Enquanto Corinthians achar que “pênaltis é loteria”, continuará sendo derrotado

É um dos maiores ditados do futebol, principalmente para os derrotados: “disputa de pênaltis é loteria”. Pura balela!!! Talvez a disputa por pênaltis seja o momento no qual a técnica dos jogadores e a qualidade dos goleiros sejam postas frente a frente de forma mais contundente durante toda uma partida de futebol. Não há bola que quica e tira o atacante da jogada, não há zagueiro que empurra contra o próprio gol, não há erro de juiz. Existem só 2 homens decidindo o futuro de um time, colocando em prática o que treinaram durante toda uma vida.

Ou melhor, deveria ser assim, mas parece que para o Corinthians a disputa por pênaltis é apenas uma loteria. “Vamos apostar” ou “faz o que der” deve ser o que técnico após técnico fala na hora H nos últimos 4 anos de cobranças mal sucedidas e defesas que nunca vêm.

Tudo começou naquele fatídico Grêmio x Corinthians onde Alexandre Pato fez uma das cobranças mais ridículas da história de futebol e depois deu entrevista dizendo que treinou a cobrança daquele jeito. O dia era 23 de outubro de 2013 e o goleiro do time paulista era Walter, que pegou a primeira cobrança, foi na bola na segunda, que bateu na trave, e chegou na terceira mas espalmou para dentro do gol. Dos 5 pênaltis batidos, o Corinthians perdeu 3 (contra 2 dos gremistas) e foi eliminado daquela Copa do Brasil.

Veio o Campeonato Paulista de 2015 e a situação se repetiu. Mais uma vez o time saiu na frente nas cobranças, após Robinho chutar no espaço o primeiro pênalti palmeirense, mas na hora de converter o quinto pênalti da série e sacramentar a vitória, Elias foi parado por Fernando Prass, que também pararia Petros e daria a vitória para o rival alviverde por 6 x 5.

Um ano depois, a sina continuou. Na mesma fase, a semifinal, contra o Audax, o time do interior deu um pequeno passeio na disputa: 4 x 1, com André marcando e Fagner e Rodriguinho perdendo seus pênaltis. As 4 bolas batidas pelo Audax entraram.

Aliás, em 2016, a marca do Corinthians foram os pênaltis desperdiçados. Só no primeiro semestre, além da eliminação do Campeonato Paulista, a eliminação da Libertadores também teve pênalti desperdiçado no momento decisivo, já que contra o Nacional do Uruguai, na partida que eliminou a equipe, André perdeu uma cobrança (Marquinhos Gabriel ainda marcaria, também de pênalti) no final do jogo. Os números do primeiro semestre foram simplesmente bizarros: 4 gols e 7 pênaltis perdidos em 11 cobranças, com Rodriguinho, Luciano, Romero, Lucca, Giovanni Augusto e André atuando como “batedores oficiais” e todos perdendo pênaltis.

Pênalti perdido tirou Corinthians da Libertadores 2016

No segundo semestre, as coisas melhoraram um pouco: 3 pênaltis convertidos em 4, no Brasileirão, sendo que o pênalti perdido por Marquinhos Gabriel e defendido por Sidão, do Botafogo, fez diferença na classificação para a Libertadores. Na defesa, foram 3 pênaltis convertidos pelos adversários em 4 tentativas. Na única defesa, feita por Cássio contra o Fluminense, Cícero fez o gol no rebote.

No total da temporada 2016, os números são gritantes e horríveis: 7 gols feitos e 8 perdidos em cobranças de pênaltis, um aproveitamento de 46,7%, contra uma média de aproveitamento de 76,7% em todo o Campeonato Brasileiro, por exemplo. No ano, 7 dos 8 pênaltis batidos contra o Corinthians entraram e as perdas de pênalti tiveram influência decisiva nas eliminações do Campeonato Paulista e da Libertadores, além da luta pela vaga na Libertadores desse ano via Brasileirão.

Em 2017, porém, a sina de pênaltis continua. O Corinthians até tem um batedor oficial, Jô, que marcou 3 gols em 4 cobranças até agora, todas iguais, no mesmo lado. Não é isso que se espera de um batedor oficial, claro. Porém, em 3 disputas de pênaltis até agora, foram 2 derrotas e uma classificação que beirou o milagre, contra o Brusque. Vieram a perda do título da Flórida Cup para o rival São Paulo e a eliminação da Copa do Brasil, contra o Internacional, que já deveria ter vindo contra o Brusque, se os jogadores catarinenses não errassem os dois últimos pênaltis da série.

Inter comemora vitória nos pênaltis.

Em números, o time converteu 11 de 17 cobranças a favor (64,7%) em disputas de pênalti na temporada, tomando 12 gols nas mesmas 17 cobranças (70,6%). Cássio defendeu 2 cobranças (11,8% das bolas), enquanto os goleiros adversários defenderam o dobro, 4 (23,5%). Somando as duas eliminações anteriores, a discrepância fica ainda maior: são 18 gols marcados em 27 cobranças (66,7%) e 22 gols sofridos em 28 cobranças (78,6%). São 7 defesas dos goleiros adversários e apenas 2 de Cássio, goleiro corintiano nas 5 ocasiões.

Pior que qualquer número, porém, é a postura do time na hora da cobrança e a qualidade das mesmas. Em tempo normal, como pode um time ter 8 batedores “oficiais” em uma mesma temporada? Sim, em jogos isolados de 2016, Rodriguinho, Luciano, Romero, Lucca, Giovanni Augusto, André, Marquinhos Gabriel e Marlone bateram pênaltis, e só o último não desperdiçou cobrança. Em 2017, o time até tem um batedor oficial, mas, sinceramente, qualquer goleiro com o mínimo de estudo sabe que Jô baterá o pênalti em seu lado esquerdo, rasteira ou à meia altura. Foi assim em todas as suas últimas 8 cobranças (pelo menos), incluindo seus quatro gols de pênalti pelo Jiangsu Suning.

Mais do que a falta de um batedor, o que parece realmente é que o time não se prepara para esse momento tão importante no futebol. As cobranças de Maycon e Marquinhos Gabriel ontem, por exemplo, mostram uma incapacidade de ter sangue frio e notar que o goleiro já pulou bem antes da cobrança, como fizeram quase todos os jogadores do Internacional, deslocando o Cássio. Esperar isso de um garoto como Maycon é normal, mas Marquinhos Gabriel sempre se notabilizou por tirar do goleiro na hora da cobrança. Foi assim, por exemplo, contra o Nacional e o América-MG. Mas ontem o pênalti era decisivo…

No gol, a situação parece ainda pior. Cássio pegou até hoje, em jogos, apenas quatro pênaltis pelo Corinthians, de Eduardo da Silva (que jogava pelo Flamengo, em 2014), Rogério Ceni (pelo Paulistão de 2015), Alan Kardec (no fatídico 6 x 1 contra o São Paulo, também em 2015) e Cícero (que fez o gol do Fluminense no rebote, em 2016). Em disputas de pênaltis, foram 3 defesas (incluindo a de Luis Fabiano no Paulistão de 2013) em 33 bolas batidas pelos adversários (9,1%). Mais uma vez, mais do que apenas os números, a postura do goleiro corintiano nessa situação é bastante ruim. Cássio se encolhe nas cobranças, salta (muito) antes do atacante adversário que, com o mínimo de calma, desloca-o facilmente. Além disso, não consegue saltar tão bem nos cantos, e mesmo quando acerta o canto acaba sem pegar mesmo pênaltis batidos de forma mediana. Foi assim contra Brusque e São Paulo, por exemplo. Ontem, chegou ao cúmulo de praticamente sentar no chão em uma das cobranças e sair reclamando de paradinha no último pênalti do Internacional.

Já o goleiro reserva corintiano, Walter, tem uma postura bastante diferente nas cobranças de pênalti. No Paulistão de 2013, antes de ser contratado pelo Corinthians, ele defendeu 2 de 3 cobranças, incluindo as de Chicão, do próprio Corinthians, e de Osvaldo, do São Paulo. Na disputa contra o Grêmio, defendeu logo de cara o chute de Barcos e pegaria o de Alex Telles, que bateu na trave. Mesmo descontando esse chute, que não entrou mas também não foi defendido, são 3 defesas de pênalti em 7 cobranças, uma média de 42,8%. É o mesmo número de defesas que Cássio tem em 28 bolas que foram ao seu gol (excluindo, logicamente, as que o adversário chutou para fora ou na trave) em disputas da marca da cal (10,7%). Mais que apenas isso, a postura de Walter em pênaltis gera um componente emocional de preocupação a mais no adversário que Cássio não gera, já que a maioria dos jogadores sabe que ele não é bom nessa situação.

Walter é a melhor opção para disputas de pênaltis no Corinthians

Assim, parece coerente a colocação de Walter no lugar de Cássio para a disputa de pênaltis, até porque no gol eles são similares e o paulista era até titular do time no segundo semestre do ano passado, antes de sofrer uma lesão. Cássio gosta muito de cobrar seus companheiros e criticar falhas, mas precisa também ser cobrado e não viver apenas do que fez, grandiosamente, em 2012. A presença de Walter nas cobranças de pênaltis, mais que apenas uma opção, é uma necessidade do Corinthians, cuja torcida não aguenta mais sofrer em pênaltis.

Parece, porém, que ninguém no Corinthians pensa assim. A eliminação de ontem, com uma penca de gols perdidos na cara do goleiro e pênaltis batidos de forma bizarra, é, segundo o elenco, um “acidente”. Tá na hora, então, de focar no psicológico e treinar mais finalizações, para que em momentos tão importantes, a torcida não corra o risco de ver seu time ser eliminado de Libertadores, Copa do Brasil e Campeonato Paulista, de novo, por “acidente” ou “loteria”.

Um ponto curioso: Nas 7 disputas de pênalti envolvendo o Corinthians aqui citadas, o time bateu por último, na teoria uma situação pior, em 6 delas. Seria isso azar no cara e coroa ou alguma orientação (burra) que os jogadores seguem, escolhendo bater sempre por último, com muito mais pressão que o adversário?

Um ponto curioso 2: Nas 5 disputas de pênalti perdidas, o time esteve em vantagem em 3 delas, contra Grêmio, Palmeiras e Internacional. No caso do Inter, a vantagem não foi numérica, mas Maycon teve a chance de colocar o Corinthians na frente após o pênalti perdido por William.

Um ponto curioso 3: Na Copa São Paulo de Juniores de 2016, o time perdeu a final para o Flamengo tendo 3 x 2 após 3 cobranças de cada lado. Naquela oportunidade, Maycon abriu o marcador para o Corinthians.

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Sergio Rocha é torcedor do Madureira e sempre teve o sonho de escrever sobre esportes em geral, embora tenha optado pela carreira de engenheiro civil. No "currículo", cadernos recheados de resultados esportivos e agendas da década de 90, quando antes da internet acessava rádios de diversos locais do país buscando os resultados esportivos do Acre à Costa Rica. Além de fanático por futebol, é fanático por praticamente todos os esportes, e no tempo livre que sobra sempre busca os últimos resultados esportivos do PGA Tour ou dos futures da ATP. Além disso, coleciona quadrinhos da Disney e é louco por astronomia.