu, a cidade de Salto esclarece boa parte do sucesso da seleção nacional hoje em dia. Localizada à margem oriental do rio Uruguai, limitando-se com a cidade de Concordia, na Argentina, é o local do nascimento de Suárez e também de Cavani. E o que explica esse futebol tão intenso, carismático ao seu modo, que transforma todo jogo em uma arena, como se estivéssemos falando de vida ou morte, tanto coletiva, quanto individualmente? Talvez a história do Uruguai como país. Desde o período da colonização, quando os espanhóis chegaram à região em 1516, a feroz resistência dos nativos padronizou esse comprometimento do cidadão uruguaio. Não seria diferente no esporte. No Uruguai, tal qual na vizinha Argentina, o futebol é, diferentemente do Brasil e sua leveza, “descompromisso” e festa, jogado com responsabilidade e “sangue nos olhos”. É cultural. Não à toa, um dos ditados mais populares no país desvenda esse orgulho pelo espírito de luta: “al que queira celeste, que le cueste”. Dessa forma, o Uruguai venceu duas Copas do Mundo, dois Ouros Olímpicos e 15 Copas Américas.

Suárez tinha 15 anos quando decidiu ser jogador profissional de futebol. O motivo foi o amor de sua vida, Sofia Balbi, namorada de infância e hoje mãe de dois filhos de Luis. Quis o destino que os dois se conhecessem com 13 anos, quando Suárez trabalhava como catador de latinhas nas ruas de Montevidéu para poder ganhar um trocado. “Era um adolescente, mas a conheci no momento certo, porque ela me guiou para o caminho certo. Ela ajudou a me corrigir e me dar conta de quem eram meus amigos e os que não eram. Cheguei a vender o que consegui com alguns esforços para demonstrar que a desejava, queria estar com ela e dar um presente“, disse em 2011. Um ano depois, o destino mais uma vez marcou a relação de Sofia e Suárez. Por causa da crise econômica que assolava o país sob a gestão neoliberal do presidente Jorge Batlle, a adolescente foi obrigada a se mudar para Barcelona. Então, o Pistoleiro prometeu a si mesmo e a Sofia que tornaria-se profissional para poder revê-la a alguns anos. Daí em diante, Suárez traçou o seu caminho no mapa (do Nacional para a Europa), focou no objetivo (perdeu peso e ganhou disciplina moral) e foi queimando etapas (estreou na Libertadores com 18 anos). Depois de 30 partidas com a camisa do Nacional, chegou a proposta do Groningen, da Holanda. Suárez não poderia esperar mais e aceitou a transferência. Nesse momento, tudo foi precoce na carreira do nosso herói.

Com 19 anos, ganhou sua primeira oportunidade com a camisa celeste. No entanto, o capítulo número 1 dessa história foi negativo. Em um amistoso contra a Colômbia em Barranquila, Suárez entrou no segundo tempo e acabou sendo expulso. Não foi o melhor começo possível. O cartão vermelho teve consequência para o centroavante na Copa América: na lista dos 23 nomes que disputariam o torneio na Venezuela, Luisito acabou ficando de fora. Depois de cair nas semifinais para o Brasil, Oscar Tabárez começou a preparar a sua seleção para um novo ciclo, visando a Copa do Mundo de 2010. Foi aí que Suárez começou a virar a página. Convocado desde a primeira rodada, ele marcou nos dois primeiros jogos, contra Bolívia e Peru, e formou parte do trio ofensivo com Forlán e Loco Abreu. Ainda que o Uruguai encarasse com dificuldade o momento de transição entre uma e outra geração (Suárez, por exemplo, ficou nove jogos nas Eliminatórias sem balançar as redes), Tabárez sabia que ali estava um talento diferencial. Na reta final, já em 2009, Uruguai somou sete pontos importantes nas cinco últimas rodadas, e Suárez marcou três gols decisivos, contra Venezuela, Colômbia e Equador.

O mais simbólico foi o anotado em Quito. Era a penúltima rodada e, àquela altura da competição, uma derrota sacramentaria a eliminação matemática da Celeste. O Equador abriu o placar com Valencia, mas, dois minutos depois, uma jogada de Forlán terminou com uma antecipação seguido de um toque fatal digno de um classe mundial que empataria a partida. No final, depois de pênalti sofrido por Cavani, Forlán decidiu a vitória que colocaria Uruguai no caminho da repescagem. Sem os gols de Luisito e Diego, não haveria repescagem contra a Costa Rica e, portanto, o Mundial na África. Assim, o script seria outro. Muito diferente.

Para a competição em território sul-africano, Suárez chegava com o status de promessa, devido à temporada mais do que positiva com a camisa do Ajax, onde já era ídolo. Em 2009/2010, foram 50 gols em 48 partidas. Artilheiro (35 gols), líder de assistências (15) e Bola de Ouro do Campeonato Holandês. Teria sido o Chuteira de Ouro da Europa, mas os 34 gols de Messi no Campeonato Espanhol, devido ao critério da UEFA, “valeram” mais, já que o sistema de pontos da premiação dá mais “valor” aos gols feitos nas quatro principais ligas de acordo com o coeficiente da Europa. Portanto, por jogar na Holanda, Suárez ficou na quinta colocação, com 52,5 pontos, atrás de Higuaín (quarto com 27 gols, mas 54 pontos), Drogba (terceiro com 29 gols, mas 58 pontos), Di Natale (segundo com 30 gols, mas 60 pontos) e Messi (vencedor com 34 gols, mas 68 pontos).

Foto: Site Oficial do Ajax | Luis Suárez na temporada 2009/2010: 50 gols em 48 partidas; artilheiro (35 gols), líder de assistências (15) e Bola de Ouro do Campeonato Holandês

Ainda assim, havia uma sensação de que, com a camisa do Uruguai, o rendimento de Suárez poderia ser maior. Até a estreia contra a França, foram 25 partidas e somente nove gols. Tabárez sabia que uma boa atuação no maior torneio de futebol mudaria o patamar e por isso criou um sistema intenso, moderno, mas igualmente favorável ao seu sistema ofensivo. A criatividade foi substituída pela voluntariedade e os gols. Forlán assumiu o papel de falso meio-campista, caindo muito pelo lado esquerdo, mas dono de toda fantasia celeste. Cavani trabalhava no setor direito, enquanto que Suárez comandava a referência do ataque. A mudança proposital de posicionamento entre Suárez e Cavani foi um golpe de mestre do comandante. Suárez, no Ajax, costumava jogar como ponta direita e Cavani era o centroavante do Palermo. No entanto, ainda que partia da zona do 9, Luisito tinha toda liberdade para se mover e deslocar-se às pontas. Desse jeito, o Uruguai chegou à terceira rodada já classificado, mas o jogo diante do México serviria para cravar o líder do Grupo A e colocar o segundo colocado em um caminho muito mais árduo no mata-mata (Argentina; Alemanha ou Inglaterra; Espanha). E foi de Suárez o gol que colocou o Uruguai no lado B da chave final, muito mais acessível.

De qualquer forma, o tento fora somente um lampejo. A explosão aconteceu justamente no minuto 35 das oitavas, contra a Coreia. Conforme supracitado no texto, o confronto no Estádio Nelson Mandela, serviu para coroar Luisito. Ele havia marcado o primeiro gol, mas os sul-coreanos empataram na segunda etapa com Lee Chung-Young e tudo parecia destinado a ser decidido na prorrogação e/ou pênaltis. Porém, Forlán cobou um escanteio que a zaga da Coreia cortou; Maxi Pereira evitou o contra-ataque e a bola caiu nos pés de Suárez. Marcado por dois adversários, o atacante deixou os dois pra trás com a mesma facilidade com a qual driblava os defensores do NAC Breda ou do Willem II, e com perfeição colocou no canto esquerdo do goleiro do goleiro Sung Ryong Jung. A narração do radialista uruguaio Rodrigo Romano explicava o significado daquele tento: “fenomenal o nosso camisa 9“, disse. Um ídolo começava a ser desenhado. “Obrigado Luis; muito obrigado, Luis“, gritava eufórico outro narrador. Quarenta anos depois, Uruguai estaria entre os oito melhores times de uma Copa do Mundo.

Foto: Reprodução | Nas oitavas-de-finais da Copa do Mundo de 2010, Suárez, com dois gols, decidiu o confronto contra a Coreia do Sul. A primeira noite grande como herói.

O próximo adversário seria a Gana, tratada pela crítica como a revelação da Copa. Este que vos escreve não precisa nem recordar o que aconteceu naquela histórica sexta-feira de 2 de julho. Horas antes, a asa negra do Uruguai nos anos anteriores havia se despedido do Mundial: o Brasil sofreu uma virada relâmpago e perdeu para a Holanda por 2 a 1. O Uruguai entrou no Soccer City, em Joanesburgo, mais motivado do que o normal. Muntari abriu o placar pra Gana, Forlán empatou de falta e o jogo foi pra prorrogação. Nos 30 minutos extras, os africanos atacaram incessantemente os uruguaios. Até que, no último lance, aconteceu um dos episódios mais icônicos da história do futebol. Depois de uma falta cobrada à área celeste, Appiah dominou, chutou fraco, mas o suficiente para marcar um gol. Só que Suárez apareceu e evitou, tirando incrivelmente com as pernas. A pelota voltou para Adiyiah, que cabeceou crente que, dessa vez, o destino seria as redes. Mas Suárez, num lapso de desespero, pânico e amor à sua pátria, utilizou o último recurso que poderia usar: as mãos.

Pênalti para Gana e expulsão. “Coloquei as mãos porque não tinha outra coisa para fazer. Eu não pensei em nada. Não tem algo mais importante para fazer do que jogar pela camisa do Uruguai“, reconheceu ao El País meses depois. “Confesso que ficaria mais encantado se me recordassem mais pelos gols contra o México e contra a Coreia, mas foi uma mão importante para o país e não me arrependo“, completou sinceramente. Infalíveis, os Deuses do Futebol não permitiram Suárez terminar como vilão: Asamoah Gyan, que havia marcado dois gols de pênalti na África, desperdiçou a bola que colocaria uma seleção africana pela primeira na história nas semifinais de uma Copa, e Suárez, prestes a descer para o vestiário, comemorou como se fosse um gol. Não havia mais jeito: Luisito estava firmado como um herói nacional. As aventuras da Celeste terminaram na semifinal para a Holanda, na derrota por 3 a 2. Sem o camisa 9, Forlán foi obrigado a jogar mais adiantado, saindo do setor onde estava brilhando, e o Uruguai perdeu meio-campo.

Suárez havia se sacrificado pela sua nação, ocupando negativamente as capas de jornais mundo afora para que os outros desfrutassem das notícias, crônicas e reportagens mais bonitas. Mas os Deuses, quando querem, são justos. A temporada 2009/2010 seria a última de Forlán como centroavante de elite. Melhor jogador da Copa do Mundo, ele também havia sido estrela do Atlético de Madrid campeão da Liga Europa. Após o mundial, a mudança de protagonismo na seleção foi natural. Mais além de posição e nível de jogo (Forlán completaria 30 anos; Luisito, 22), Suárez começava a alcançar o ápice da carreira. E, pela autossuficiência e inspiração para encarnar contextos de heroicidade, não tinha como não ser do natural de Salto o papel de novo protagonista do Uruguai, evidenciado na Copa América de 2011 na Argentina.

Competindo contra um Messi em fase estrelar depois de decidir uma Champions League, um Neymar que havia conquistado a América pelo Santos e um Alexis Sánchez sendo disputado pelos principais clubes europeus. foi a estrela que mais brilhou. Foi decisivo no empate contra o Peru na estreia, infernizou o sistema defensivo da Argentina nas quartas-de-finais, despachou com dois gols o mesmo Peru nas semifinais e consagrou-se na final contra o Paraguai no Monumental de Nuñez, na vitória por 3 a 0. MVP e Bola de Prata do torneio e, acima de tudo, a transferência de poderes: estava mais do que claro que o novo craque do Uruguai era Luis Suárez.

De 2011 até os dias de hoje, o nível de jogo e o escalão de Suárez na elite do futebol mundial foram só crescendo. Duas Chuteiras de Ouro disputando contra Messi e Cristiano Ronaldo, transferência ao Barcelona, artilharia do Campeonato Inglês e do Campeonato Espanhol, título da Liga dos Campeões, títulos da Liga Espanhola; maior artilheiro da história do Uruguai com 47 gols em 90 jogos, mais gols decisivos nas Eliminatórias… mas ainda havia um capítulo, semelhantemente expressivo ao de 2010, a ser escrito em Copas. Uruguai chegava ao Mundial do Brasil com muitas dúvidas. A geração que atingiu o seu apogeu em 2011 dava sinais de decadência e, para piorar a situação, Suárez teria que passar por uma cirurgia no joelho dias antes da estreia na Copa. Por causa disso, o 9 não foi relacionado para o debute contra a Costa Rica, em derrota charrua por 3 a 1. Suárez sabia que não tinha condições de jogo, mas, como sempre, quando está em uma competição pelo Uruguai tudo que é feito é pensando na felicidade do seu povo. Por causa disso, foi forçadamente a campo para a partida decisiva contra a Inglaterra na segunda rodada. Na Arena Itaquera, o perdedor do confronto daria adeus precoce ao Mundial.

Suárez sabia que não tinha condições de jogo, mas, como sempre, quando está em uma competição pelo Uruguai tudo que é feito é pensando na felicidade do seu povo. Por causa disso, foi forçadamente a campo para a partida decisiva contra a Inglaterra na segunda rodada. Na Arena Itaquera, o perdedor do confronto daria adeus precoce ao Mundial. Tabárez mexeu na prancheta e mudou sua equipe para um 4-3-1-2 diferente do 4-4-2 da primeira rodada. Lodeiro ocuparia a vaga de Arévalo Rios, com Cebolla Rodríguez e Álvaro González de interiores. Na frente, sem a bola Cavani ajudava na recomposição e Suárez teria maior predominância para ficar à espera dos contra-ataques. Cinco minutos antes do fim do primeiro tempo, Cavani e Suárez inventaram uma maravilha que terminou com gol do craque barcelonista. No segundo tempo, a Inglaterra, por necessidade, passou a pressionar mais e Rooney deu igualdade ao marcador. Nesse instante, a Celeste estava morta e sem recursos de jogo, fadada ao fracasso. A triste queda na fase de grupos estava próxima. Mas a épica é do Uruguai. E Uruguai é de Luis Suárez. Uma bola sem vida jogada ao ataque acabou num erro técnico de Gerrard, deixando Suárez cara-a-cara com Hart. Com todo o povo uruguaio nas costas, o Pistoleiro cravou uma bomba ante o inglês: 2 a 1 pros azuis da América do Sul, que ganhariam uma sobrevida para disputar contra a poderosa Itália.

A comemoração emocionada de Suárez definiu o conceito daquele gol. Lugano levantou o herói entre lágrimas, numa imagem que elucidava aquela geração de 23 guerreiros. Suárez, mostrando ser um ser-humano acima de tudo, dedicou o gol ao seu fisioterapeuta, Walter Ferreira, que, mesmo com câncer, fez de tudo para que Suárez pudesse estar no Brasil. E o centroavante beijou o amigo ao término da partida. Na terceira rodada, o Uruguai derrotou a Itália por 1 a 0 com gol de Godín, mas uma mordida em Chiellini tirou Luisito do mata-mata da Copa, onde os charruas viriam a cair logo nas oitavas para a Colômbia de James Rodriguez. Mas nada mais importava. Do menino pobre, catador de latinhas, que tornou-se profissional graças a um amor de infância, ao super-herói de todo um país. Esse é Luis Suárez, o marido de Sofia Balbi e o pai de Benjamim Suárez e Delfina Suárez.

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Jornalista, carioca e apaixonado pela Liga Espanhola desde a época em que Rivaldo, Zidane, Figo e Raúl foram seus professores. Colaborou para o programa Esporte@Globo da Rádio Globo São Paulo falando sobre o futebol do país das touradas. Repórter da Super Rádio Tupi.