A reconstrução da Chapecoense

  • por Yuri Casari
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A madrugada do dia 28 para o dia 29 de novembro de 2016 será eterna na vida de todos aqueles que vivem o futebol. O avião que transportava 77 pessoas, dentre eles dezenas de atletas e profissionais da Associação Chapecoense de Futebol, sofreu uma queda na Colômbia por negligência do piloto da aeronave. 71 pessoas tiveram suas vidas interrompidas no acidente. A dor imensa pelo ocorrido não pode ser apagada pelo tempo. Mas a vida dos que ficaram teria que continuar. A instituição Chapecoense teria que seguir. Aliás, a continuidade do projeto, que vinha se mostrando muito bem sucedido até então, é, sem dúvidas, uma forma de honrar aqueles que se foram. Passado o luto, era hora de levantar a cabeça e seguir em frente. E assim foi e está sendo feito por aqueles que permaneceram, e pelos novos nomes do elenco e diretoria do Verdão do Oeste.

Buscamos contar o passo a passo daquilo que podemos chamar de reconstrução da Chapecoense.

NOVA DIRETORIA E A ESCOLHA DE UM NOVO COMANDANTE

No voo LaMia 2933, grande parte da diretoria do clube estava presente. Entre eles, provavelmente o nome mais importante de um dirigente na história de Chapecó: Sandro Pallaoro, presidente da Chapecoense desde 2010, quando o clube ainda estava na série C do Campeonato Brasileiro. Imediatamente, de maneira interina, Ivan Tozzo, então vice-presidente do clube, assumiu a liderança diretiva do clube. Apenas dois dias depois fazia sua primeira “aquisição” para o processo de reconstrução do clube. Nivaldo, o goleiro e maior ídolo do clube, com 298 partidas, e que estava prestes a se aposentar, recebeu através de um abraço o convite para seguir no clube, como conta o site oficial da Chape: 

“Ele me deu um abraço, começamos a chorar, e ele me perguntou se eu estava disposto a ajudar o clube. E eu disse que sim, mas questionei se ele precisaria de mim dentro ou fora do campo. E ele disse que seria fora e no mesmo momento afirmou que eu era o mais novo contratado”, disse Nivaldo, que assumiu um cargo na Gerência de Futebol.

Ivan Tozzo, e o então presidente do Conselho Deliberativo, Plínio David de Nês Filho, tomaram à frente nas ações iniciais. Apenas dez dias depois da tragédia, a dupla anunciou a reformulação do departamento de futebol. Rui Costa, conhecido pelos três anos à frente do futebol do Grêmio, assumiu a direção executiva. João Carlos Maringá, ex-meio campista da Chape, foi escolhido como diretor de futebol. No dia do acidente, aliás, Maringá vivia sua própria tragédia pessoal, velando sua esposa, Graziela, quando recebeu a notícia que atingiu a todos.

Mancini: sonho realizado em período de pesadelo para a Chapecoense

E para o comando técnico, Vagner Mancini, “antigo sonho” da equipe catarinense, se tornou o novo comandante técnico da Chape. O treinador, que surgiu para o futebol brasileiro ao levar o modesto Paulista de Jundiaí ao título da Copa do Brasil de 2005, possui um perfil muito similar ao do antecessor Caio Júnior. Jovem, com fama de praticar um futebol ofensivo e que conhece e sabe se adaptar a equipes menos poderosas, como ambos mostraram em clubes com elencos menos badalados.

Foto: Sirli Freitas – Assessoria Chapecoense

Mais alguns dias depois, Ivan Tozzo retornou à vice-presidência administrativa e Plínio David foi eleito por aclamação como presidente do clube em 16 de dezembro. Maninho, como é conhecido, tem sua vida ligada à Chapecoense desde a fundação do clube, sendo inclusive vice-presidente de futebol no ano de 78, quando a Chape teve sua primeira participação no Campeonato Brasileiro.

MANUTENÇÃO DO PERFIL DOS GUERREIROS DE CONDÁ

Agora, com a direção do clube restabelecida, era hora de ir atrás de um grupo completo de jogadores. O momento de comoção fez com que muitos clubes anunciassem que iriam ceder atletas ao clube. E não demorou para que notícias de medalhões se oferecendo para jogar pelo Verdão fossem ventiladas. Mas a diretoria seguiu com a mentalidade que já existia pelos lados da Arena Condá:

“[…] Não poderíamos escolher qualquer um. Era preciso ter detalhamento de scout e de perfil para contratar cada um deles. Não abrimos mão de um critério muito profissional na escolha desses atletas. Isso tomou muito tempo, mas era fundamental. Trabalhamos com um clube de características próprias e que ficaram ainda mais particulares. É um clube da comunidade. Era preciso que esses atletas que contratamos não viessem apenas pensando em usar o clube como uma passagem”, disse Rui Costa em entrevista a Mauro Cezar Pereira, da ESPN.

Rossi encabeça a lista

A primeira contratação para a nova Chapecoense foi o atacante Rossi, de 23 anos, revelado pela Ponte Preta e que estava no Goiás.

“Fizemos 24 contratações. A do Rossi foi a primeira e muito interessante. Ele já era disputado por várias equipes e quando cheguei já estava na lista de todos nós e foi muito interessante porque em nenhum momento me perguntou se tinha time ou não. Ele simplesmente assinou o contrato sem perguntar com quem jogaria”, contou Rui Costa na mesma entrevista citada anteriormente.

Foto: Sirli Freitas – Assessoria Chapecoense

Conhecido pela forte personalidade, Rossi percebeu logo na apresentação do elenco o desafio que teria pela frente. Somado à emoção da presença do zagueiro Neto, um dos sobreviventes do acidente:

“Foi indescritível. Não é toda vez que vemos um milagre na nossa frente. A presença do Neto perto de nós vai ser essencial para a temporada. A torcida está nos abraçando como se fôssemos filhos”, contou Rossi ao DPF.

Titular da equipe de Mancini, marcando seu primeiro gol contra o Figueirense nos acréscimos, deixou claro a importância que está tendo viver este momento tão delicado do clube:

“Todo dia que saio para treinar e coloco o uniforme, me sinto honrado por eles. eu e meus companheiros tentaremos fazer história como eles fizeram”, disse em referência aos jogadores que se foram.

“É incrível (fazer parte da reconstrução da Chape). Até porque muitos jogadores se dispuseram em tentar ajudar e jogar pela Chape. visto a camisa como se fosse minha segunda pele”, complementou o jogador, que defende a agremiação com unhas e dentes até mesmo no Twitter. E a expectativa para estrear na Libertadores, também inédita para Rossi, é grande. “Sempre foi meu sonho jogar uma Libertadores. Acho que tem a minha cara. Estou ansioso e louco pra jogar, principalmente contra os argentinos e uruguaios”.

Os novos guerreiros de Condá

A busca por atletas com talento, potencial de evolução e dispostos a contribuir continuou. A começar pelo gol, posição que perdeu o jogador de maior destaque da Chapecoense em 2016. Por isso, o clube foi atrás de dois goleiros de muita qualidade: Elias, que brilhou pelo Juventude no ano passado, de apenas 21 anos e um grande futuro pela frente. E Artur Moraes, de 36 anos, experiente, com boa passagem pelo futebol europeu (ex-Roma e Benfica).

Foto: Sirli Freitas – Assessoria Chapecoense

Nos outros setores, podemos destacar alguns nomes. Para a defesa e laterais, Rui Costa trouxe o zagueiro Douglas Grolli, formado nas categorias de base da própria Chape e que estava na Ponte Preta. Os laterais Diego Renan, do Vitória e Apodi, que já havia jogado com destaque pelo time catarinense. Já o setor de meio de campo talvez seja o mais difícil de ser formado. Tanto que os principais nomes ou estavam em baixa em algum clube de série A. Ou são apostas após temporada de destaque por alguma equipe mais modesta. Casos de Luiz Antônio (ex-Flamengo e Sport) e Nádson (ex-Paraná). Andrei Girotto e Osman (ambos ex-América-MG) e Dodô (ex-Figueirense) completam os reforços do meio. No ataque, aposta em dois jogadores rodados. Wellington Paulista, que sempre deixa seus gols por onde passa, e Túlio de Melo, que também já foi jogador da Chapecoense e no jovem Niltinho, ex-Criciúma.

OLHO NO FUTURO

Além das duas partidas decisivas da Sul-Americana, a Chapecoense teria ainda mais um duelo pelo Brasileirão, contra o Atlético-MG. Em meio à insensível decisão da CBF de realizar o confronto, surgia a possibilidade da equipe sub-20 da Chape atuar. Por decisão conjunta de ambos os clubes envolvidos, e depois acatada pela CBF, o jogo foi cancelado. Não havia clima para futebol naquele momento. Mas pouco mais de um mês depois, aqueles garotos que seriam a opção para aquele jogo, mostrariam que podiam muito bem encarar qualquer desafio que fosse.

Foto: Sirli Freitas – Assessoria Chapecoense

A primeira competição pós-acidente da Chapecoense foi nessa categoria. Na Copa SP de Juniores, maior torneio de base do país, o sub-20 fez a melhor campanha da história do clube na competição. Chegaram às quartas de final, parando apenas no Paulista de Jundiaí, que chegou à final e depois foi eliminado por um caso de adulteração de idade de um atleta. Pelo caminho da Chape ficaram pra trás Nova Iguaçú (que se classificou como líder na chave da Chape), Desportivo Brasil, Sampaio Corrêa, São Paulo, Capivariano e Ituano. Amostra de que o trabalho de base também pode gerar bons frutos para o time principal. Afinal, em um grupo que saiu do zero, muitos atletas serão usados na equipe de cima.

Leia mais: Guia da Copinha 2017

Foto: Sirli Freitas – Assessoria Chapecoense

Um dos destaques da Chape na Copinha, e que alimenta o sonho de subir de categoria é o meia Guilherme Pessoa. Foi trazido ao clube por Cléber Santana, capitão do time no ano de 2016.

“Através de amigos, meu pai conheceu o Cléber em Pernambuco. Eles ficaram amigos e em uma conversa surgiu a ideia de me trazer para a Chape. O Cléber era um cara incrível. Ele sabia que eu morava longe da minha família e se preocupava em saber se eu estava bem e se faltava alguma coisa. Me chamava de Ferinha. A última conversa que tive com ele foi na sexta- feira antes da tragédia. Falou que depois que terminasse o campeonato iria me pegar para jantar. Infelizmente não deu tempo.  Sou muito grato por tudo”, conta o jovem que usou a mesma camisa de Cléber, a 10, durante a campanha na Copa SP.

“Ele sempre me dava conselhos. Sempre me incentivava. Me dizia para ser o primeiro a chegar no treino e o último a sair, que sempre fosse atento  e disciplinado”, completa.

No elenco atual, Mancini integrou 11 atletas da base do clube aos 24 contratados e aos atletas que renovaram vínculo. Para fazer parte deste seleto grupo, Guilherme Pessoa, inspirado nos passos de Cléber Santana, sabe bem o que deve ser feito.

“No momento procuro me dedicar ao máximo para ser um ótimo profissional. Eu sei que o sucesso vem com o trabalho. Vou me preparar para os campeonatos que estão pela frente dando meu melhor  e  cada vez mais  ter sucesso no meu trabalho. Com a graça de Deus chegarei lá”, afirma.

O GRANDE DESAFIO DA LIBERTADORES E A MANUTENÇÃO NA ELITE

Em meio a tantas dificuldades causadas pelo acidente, há também o grave problema do calendário. Isso, claro, não afeta apenas a Chape. O Verdão do Oeste terá pelo menos 70 partidas garantidas neste ano. Entre Catarinense, Primeira Liga, Copa do Brasil, Campeonato Brasileiro, Recopa Sul-Americana e Copa Libertadores. Com tantos jogos, não será fácil manter a mesma competitividade em todas as competições. Mas já temos a certeza do que ser prioridade: ir o mais longe possível na Libertadores. Afinal, é torneio em que o clube faz sua estreia. Além disso, a dura missão de se manter na série A do Brasileirão, que disputa desde 2014. Na competição continental, a Chapecoense terá pela frente no grupo 7 o tricampeão Nacional de Montevidéu, o também campeão da Sul-Americana, Lanús e o venezuelano Zulia, outro estreante.

A estreia acontece já na próxima terça-feira, 7 de março, diante do Zulia. No Estádio José Encarnación Pachencho Romero, em Maracaibo. Não será apenas Chapecó que estará de olho neste jogo. A comoção pelo acidente fez com que a torcida pela Chapecoense aumentasse de maneira espontânea. É algo de coração. E após três meses do ocorrido, podemos sentir a dor cicatrizar aos poucos. Ainda que jamais seja esquecida.

Afinal, diz o velho ditado: o show tem que continuar.

Foto: Sirli Freitas – Assessoria Chapecoense

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