O time mais sorrateiro do mundo

  • por Lucas Sousa
  • 4 Meses atrás

O futebol é um universo formado por vários componentes que se relacionam e formam o esporte. Possui sua parte tática, técnica, física e mental. Além, claro, do adicional da sorte, presente em qualquer jogo. Isso quer dizer que uma partida pode ser decidida por qualquer um desses cinco elementos, ou pela combinação deles. Cabe aos treinadores a árdua missão de tentar dominá-los e assim maximizar as chances de sua equipe vencer, sempre sabendo que a sorte é incontrolável.

O Real Madrid, embora não viva seu melhor momento, se destaca por ser organizado taticamente, ser fortíssimo tecnicamente e ter uma presença física de ponta. Acima de tudo isso, porém, está a força mental do elenco. O time consegue se manter centrado mesmo quando o cenário não o favorece. Quando o adversário controla o jogo e parece próximo de marcar, o Real não se abate, segue trabalhando e acreditando que pode reverter o cenário.

Foto: Site oficial – Zidane tem muitos méritos na gestão do grupo e manutenção da confiança sempre elevada

Isso passa pelo nível da equipe nas outras áreas. O time inteiro confia na defesa porque sabe que existe um Sérgio Ramos lá atrás para sustentar os momentos difíceis. Assim como a defesa passa por momentos turbulentos esperando que Kroos ou Modric coloquem Cristiano Ronaldo ou Benzema na cara do gol. A organização tática de Zidane, que já venceu partidas “improváveis”, e a imposição física dos jogadores, capazes de suportarem 90 minutos de jogo, aumentam a confiança.

A questão é que dentro dos componentes tático, técnico, físico e mental do jogo, o último é o mais variável. Não se organiza onze jogadores ou melhora a condição técnica/ física em um par de dias, mas as condições emocionais podem mudar num estalar de dedos. E o Madrid passou a dominar isso. Emocionalmente está sempre forte, acreditando que pode sair das situações ruins e conseguir vitórias.

Foto: Site oficial – Benzema, Sérgio Ramos e Ronaldo: Real tem várias peças decisivas

As duas últimas viagens pela Liga dos Campeões ilustram essa situação. Na Itália o Napoli dominou o primeiro tempo do jogo, finalizou 11 vezes, marcou um gol e perdeu alguns. Poderia ter ido para o vestiário com uma ótima vantagem. Não fez. Com seis minutos de segundo tempo Sérgio Ramos (sempre ele) achou um gol de cabeça. Seis minutos depois, Mertens marcou contra. Em 12 minutos os merengues tomaram as rédeas do confronto e garantiram a classificação. Os napolitanos, que vinham de excelentes 45 minutos, estavam destruídos.

Estávamos em dificuldades, em um momento que não era bom. De repente Cristiano tem a bola, passa para Isco e ele marca. A qualquer momento podemos ferir o rival, nossa equipe tem isso – Zinédine Zidane, após vitória sobre o Alavés, por 3 a 0

A história se repetiu em Munique. Desta vez o Real não sofreu como na Itália, mas viu o Bayern crescer após o gol de Vidal e assumir o controle na reta final do primeiro tempo. O time de Zidane estava amarrado e sem alternativas para agredir os alemães quando o time da casa teve um pênalti. O erro de Vidal certamente acendeu os ânimos madridistas, que empataram no primeiro minuto da etapa complementar e aos 15 forçaram a expulsão de Javi Martínez. Com um a mais e 30 minutos no relógio, o Real Madrid assumiu o domínio do jogo. Sufocou o Bayern, finalizou 13 vezes, virou a partida e só não saiu com a classificação encaminhada porque Neuer não deixou.

Foto: Site oficial – Cristiano Ronaldo marcou os dois gols da vitória merengue em cima dos bávaros

Jogar contra o Real Madrid é como um filme de terror. O vilão tem a oportunidade clara de matar o protagonista, mas prefere saborear a angústia da vítima antes de fazê-lo. Então, numa reviravolta “inesperada” (que na verdade já estamos esperando), a vítima assume o controle e derrota o vilão. Numa competição de mata-mata, isso faz total diferença. Por mais que o Real apresente algumas debilidades táticas e o momento técnico de alguns craques não seja o melhor, o time nunca está morto até que acabe o jogo. É sorrateiro, parece estar por baixo, prestes e cair, mas a qualquer momento pode receber um impulso de confiança e reativar seus momentos de alto nível.

Comentários

Mineiro e estudante de jornalismo. Admira (quase) tudo que cerca o futebol inglês, não esconde seu apreço por times que jogam no contra-ataque (sim, sou fã do Mourinho) e acha que futebol se discute sim. Também considera que a melhor invenção do homem já ultrapassou os limites do esporte.