O início de Deivid no Criciúma é promissor

Desde a troca na presidência do clube no fim de 2015, o Criciúma passou a viver novo momento administrativo. Dos ataques megalomaníacos de Antenor Angeloni, veio Jaime Dal Farra, empresário, assim como o antecessor, mas com perfil oposto.

No comando do clube catarinense, ele tem proposto uma gestão mais racional financeiramente, sem grandes loucuras no mercado e estabelecendo um teto financeiro. Em função disso, o Tigre deixou de ser um clube investidor e ganhou status formador de atletas. Desse novo modelo surgiram frutos como o lateral Ezequiel e os atacantes Róger Guedes e Gustavo (vendidos para Cruzeiro, Palmeiras e Corinthians, respectivamente).

Deivid chegou querendo um Criciúma com a bola no pé | Foto: Fernando Ribeiro/Criciúma E.C.

Dentro desse cenário também aparece Deivid. Ex-atacante, consagrado com passagens por clubes como Cruzeiro, Santos, Flamengo e Fenerbahçe (Turquia), ele foi anunciado como novo técnico do Criciúma no fim de 2016. Sob esse anúncio, centenas de olhares de desconfianças dos torcedores, especialmente daqueles que superestimam o fator “experiência” e se mostram incomodados com a ida para a terceira temporada seguida na segunda divisão nacional.

Muito dessa desconfiança havia uma razão clara: a juventude do técnico. Aos 37 anos, ele só havia sido treinador do Cruzeiro, em 2016, e saiu sem deixar saudades. No comando da Raposa, bons números, até: 11 vitórias, cinco empates e duas derrotas em 18 jogos. Pesaram contra as eliminações precoces na Copa da Primeira Liga e no Campeonato Mineiro – e a tradicional impaciência de dirigentes brasileiros com técnicos “sem nome”.

Como desafio no novo clube, Deivid teria de herdar o elenco montado na temporada anterior e a pouca possibilidade de investimento. Além disso, teria pela frente uma torcida exigente, sedenta por resultados e impaciente com os rumos que o clube vinha tomando nos anos anteriores.

Choque de filosofia

Logo nas primeiras entrevistas como novo técnico do Criciúma, Deivid já deixou exposto que traria um choque de filosofia ao clube. Se com o antecessor Roberto Cavalo o Tigre abusava de lançamentos longos e cruzamentos na grande área, explorando o jogo físico e recuando as linhas para ter o contra-ataque a disposição, o novo treinador queria um time que colocasse a bola no chão, partindo do goleiro e indo até o centroavante.

A mudança passou até mesmo para as rotinas de treinamentos. Os extensos coletivos em campo inteiro de Cavalo passaram para atividades repetitivas prevendo ações de ataque, defesa e posicionamento. O time passou a ter movimentos mais mecânicos e orientados.

O choque causou os primeiros reflexos nas arquibancadas – e nas cabines de imprensa. O goleiro Luiz, acostumado a “quebrar” a bola para o campo de ataque, passou a ter funções na saída de bola, participando ativamente do jogo pelo chão. Isso causou relativo desconforto no torcedor, que via os recuos de bola ao arqueiro como uma afronta. Já parte da imprensa entendia que esse tipo de situação só se faz com atletas de alto nível. É aquele velho papo, na Europa “é fácil de fazer com os jogadores que eles têm”.

Indo contra o senso comum, Deivid tenta quebrar esse pensamento e provar que, com organização, é possível apresentar um futebol convincente, mesmo sem possuir grandes craques.

Variação tática

Logo ao chegar, Deivid decidiu mexer no sistema tático. O 4-3-1-2 de Cavalo no fim da Série B (que chegou a ser 3-4-1-2 na reta final) virou um 4-1-4-1, que variava para um 4-3-3.

A principal mudança estava no posicionamento dos meio-campistas. Barreto ficou como homem posicionado entre as linhas e passou a ter a função de se posicionar entre os zagueiros para fazer a saída de bola. A iniciativa dava amplitude ao time, tendo em vista que os laterais avançavam e os zagueiros buscavam o bico da grande área.

Douglas Moreira, que atuava mais recuado com Cavalo e se tornava um elemento-surpresa no ataque, passou a jogar mais adiantado e se alinhava com Alex Maranhão na faixa central. Com a bola, ambos avançavam para dar sustentação ao ataque e suporte aos extremos – Pimentinha na direita e Pitbull na esquerda. Dava para cravar o time em um 4-1-2-3, basicamente.

Formação do Criciúma na derrota por 3 a 2 sobreo Fluminense, na primeira partida do ano

O sistema não perdurou por muito tempo – até por certo desleixo de alguns atletas. Maranhão, por exemplo, não recompunha a segunda linha de quatro com tanta presteza, enquanto Pimentinha mostrava enormes dificuldades em cumprir a função de extremo – o que era previsto pelas temporadas anteriores no Sampaio Corrêa.

Deivid se viu obrigado a procurar alternativas e foi no decisivo jogo contra o Fluminense, na primeira mão da terceira fase da Copa do Brasil, que encontrou uma aproximação de time ideal. O 4-1-4-1 foi deixado de lado e veio o 4-2-3-1, que virava um 4-4-2 sem a bola. Barreto passou a ter Moreira ao lado dele, com Caio Rangel e Andrew fechando os flancos. Maranhão, que passou a ser considerado peça primordial do time, ganhou liberdade para participar mais das ações ofensivas e teve funções defensivas reduzidas. A ideia principal era compactar as duas linhas, diminuindo os espaços dos homens de frente do time carioca.

Já na Copa do Brasil, contra o mesmo Flu, Deivid organizou um 4-2-3-1 (4-4-2)

No jogo de volta, Deivid surpreendeu. Para igualar o trio ofensivo tricolor, composto por Richarlison, Henrique Dourado e Wellington Silva, recuou o volante Barreto para a linha defensiva, adiantou os laterais e passou a atuar no 3-4-2-1. Apesar da eliminação, a equipe se comportou bem e o técnico teve a certeza de que tinha ali outra alternativa de jogo – que voltaria a ser usada contra o Joinville na semana seguinte.

Desenho tático no jogo de volta contra o Flu, pela Copa do Brasil

O esquema atual é semelhante ao de 2016: 4-3-1-2. Quem ganhou espaço no time foi o colaborativo meio-campista Ricardinho, que possui muita disposição para desempenhar as funções defensivas e chega consistentemente ao setor de ataque. A mexida também possibilitou uma aproximação de Alex Maranhão do setor ofensivo, tendo em vista que o extremo Caio Rangel passou a recompor a linha defensiva junto dos três meias centrais. Dependendo da movimentação de Maranhão, o novo sistema se assemelha a um 4-3-3.

Formação adotada na reta final de Campeonato Catarinense

Equilíbrio entre defesa e ataque

Nos primeiros meses de trabalho, Deivid encontrou um pequeno percalço: a busca pelo equilíbrio entre defesa e ataque. No primeiro turno do estadual, um ataque poderoso, mas prejudicado por uma defesa comprometedora. Na parte final, um setor ofensivo ainda forte, mas agora sustentado por uma retaguarda melhor organizada.

Este desequilíbrio é retratado nos números. No primeiro turno do Campeonato Catarinense, o Criciúma marcou 17 gols em nove jogos, tendo o ataque mais positivo entre os dez times do estadual. Somente em uma partida a equipe de Deivid não fez gol. Em contrapartida, sofreu 16, a segunda mais vazada, e somente duas vezes ficou com a meta limpa.

No returno, o ataque até seguiu firme e marcou 15 gols, mas teve quatro vitórias por um gol de diferença, sendo três por 1 a 0. E a defesa, antes criticada, ganhou mais sustentação com a mudança tática de Deivid e sofreu somente dez tentos, a terceira menos vazada, passando quatro partidas sem sofrer gols.

Somando todos os jogos – somando os compromissos por Copa do Brasil e Copa da Primeira Liga – o Tigre encerou a primeira parte da temporada com 42 gols marcados e 40 sofridos em 25 partidas. Ainda há caminho a ser trilhado em busca do equilíbrio.

O que esperar na Série B?

Deivid visa colocar o Criciúma na Série A | Foto: Caio Marcelo/Criciúma E.C.

A presença dos comandados de Deivid para a Série B é uma verdadeira incógnita. Desde que chegou ao clube, ele tem falado que o principal objetivo é a obtenção da vaga na primeira divisão, mas parece claro que o material humano que tem em mãos não parece ser suficiente para atingir a meta.

Ressalte-se que a Série B desta temporada aparenta estar mais fraca que em outros anos, apesar da ilustre presença do Internacional. Hoje é possível ver times como América Mineiro, Náutico e Santa Cruz, que são sempre colocados como favoritos, capengando ao longo da temporada e até com problemas financeiros. Além disso, sempre surgem dúvidas sobre o real nível de alguns campeões estaduais, casos de Ceará e Paysandu, por exemplo.

O Criciúma entra no bolo dos times que vão especular com o acesso. Ao longo da temporada, vão “medindo a temperatura” do campeonato e vendo a possibilidade de lutar por uma das vagas. Em vantagem para o Tigre está a clareza de ideias e o conceito de jogo presentes em campo. É notório que Deivid está tentando propor algo que está sendo assimilado pelo elenco. Depois de uma passagem frustrada pelo Cruzeiro, o ex-atacante vem trazendo boas ideias e vislumbra um restante de temporada próspero em Santa Catarina.

Comentários

Uma mistura maluca de pessoa. Academico de jornalismo, catarinense de origens italianas e espanholas, mas apaixonado pela bola que rola na terra da Torre Eiffel e pela gorduchinha que pinta os gramados cheios de chucrute da Alemanha. Não escondo minha preferência por times que tem uniformes nas cores amarelas e pretas, mas sempre com análises bem embasadas... ou não. Mas acima de tudo, sou um Doente Por Futebol.