A subestimada contribuição de Miralem Pjanic

Faz um bom tempo que, quando se pensa o futebol praticado pela Juventus, consegue-se visualizar um modelo. Ainda que tenha sofrido alterações de formação, tanto tática quanto de peças e comando, percebe-se um padrão. A Vecchia Signora é sempre lembrada como uma esquadra primaz na defesa e clínica no ataque. Assim, quando contratou o talentoso bósnio Miralem Pjanic, questionou-se como seria seu encaixe na equipe.

Dotado de visão de jogo incomum, perícia nos passes, mas, para muitos, pouco participativo nas tarefas coletivas e de contenção do jogo adversário, o meia foi durante muito tempo enxergado como alguém que precisaria se dedicar mais aos jogos para chegar ao nível mais alto do futebol. Contudo, essa percepção tem se provado equivocada. Embora muitas vezes a sensação daqueles que o assistem conduza à conclusão de que o camisa 5 passa muito tempo alheio ao jogo, não é essa a realidade dos fatos.

Foto: Reprodução/Juventus.com

Aplicado na marcação e distribuição da bola

A despeito de algumas variações ocorridas durante a temporada e em fases de partidas, Pjanic tem sido sempre titular em uma faixa central que só conta com mais um jogador – Sami Khedira. Nesse contexto, Mario Mandzukic é alternativa pela esquerda, Juan Cuadrado pela direita e Paulo Dybala na ligação do meio com o centroavante Gonzalo Higuaín. Quando comparamos tal formação da meia-cancha com outra que já alinhou atletas como Andrea Pirlo, Arturo Vidal e Paul Pogba, parece claro que o time tem menos força na recuperação da bola. Só parece.

É fácil concluir que Khedira demonstra primazia nessa função. Difícil é ver como Pjanic contribui no setor. Tal complexidade deriva da necessidade de uma análise coletiva da equipe.

A marcação exercida pela Juve é sempre muito compacta. Busca-se dificultar a criação de oportunidades por parte dos adversários, com o encerramento de espaços, e, consequentemente, a indução a erros. Para isso, é fundamental que se ocupe bem o campo. Vem daí o primeiro ponto pró-Pjanic.

O mapa de calor do jogador da partida entre Juventus e Monaco, válida pela UEFA Champions League, demonstra com clareza a extensão da faixa de atuação do bósnio. O jogador circula por todo o meio-campo Bianconeri. É também fundamental para permitir que a bola deixe os zagueiros de forma qualificada. No referido encontro, foi o jogador que mais vezes passou, com 62 toques. Isso elimina, imediatamente, a teoria de que se alheia às partidas. O meia foi, ademais, o segundo atleta do time italiano que mais vezes tentou desarmes, atrás apenas de Alex Sandro.

Foto: Reprodução/Whoscored.com

“Estou com muita raiva de Pjanic, porque ele pode se tornar um dos três melhores meio-campistas do mundo, mas ainda hoje, quando faz um passe errado, age como se fosse o fim do mundo. Ele precisa estar calmo e relaxar, porque seu potencial é apenas parcialmente expressado”, disse Allegri em entrevista coletiva após o jogo no Principado.

Grandeza contra um gigante

Por sua vez, análise semelhante pode ser feita das partidas contra o Barcelona, nas quartas de finais do certame. No jogo de ida, foi o segundo que mais vezes passou a bola, tentou desarmes e, igualmente, o segundo que mais interceptações conseguiu. Seu mapa de calor seguiu padrão semelhante ao apresentado contra os monegascos. Todavia, foi na partida de volta que se notou com ainda mais clareza a importância de Pjanic.

Foto: Reprodução/Juventus.com

No Camp Nou, Pjanic foi brilhante. Consciente de que teria como missão única parar Lionel Messi, Luis Suárez e Neymar, a Juve entrou para consolidar o placar conseguido no jogo de ida (3×0). No encontro, o camisa 5 tentou 15 dos 55 desarmes buscados pela equipe. Foi extremamente combativo e competitivo; provou-se capaz de atuar em qualquer equipe do futebol mundial. Além disso, voltou a ser o atleta da Vecchia Signora que mais participou do jogo, com 55 passes oferecidos.

Sumido? De jeito nenhum!

É claro que, muitas vezes, utilizou-se o verbo “tentar”, o que não quer dizer que o jogador foi exitoso nas ocasiões. Não obstante, para um atleta que, durante a carreira, foi acusado de “sumir” em muitos momentos, tais dados já revelam como é importante e participativo.

No presente caso, as estatísticas só nos servem para confirmar uma realidade que é indiscutível, mas em muitas ocasiões difícil de perceber.

Foto: Reprodução/Juventus.com

Como Pjanic não tem um estilo de jogo baseado no lado físico, não sendo forte e nem veloz, passa impressão equivocada do que realmente consegue praticar. Primaz na saída de bola e extremamente adaptado ao jogo de marcação pressionada, o bósnio se encaixou com perfeição à forma como joga a Juventus. Seu papel é fundamental, embora permaneça à sombra do desempenho individual de jogadores como Dybala, Higuaín, Dani Alves ou Gianluigi Buffon.

Brilhante na Roma, competitivo na Juventus

Quando atuava na Roma, possuía maior liberdade para desenvolver suas habilidades. Então, marcava mais gols e criava assistências, sempre protegido por jogadores como Daniele De Rossi, Radja Nainggolan ou Kevin Strootman. Na Juventus, deu a conhecer seu lado mais competitivo, sem perder as características que lhe são peculiares. Hoje, é o recordista da equipe em passes para gols na temporada, com 10.

Foto: Reprodução/Juventus.com

Atualmente, Pjanic não só joga e faz jogar. Tornou-se eficiente na tarefa de impedir que seu adversário jogue. Por isso, merece aplausos. O trabalho de Allegri na adaptação do bósnio (que acredita ter margem para evoluir ainda mais) é brilhante. Trata-se de uma das chaves para o sucesso de uma equipe que caminha a passos largos para o hexacampeonato italiano e a chegada à final da UEFA Champions League.

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Advogado graduado pela PUC Minas, mestrando em Ciências da Comunicação (Universidade do Minho), 24 anos. Admito minha preferência pelo futebol bretão, mas aprecio o esférico rolado qualquer terra. Desde a infância, tenho no atacante Marques e no argentino Pablo Aimar referências; o melhor jogador que vi jogar foi o lúdico Ronaldinho Gaúcho, na temporada 2004/05. Estou também no O Futebólogo, no Chelsea Brasil e na Corner.