Lionel Messi: uma figura divina no Santiago Bernabéu

 

Elogiar Lionel Messi chega a beirar a redundância. Seleção à parte (ainda que a falta de títulos não pode subestimar suas atuações, sobretudo nos últimos anos), o argentino vai construindo uma das histórias mais belas de todos os tempos no esporte vestindo a camisa do Barcelona. Cinco Bolas de Ouro, quatro Liga dos Campeões da Uefa, três Chuteiras de Ouro da Europa. Além de oito Campeonatos Espanhóis e três Mundiais de Clubes. Essas conquistas, somadas aos 29 anos, dizem muito.

Messi saiu da posição de pequeno prodígio do time comandado por Frank Rijkaard, quando ainda vestia a camisa número 30, para a posição de titã barcelonista. O pequeno Leo cresceu, herdou a camisa 10 de Ronaldinho e alçou voos jamais imaginados.

Messi saiu da posição de pequeno prodígio do time comandado por Frank Rijkaard, quando ainda vestia a camisa número 30, para a posição de titã barcelonista. O pequeno Leo cresceu, herdou a camisa 10 de Ronaldinho e alçou voos jamais imaginados.

Desde quando surgiu no time comandado por Frank Rijkaard, ainda Ronaldinho Gaúcho sendo a referência técnica, Messi foi estabelecendo recordes que, até então, raras eram as pessoas que acreditavam que poderia acontecer. Seu caso de amor com as finais de Champions ou sua pontualidade nas grandes noites definem a carreira do gênio. No entanto, há um capítulo que, possivelmente, o faz mais especial e o conduz a um maior simbolismo, principalmente à torcida culé: sua relação com o Real Madrid. Mais especificamente com o Santiago Bernabéu.

Acostumado a ser relevante desde os 18 anos e protagonista de vitórias históricas de seu clube em território merengue, Messi é, individualmente, a peça que mais coloca medo no maior campeão espanhol e europeu: são 14 gols anotados em 17 jogos na fortaleza de Madrid.

 

Quando o argentino arranca com a bola grudada em seu pé esquerdo no Bernabéu, o sentimento de tensão paira sob todo o estádio. Impressiona o peso (acima da técnica) emocional que o camisa 10 tem nos clássicos. Basta um lapso para desmontar qualquer planejamento dos treinadores madridistas. Sejam eles Zidane e Juande Ramos, ou estrelas como Ancelotti e Mourinho. Em outras palavras, Messi humaniza uma besta que quase ninguém sabe domar. Somente um ser humano diferente dos demais para fazer tamanho impacto frente ao poderosíssimo Real Madrid.

O pequenino Messi contra o gigante Real Madrid. Tal qual o conto bíblico, a diferença se tamanho não trata de pré-definir o embate. Muito pelo contrário.

O pequenino Messi contra o gigante Real Madrid. Tal qual o conto bíblico de Davi x Golias, a diferença se tamanho não trata de pré-definir o embate. Muito pelo contrário.

A cada vez que visita o Bernabéu, Messi cumpre à risca o manual das grandes lendas: técnica, talento, ideia, imposição. O senso de quem sabe que é superior a todos os outros presentes em campo. Mas, sobretudo, inteligência e sabedoria. Calculosamente, o argentino entra na mente dos madridistas. Por quê? Porque conhece o Real tão bem quanto conhece a si mesmo. Tem memorizada cada uma das suas ações e sabe a resposta de cada qual. A fusão de técnica, físico e mente unida a perspicácia e lucidez faz com que Messi pertença, ainda que fantasiosamente, a uma espécie futura intelectualmente superior. O homo super sapiens ou homo divine. Deus e humanos.

Por isso sempre compete. Se está em estado físico abaixo do ideal, diminui as diferenças. Se está em boa e encontra um Real superior, não perde. Se está no ápice, passa por cima. Ao longo dos anos, converteu o Bernabéu em seu estádio favorito. Encanta a Messi visitar Madrid. Parece que dá mais prazer a esse pequeno homem ser xingado e hostilizado pelos aficionados blancos. Conquistar o centro da capital da Espanha constituiu um dos pilares da sua década de ouro.

Que tal relembramos, passo a passo, cronologicamente, como Messi foi construindo, desde 2005, seu império no ambiente madrilenho?

19 de novembro de 2005 – Campeonato Espanhol 2005/2006, Real Madrid 0x3 Barcelona

 

A geração galática do Real estava no fiapo do aipim. A chegada de Vanderlei Luxemburgo, junto de uma nova safra de contratações lideradas por Robinho, indicava a transição para um novo ciclo. Mas a temporada 2005/2006 foi desastrosa para os merengues. Não bastasse a falta de títulos, ainda por cima se viu recheada de polêmicas extracampo: troca de treinadores, uma eliminação vergonhosa na Copa do Rei (perdendo para o Zaragoza por 6 a 1) e o Barcelona tomando conta de todas capas de jornais pelo futebol desempenhado e pela magia de Ronaldinho.


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No famoso clássico do primeiro turno da Liga, o 3 x 0 com show do brasileiro, autor de dois gols, que foi aplaudido de pé pelos torcedores merengues, marcou a estreia de Messi nos superclássicos. Escalado como ponta direita do 4-3-3 barcelonista, Lionel, com somente 18 anos e ainda jogador do time B culé, jogou com uma maturidade anormal. Poucos lembram, mas a jogada do primeiro gol, marcado por Eto’o, foi construída por Messi, em uma de suas típicas arrancadas e dribles. Roberto Carlos não o achou durante um instante e até Zinédine Zidane perdeu a paciência com a habilidade do, à época, camisa 30.

22 de outubro de 2006 – Campeonato Espanhol 2006/2007, Real Madrid 2×0 Barcelona

 

Quando voltou a reencontrar o Bernabéu, um ano depois do debute, Messi tinha mais status. Vestia a 19, ou seja, agora era jogador do time A. Foi protagonista de um mata-mata de Champions contra o Chelsea de José Mourinho, disputou a Copa do Mundo na Alemanha e já era titular do Barça. Desta vez, o Real Madrid, comandado por Raúl, van Nistelrooy e Robinho, triunfou perante seu maior rival.

Mas esse clássico foi especial para Messi porque, com um Ronaldinho bastante apagado, foi o argentino que puxou a responsabilidade e tentou colocar o Barcelona na partida. Suas jogadas desconcertantes para cima de Roberto Carlos e Cannavaro são relembradas até hoje. Estava cedo, mas, com 19 anos, Messi já mostrava que poderia ser a estrela dos azulgrenás no pós-Ronaldinho.

 

02 de maio de 2009 – Campeonato Espanhol 2008/2009, Real Madrid 2×6 Barcelona

 

Numa das maiores exibições do Barcelona de Guardiola, o 6 a 2 representou o “dia 1” do papel que Pep construiu para Lionel Messi: o de falso nove. No dia em que o gênio começara a deixar de ser ponta direita driblador para virar a máquina de gols que destroçava um rival com um ou dois toques, o Real Madrid de Juande Ramos não soube como marcá-lo.


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Enquanto os volantes (Gago e Lassana Diarra) subiam para pressionar os meias do Barça, a dupla de zaga (Metzelder e Cannavaro) ficavam sem função diante da ameaça de Leo à sua frente. Aproveitando o espaço morto, o camisa 10 se exibiu. Marcou dois gols, deu assistência e transitou sempre com agressividade. O prelúdio para o domínio futuro e definitivo de Messi no Bernabéu.

10 de abril de 2010, Campeonato Espanhol 2009/2010, Real Madrid 0x2 Barcelona

 

Era uma espécie de final. Três dias antes, Messi assombrou o mundo ao marcar quatro gols contra o Arsenal em uma quartas-de-finais de Liga dos Campeões. Pela primeira vez, o Bernabéu sentiria medo de Messi: do treinador até o craque Cristiano Ronaldo, todos falavam em tom de tensão quando diziam como fariam para tentar parar o “alien” argentino. Barcelona e Real estavam empatados em pontos faltando seis rodadas para o fim. Devido à vitória no primeiro turno, o Barça jogava pelo empate.

Escalações de Real Madrid x Barcelona (créditos: transfermarkt.co.uk)

Escalações de Real Madrid x Barcelona (créditos: transfermarkt.co.uk)

A ideia de Guardiola foi baseada em monopolizar a posse, controlando o ritmo da partida e evitando perder a pelota para sofrer riscos de contra-ataques. O relógio jogava a seu favor, mas a presença de Messi significava começar com ao menos um gol de vantagem. Explico: pela primeira vez na carreira, Messi havia alcançado a média de mais de 1 gol por partida. Sabendo da sensibilidade do seu pupilo para as redes, Pep o fixou como falso nove de um 3-4-3. Daniel Alves pulou duas linhas, Keita atuou como interior esquerdo e Pedro foi ponta esquerda.

Na primeira etapa, o Barcelona só finalizou uma vez: no gol de Messi, após receber de Xavi e entortar Raúl Albiol. No segundo tempo, o Real foi forçado a sair para o ataque, e Xavi e Messi castigaram cada erro merengue. Pedro matou o clássico, o Barça colocou três pontos de vantagem e não saiu mais da liderança.

27 de abril de 2011 – Liga dos Campeões da Uefa, Real Madrid 0x2 Barcelona

 

José Mourinho já comandava o Real Madrid e Cristiano Ronaldo monopolizava a “rivalidade do século” contra Messi. O palco? Uma semifinal de Liga dos Campeões. Condição perfeita para Messi brilhar. Uma semana antes, um Barcelona que parecia invicto havia caído na final da Copa do Rei para o próprio Real, com gol de Ronaldo.

Psicologicamente, um golpe certeiro para as batalhas que realmente valiam nos “playoffs” que os times fizeram (em menos de 15 dias, quatro superclássicos foram disputados). Mourinho sabia da importância de não sofrer gol e, portanto, propôs uma estratégia mais conservadora.

O 0 a 0 até os 30 do segundo tempo configurava uma satisfação ao português, que jogaria pelo empate com gols em Barcelona. No entanto, a expulsão de Pepe não estava em seus planos. A ação ideal para Messi adentrar na partida e firmar sua atuação mais icônica na capital. Minutos depois do vermelho do luso-português, o argentino completou para o fundo das redes uma jogada de Afellay. Nos minutos finais, a obra de arte: ao receber de Busquets, o gênio desfilou como se fosse imbatível e imortal. Deixou Lass, Sergio Ramos, Raúl Albiol e Marcelo para trás e, com a perna direita, tocou na saída de Casillas. O Santiago Bernabéu, devidamente, tinha um pesadelo.

14 de agosto de 2011 – Supercopa da Espanha, Real Madrid 2×2 Barcelona

 

Nem de longe foi a melhor partida da carreira de Messi, mas merece uma menção. Era o primeiro jogo da Supercopa. O Barcelona, depois de conquistar a Espanha e a Europa, estava no auge do período de Guardiola. No entanto, Mourinho começava a construir o antídoto para barrar a revolução catalã. Até por isso, montou uma pré-temporada com gosto de temporada oficial. Assim, o Real chegava ao jogo citado num estado físico e técnico perfeitos para uma partida de estreia.

Durante os 90 minutos, colocou o Barcelona em um cenário de desconforto. Mas não venceu. Porque Messi não quis. Na única oportunidade de gol que teve, não desperdiçou. Depois, originou o golaço de Villa. Estava mais do que provado: no Bernabéu, Messi não precisava de tanto para causar um estrago.

10 de dezembro de 2011 – Campeonato Espanhol 2011/2012, Real Madrid 1×3 Barcelona

 

Minimizar as participações de Messi nos clássicos aos gols somente é um erro grave. Por isso que esse jogo entra na lista. Messi não marcou, mas foi o melhor jogador em campo. O primeiro turno da Liga estava chegando ao fim, assim como o time de Guardiola. Pela primeira vez em quatro anos, o Barça demonstrava defeitos táticos que, meses depois, resultariam na saída do comandante catalão. Uma semana antes de viajar ao Japão para fazer a final do Mundial de Clubes contra o Santos, Guardiola teve seu último superclássico para recordar.

O Real liderava o Campeonato com uma vantagem consideravelmente boa e, para piorar a situação do Barça, abriu o placar com menos de um minuto, após erro de Víctor Valdés. Aí entra em cena Messi. Primeiro, ao sair de sua região de atuação para se juntar a Xavi e Iniesta e quebrar o ritmo intenso do Real. Depois, destronou a prancheta de Mourinho fria e implacavelmente. No gol de empate, é Messi quem deixa Lass, Xabi Alonso e Özil pra trás e lança Alexis Sánchez. No tento de Fàbregas, que sentenciou a partida, Messi arranca de trás, ganha de Khedira e permite Daniel Alves cruzar na medida para o meia espanhol. Difícil para qualquer torcedor acreditar.

23 de março de 2014 – Campeonato Espanhol 2013/2014, Real Madrid 3×4 Barcelona

 

Chegamos a um dos mais memoráveis concertos da carreira de Messi. O Real Madrid de Ancelotti começava a ganhar a forma na qual venceria, meses depois, a Champions League. Antes, porém, teria Messi como provação. Carleto sabia que, no meio-campo do Barcelona, havia uma debilidade física que tinha consequência na defesa. Portanto, abdicou da estratégia formada por Mourinho nos anos anteriores, e começou a marcar os catalães em campo contrário.

A cara deste perplexo torcedor madridista diz tudo. Messi, mais uma vez, aprontava das suas em pleno Bernabéu.

A cara deste perplexo torcedor madridista diz tudo. Messi, mais uma vez, aprontava das suas em pleno Bernabéu.

Naquele dia, o Real avançou o quanto pôde a marcação para danificar a saída de bola do Barça. No entanto, como resultado dessa ousadia sem a bola, Messi gozou de mais espaços quando o seu time saía da enroscada madridista. E aí é pedir para morrer. Se Messi tem zonas para correr, vai criar perigo por natureza, e se cria perigo por natureza o normal é sua equipe ganhar. Bingo. O gênio marcou um hat-trick e deu uma assistência para Iniesta. Para a recordação, a cena dos torcedores perplexos depois do terceiro tento.

23 de abril de 2017 – Campeonato Espanhol 2016/2017, Real Madrid 2×3 Barcelona

 

Exatos três anos e um mês depois do triplete, Messi voltou a protagonizar um clássico. E ele veio em um momento ideal da temporada por todo o contexto que tem vivido Barcelona e Real Madrid recentemente: os merengues lideram a Liga e acabaram de sair classificados de um mata-mata de Champions contra o Bayern de Münich que o abasteceu de moral.

La Pulga “cresce” na hora exata

Por outro lado, um Barça caótico coletivamente, dependente cada vez mais das individualidades e eliminado da competição europeia mais uma vez antes das semifinais. Mais: os questionamentos sobre o poderio decisivo de Messi nunca foram tão fortes. Azar do Real, que viu a criatura despertar como não poderia ser diferente no Santiago Bernabéu. Coincidentemente, Zidane desenhou um Madrid muito semelhante àquele de Ancelotti no 3×4. Resolveu subir as linhas e pressionar a defesa barcelonista. Mas cometeu o grave erro de não ter em Messi um objeto de ajuste para sua marcação. Quando Kroos ou Modric subiam para pressionar como se não houvesse amanhã, abriam as linhas merengues.

Desse jeito, quando o Barça escapava, encontrava Messi livre, sem marcação, obstáculo, nem vigilância. Às vezes, numa situação de mano-a-mano, onde o 10 ainda faz a diferença. E Lionel fez de Casemiro seu brinquedinho especial, driblando o brasileiro em todos os lados e por onde quisesse. Ah, claro: marcou dois gols, reabriu a disputa pelo título, deu sobrevida aos últimos meses de Luis Enrique no comando do Barcelona.

E mostrou para o Bernabéu o nome, o número e o escudo de quem, apesar dos últimos confrontos abaixo da média, ainda tem o dom de assombrar o estádio.

Até parecia roteiro de filme: o herói da noite marcou seu gol de número 500 por seu clube formador logo em cima do maior rival e na casa dele. O gol que sacramentava a vitória e o fio de esperança de título na temporada do Futbol Club Barcelona. Poucos roteiros hollywoodianos seriam mais espetaculares do que isso.

Até parecia roteiro de filme: o herói da noite marcou seu gol de número 500 por seu clube formador, logo em cima do maior rival e na casa dele. O gol que sacramentava a vitória e o fio de esperança de título na temporada do Futbol Club Barcelona. Poucos roteiros hollywoodianos seriam mais espetaculares do que isso.

Obs: esses foram os principais clássicos de Messi no Santiago Bernabéu, e não todos.
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Jornalista, carioca e apaixonado pela Liga Espanhola desde a época em que Rivaldo, Zidane, Figo e Raúl foram seus professores. Colaborou para o programa [email protected] da Rádio Globo São Paulo falando sobre o futebol do país das touradas. Repórter da Super Rádio Tupi.