Da música ao futebol: como o jovem Michael Jackson explica o fenômeno Kylian Mbappé

  • por Victor Mendes Xavier
  • 7 Meses atrás

 

A temporada 2016/2017 tem sido marcada pela afirmação de antigas promessas e pelo descobrimento de novas. No primeiro grupo, estamos vendo Paulo Dybala expandindo seu talento. De, até então, muito restrito ao futebol italiano para a Liga dos Campeões da Uefa.

 

A eliminatória do atacante da Juventus contra o Barcelona representou a mudança de status para o argentino.

Falando em Barcelona, Neymar já é realidade há tempos. Mas, mais especificamente neste ano de 2017, o brasileiro ganhou capas de jornais depois da maravilha que aprontou contra o Paris Saint Germain. O craque colocou a bola debaixo dos braços e foi o responsável por uma “remontada” que parecia impossível.

 

A partir dali, muitos debateram: estaria chegando, enfim, a hora de Neymar quebrar a hegemonia de Cristiano Ronaldo e Lionel Messi na ordem mundial da Bola de Ouro? Ainda não sabemos, mas nunca o questionamento foi tão forte.

Novos nomes na parada de sucessos do futebol

O principal representante do segundo grupo vem da França. Kylian Mbappé e seu surgimento meteórico têm abalado as estruturas do Campeonato Francês e também da Liga dos Campeões. O novo fenômeno do esporte tem somente 18 anos e é o melhor jogador do Mônaco na temporada. Mônaco que caminha para quebrar a sequência de títulos do PSG na Ligue 1 e alcançou pela segunda vez no século a semifinal da Champions.

 

Tudo isso na primeira temporada temporada como profissional de Kylian.

 

Mbappé nasceu no dia 20 de dezembro de 1998 em Paris. Um ano antes, também em território francês, o mega astro da música Michael Jackson dava fim à sua midiática turnê mundial HIStory. Devido ao falecimento surpresa do cantor em 2009, antes de dar início a um novo período de concertos (This Is It), acabou sendo a última da carreira do norte-americano.

Mas por que esse maluco está falando sobre Michael Jackson em um texto sobre Mbappé?”

Pergunta, com razão, você que está lendo esse artigo.

Antes de dar continuidade, é preciso deixar claro que trata-se de um texto opinativo. De nada representa fielmente a opinião de todos os outros redatores e dos responsáveis pelo site no geral.

Ascensão típica dos prodígios

Tal qual Mbappé, Michael teve uma ascensão precoce que chamou bastante a atenção das produtoras de música dos Estados Unidos.

 

Com apenas treze anos, através dos Jackson 5, havia colocado quatro canções no topo das paradas (!): “I Want You Back”, “ABC”, “I’ll Be There”, “The Love You Save”. Aos 18, atual idade de Mbappé, o salto definitivo: lançou Off The Wall, seu primeiro disco na fase adulta.

 

Composto por baladas de funk, disco-pop, soul, jazz e pop, causou furor devido a mistura entre rhythm and blues e discoteca. E é aí que mora a principal relação entre aquele jovem Michael dos anos 80 e o atual Mbappé: a leveza para atrair seu público. As músicas de Jackson em nada se comparavam àquelas suas dos anos seguintes, com um tom mais crítico, forte. Do mesmo jeito que o ídolo da música, Mbappé representa a modernidade. Quando arranca com a bola ou finaliza uma jogada, o jovem passa uma mensagem de “frescor” que chama a atenção. Seus movimentos têm um swing especial e uma fluidez natural de um dançarino: é pura música dos anos 80. Puro Michael Jackson em sua fase jovem.

 

Seguindo os passos de seus ídolos

É curioso, também, como espontaneamente tanto Mbappé, quanto Michael Jackson foram influenciados por figuras gigantes de suas respectivas profissões. Michael Jackson sempre olhou para James Brown com os olhos brilhando. Em vida, Brown vendeu mais de 100 milhões de álbuns e é reconhecido como um dos maiores artistas de todos os tempos.

Desde que eu era uma criança, não mais do que com seis anos de idade, minha mãe me acordava, não importa que horas eram, se eu estava dormindo, não importa o que eu estava fazendo, para assistir a televisão para ver o mestre em trabalho. E quando eu o vi passar, fiquei hipnotizado eu nunca tinha visto um artista se apresentar como James Brown, e com certeza eu sabia que isso era exatamente o que eu queria fazer para o resto da minha vida por causa de James Brown“, disse Michael uma vez.

 

Mbappé, por sua vez, tem em Cristiano Ronaldo sua máxima referência. O quarto do garoto é repleto de imagens de Ronaldo: maior artilheiro da história do Real Madrid, maior artilheiro da história da Liga dos Campeões, quatro vezes Chuteira de Ouro da Europa e quatro vezes eleito o melhor jogador do mundo. O jovem, que já fez testes no Real Madrid, não esconde a admiração pelo português.

Mbappé e Cristiano Ronaldo. Fã e ídolo lado a lado. No futuro, poderão estar frente a frente, disputando hegemonia nos gramados.

Mbappé e Cristiano Ronaldo. Fã e ídolo lado a lado. No futuro, poderão estar frente a frente, disputando hegemonia nos gramados.

Todo “Michael” tem seu “Prince”

Mbappé tem um “rival” assim como o jovem Michael teve. O atacante monegasco tem em seu compatriota, Ousmane Dembelé, do Borussia Dortmund, como candidato a melhor sub-19 do mundo. Uma diferença significativa que Mbappé tem em respeito a Dembelé é a forma com a qual dá sentido ao seu jogo.

 

A imprevisibilidade de Ousmane é louvável, mas a agressividade de Kylian, por ora, é mais letal. Que o diga o Manchester City e o próprio Borussia Dortmund, que sofreram nas mãos do garoto neste mata-mata de Champions. Além disso, hoje dá para dizer com mais firmeza que a leitura e interpretação de jogo de Mbappé é mais clara que a de Dembelé. A maneira como trucidou o Dortmund ratificou todo o arsenal de um jogador que ainda tem (muito) o que evoluir. Precisão na finalização, eficiência, drible. Tudo isso somado aos importantes apoios à saída de bola, dinâmica inteligente sem a bola e um senso de coletividade anormal para alguém de 18 anos. Trata-se de um ser humano muito acima da média.

 

Jackson tinha em Prince uma figura para “superar” e ser o número 1 em sua profissão. Até hoje, Purple Rain é considerado um dos álbuns mais influentes da história da música, tendo vendido mais de 30 milhões de cópias. No entanto, Prince não conseguiu dar seguimento ao auge, passando por maus bocados devido à baixa popularidade nos anos 90. O contrário de Michael, que, na última década do século XX, firmou-se de vez como o Rei do Pop. Com duas turnês mundiais milionárias e devastadoras.

No primeiro confronto em Mbappé e Dembélé - dos muitos encontros que poderão ter em suas promissoras carreiras - o atacante do Mônaco levou a melhor. Atualmente, Ousmane precisa correr atrás de seu compatriota se não quiser ser superado de vez.

No primeiro confronto em Mbappé e Dembélé – dos muitos encontros que poderão ter em suas promissoras carreiras – o atacante do Mônaco levou a melhor. Atualmente, Ousmane precisa correr atrás de seu compatriota se não quiser ser superado de vez.

Nas primeiras temporadas de Mbappé e Dembelé na elite, o jogador do Mônaco largou à frente do rival. É um dos dez melhores jogadores do mundo em 2017 e atingiu um nível (bem) mais alto. Ainda que não devemos ignorar a bagunça tática que tem sido o Borussia Dortmund de Tuchel em 2016/2017.

Jovem colecionador de sucessos precoces

Enquanto isso, Mbappé vai estabelecendo novos recordes. É o jogador mais novo a marcar mais de cinco gols numa única edição de Liga dos Campeões da Uefa. E também a marcar em quatro partidas consecutivas no mata-mata do torneio. Até a publicação desta matéria, já são 22 tentos e 11 assistências em 36 jogos. Tudo isso aos 18 anos e em sua estreia como profissional.

Off The Wall garantiu a Michael três músicas no topo das paradas musicais norte-americana (“Don’t Stop’til You Get Enough”, “Rock With You” e “Off The Wall”). Além de ter sido reconhecido pela revista Rolling Stone como o 68º melhor álbum de todos os tempos. E nomeado a dois Grammy Awards para Best Disco Recoring e Best Male R&B Vocal Performance, vencendo a segunda. Comercialmente, foi certificado como platina óctupla pela Recording Industry Association of America (RIAA), vendendo 8 milhões de cópias nos Estados Unidos. Mundialmente, vendeu cerca de 20 milhões de cópias, convertendo-se num dos álbuns mais vendidos de todos os tempos.

 

O próximo passo de Jackson foi o tal de Thriller, que o alçou a um patamar onde só as lendas habitam. E de Mbappé? Título de Liga dos Campeões? Por enquanto, Mbappé é somente o Michael do início dos anos 80: um jovem fenômeno que quer dominar o mundo, criar uma legião de fanáticos e influenciar novas gerações.

Se será o mito que foi Jackson nos anos 90, aí teremos que seguir acompanhando o desenrolar dessa história.

Comentários

Jornalista, carioca e apaixonado pela Liga Espanhola desde a época em que Rivaldo, Zidane, Figo e Raúl foram seus professores. Colaborou para o programa Esporte@Globo da Rádio Globo São Paulo falando sobre o futebol do país das touradas. Repórter da Super Rádio Tupi.