Rodrigo Caio e o espelho que não queremos ver

O Brasil vive um momento ímpar em sua história. Entre listas e delações, surge a certeza de que a corrupção na política é algo sistêmico e antigo, passando por governos e suas respectivas oposições, entre a direita e a esquerda.

Como esperado, a sociedade brasileira apontou o dedo à Brasília, condenando aqueles que foram eleitos para estarem lá. Uma postura justa, sem dúvida alguma, mas que também exige reflexão.

A política não é uma ilha isolada do restante da população, tampouco se trata de uma dimensão à parte de tudo. Não se pode dizer que os 200 milhões de brasileiros são meros reféns da classe política.

Existe um espelho incômodo que não queremos ver. A corrupção está em nosso dia a dia. No sinal pirateado da tv à cabo, na carteirinha falsificada para se comprar meio ingresso, na “cervejinha” paga ao policial para se livrar de uma blitz e por ai vai.

Para ser corrupto não é preciso usar terno e receber propina, assim como para ser honesto não basta se dizer indignado com a corrupção.

O futebol é um reflexo da sociedade, seja em campo ou na arquibancada. Por essas bandas sempre reinou a ideia de se vencer a qualquer custo, mesmo que seja no jeitinho, na malandragem romântica tupiniquim.

Por isso a atitude de Rodrigo Caio desperta tamanha repercussão. Ela rompe com o discurso boleiro tradicional, tanto que dividiu o próprio vestiário do São Paulo.

É uma questão cultural. Vai além dos elencos são-paulino e corintiano. Há enraizada uma cultura de se vencer a qualquer modo, alimentada por todos que estão em torno do futebol. O campo acaba sendo visto como um espaço à parte da sociedade, aonde é permitido cavar faltas, inventar lesões, intimidar o adversário e tudo o que for preciso para sair vitorioso.

Esse tipo de pensamento não se muda do dia para a noite e não se pode exigir que todos sejam como o zagueiro do São Paulo e da seleção brasileira. Mas a verdade é que Rodrigo Caio escancarou o espelho que não queremos ver…

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Jornalista pós graduado em Gestão Aplicada ao Esporte e um doente por futebol. Trabalha atualmente como gerente executivo de esportes na RedeTV! e já passou por Esporte Interativo, Náutico, Portuguesa e Santo André.