Adeus, Xabi!

O caminhar imponente e a postura calma e equilibrada poderiam não indicar a presença de um jogador de futebol. Ínsita, a elegância de Xabi Alonso sempre espantou. Com o passar dos anos, o espanhol se confirmou um daqueles exemplos de atletas que, metaforicamente, diz-se que jogam de terno. Ícone da mais importante geração de jogadores da história do futebol espanhol, prepara-se para pendurar as chuteiras e entristece os fãs do futebol técnico, refinado e milimetricamente pensado.

Das canteras da Real Sociedad ao indiscutível reconhecimento na Baviera, vivendo fatos como o famigerado “Milagre de Istambul” e entremeando uma constelação galáctica de craques, Xabier Alonso Olano se firmou um exemplo. Acima de quaisquer suspeitas sempre esteve sua qualidade técnica. Igualmente, a presença latente de seu perfil de silenciosa liderança foi continuamente notada. Sua carreira foi belíssima. E, mais importante que isso, vitoriosa.

Os primeiros êxitos

Envergando o manto Txuriurdin, foi vice-campeão espanhol. Logo, recebeu suas primeiras oportunidades em sua seleção. Sua capacidade de ler o jogo e lhe dar dinâmica já, ali, impressionavam. Alonso tinha apenas 21.

Foto: realsociedad.com

Um ano depois, integrou o time que disputou a Euro 2004. Dali adiante, até o anúncio de sua aposentadoria junto à Fúria, marcou presença em todas as competições disputadas por seu país. Após a disputa de sua primeira competição de seleções, partiu para o desafio que mudaria seu status para sempre: por £11 milhões, firmou com o Liverpool.

Em Anfield Road deu a conhecer outra de suas facetas, a decisiva. Xabi nunca teve medo das responsabilidades e, sob o comando de Rafa Benítez, brilhou já em sua primeira temporada. O basco foi protagonista naquela que, para muitos, é a final de UEFA Champions League mais disputada de todos os tempos.

Foto: LiverpoolFC.com

Em Istambul, quando o dramático placar aberto na primeira etapa já não era tão perigoso e a margem de três gols aberta pelo Milan se reduzira a um, coube ao meio-campista a missão de empatar o certame. Mas, foi exigida enorme frieza. Penalidade máxima marcada, Alonso se viu frente à frente com Dida, exímio defensor de penalidades, e desperdiçou a cobrança. Perdeu, mas marcou no rebote. O desfecho final devolveu o troféu da competição continental ao Liverpool e eternizou o nome do jogador na história dos Reds.

A despeito do jejum de títulos ingleses, ainda conquistou uma FA Cup, uma Community Shield e uma UEFA Super Cup. Montou parceria memorável com Steven Gerrard e, posteriormente, um trio fantástico, com a adição de Javier Mascherano.

Foto: LiverpoolFC.com

Nesse período, também disputou sua primeira Copa do Mundo, em 2006. Adiante, ajudou seu país a conquistar a Euro 2008, o que não ocorria há 44 anos. Nesse momento, já se sabia o tamanho do talento do meio-campista, que era colocado no patamar dos melhores do mundo em sua posição.

A afirmação máxima

Assim sendo, recebeu oportunidade irrecusável. Começando em agosto de 2009, Alonso participaria de mais uma renovação do Real Madrid, a qual incluiu as contratações de Kaká, Benzema e Cristiano Ronaldo. Representando os Merengues foi mais uma vez brilhante e, até sua saída, em 2014, sempre titular.

Foto: realmadrid.com

“Ele sempre esteve envolvido nas decisões técnicas, e isso me encanta muito (…) Fomos grandes rivais quando ele estava no Real. Ele foi um dos grandes meio-campistas do mundo”, disse Pep Guardiola em março deste ano.

Foto: realmadrid.com

A ascensão do Barcelona, de Pep Guardiola, reduziu as possibilidades madrilenas de título espanhol (foi apenas um, em 2010/11). Contudo, a Copa do Rey veio duas vezes, a Supercopa da Espanha uma e, mais importante, a tão aguardada Décima chegou ao Santiago Bernabéu, na última temporada de Alonso no clube.

Nesse período, também foi membro de mais uma dupla de títulos, que consagrou a Espanha como a melhor seleção do mundo no período entre 2008 e 2012. Ele estava lá quando Iker Casillas ergueu a primeira, tão esperada e sonhada, Copa do Mundo de seu país. Também presenciou o momento em que o arqueiro voltou a levantar a taça da Euro. Alonso foi importante em uma era marcada pelo brilho da dupla catalã Xavi e Andrés Iniesta. Isso, definitivamente, não é pouco.

Foto: realmadrid.com

“Eu definitivamente sinto saudades de Xavi e Xabi Alonso. Ambos eram grandes companheiros na seleção. Tivemos um tempo maravilhoso juntos, ganhando vários troféus em todo o mundo”, disse Iniesta, em 2016, ao Times of India.

O honrado capítulo final de Xabi

Veio, então seu ciclo final. Pedido por Guardiola, Xabi partiu para a Alemanha. Em sua última empreitada, vestiu a camisa do mais vitorioso clube germânico de todos os tempos; desembarcou na Baviera, para representar a camisa do Bayern de Munique.

Mais uma vez, foi titular durante todo o período, mesmo com o notório declínio físico que sofreu. Sua liderança, acurácia nos passes e disciplina tática permaneceram incólumes e, como sempre, os títulos vieram. O basco encerra sua carreira levando consigo mais glórias. Pelo Bayern, venceu três títulos alemães, uma Copa da Alemanha e uma Supercopa da Alemanha. O que mais poderia querer?

Foto: FCBayern.com

“Xabi, você é qualidade pura. Um ato de classe em campo e um cavalheiro fora dele. Foi um prazer jogar ao seu lado, e eu senti sua falta todos dos dias do momento em que você deixou os Reds. Parabéns pela sua carreira perfeita, e boa sorte a você e sua família no futuro”, disse Gerrard em tom de homenagem quando Alonso anunciou que se aposentaria.

Durante sua carreira, Xabier Alonso Olano foi um profissional exemplar. Daqueles que jamais conseguiram inspirar ódio nos rivais; que provocam apenas admiração profunda naqueles que o viram nas canchas do mundo. De seu talento e calma se tira um modelo; em sua liderança e glórias se nota grandeza. Ícone por onde passou, Xabi Alonso marcou, indelevelmente, seu nome na história do futebol.

Adeus, Xabi!

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Advogado graduado pela PUC Minas, pós-graduando em Direito Desportivo e Negócios do Esporte, 24 anos. Admito minha preferência pelo futebol bretão, mas aprecio o esférico rolado qualquer terra. Desde a infância, tenho no atacante Marques e no argentino Pablo Aimar referências; o melhor jogador que vi jogar foi o lúdico Ronaldinho Gaúcho, na temporada 2004/05. Estou também no "O Futebólogo", meu blog.

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