Casemiro, de marrento a ponto de equilíbrio

  • por Victor Gandra Quintas
  • 6 Meses atrás

A vida de Carlos Henrique Casimiro, como a de muitos futebolistas, daria um belo livro. Sim, ‘Casimiro’, a grafia correta de seu sobrenome é esta. Na infância, o menino pobre – cuja casa sequer cabia ele, sua mãe e mais dois irmãos para dormir -, ao cair de todas as noites, ia dormir na casa de uma tia ou da avó. Sua primeira lembrança de um quarto “próprio” foi quando foi morar no CT do São Paulo, onde daria os primeiros passos profissionais. Por caminhos tortos Casemiro surgiu, tanto a grafia do nome pelo qual que é conhecido mundialmente – oriunda da um erro de impressão num uniforme de jogo seu – quanto a sua a trajetória profissional.

Nada veio fácil para o volante, e ele próprio tem responsabilidade em relação aos percalços por que passou. Menino talentoso e problemático da base Tricolor, Casemiro rodou bastante até conseguir finalmente encontrar seu lugar ao sol.

O início no São Paulo – de Casimiro a CASEMIRO

Por Bráulio Silva de Fátima

Casemiro passou todo o período de base atuando pelo São Paulo FC, clube onde profissionalizou-se, aos 18 anos.

 

Considerado uma das joias da baseMade in Cotia“, o volante foi um dos destaques do time campeão da Copa São Paulo de 2010. Volante de boa marcação, de passadas largas e com ótimos lançamentos, seria questão de tempo para que ele tomasse conta da posição no time de cima. Começou jogando como Casimiro. Mas, num dia, estamparam seu nome na camisa equivocadamente. O prodígio entrou em campo como “Casemiro”. E fez uma grande partida. O “apelido” trouxe sorte e ele não ousou mexer em nada e pediu para continuar a jogar com o novo nome.

Quem diria que aquele cuja responsabilidade principal é cobrir e corrigir os erros táticos de seus companheiros em campo traz em sua própria camisa um erro tipográfico? Acostume-se, pois a trajetória de Casemiro não é nada ortodoxa.

 

Teve excelente participação no Sul-Americano sub-20 de 2011. Foi o capitão do time campeão, que contava com ótimos jogadores; entre eles Neymar, Oscar e Lucas Moura. Parecia que Casemiro seguiria o caminho típico de todo garoto prodígio: se destacar e evoluir no time principal. Apenas, parecia…

Dificuldades no Tricolor Paulista

Mas Casemiro era considerado marrento. Foi muito criticado por ser um atleta preguiçoso. O período de transição do time também o atrapalhou. Muitas trocas de técnicos. Em dois anos no time principal, Casemiro foi treinado por Ricardo Gomes, Sérgio Baresi, Paulo Cesar Carpegianni, Emerson Leão e por último Ney Franco, com quem tinha vivido seu melhor momento no sul-americano com a seleção.

 

Problemas extracampo e noitadas foram as principais reclamações da torcida nesse período. Atos que o deixaram como opção de banco de Denilson e Wellington na campanha da conquista da Sul-Americana. Mas mesmo vindo do banco acumulou boas partidas, como as vitórias sobre Corinthians e Atlético-MG.

Em 2013, começou como titular da equipe nos jogos da Libertadores. Mas, ao final de janeiro foi emprestado ao Real Madrid, que após seis meses o comprou em definitivo. Pelo Tricolor Paulista, Casemiro jogou 111 jogos, anotou 11 gols e distribuiu 15 assistências.

 

O – ainda – promissor volante saía pela porta dos fundos do São Paulo e chegava sem qualquer alarde ao gigante madrilenho. Casemiro teria de trabalhar muito para alcançar um lugar em meio a constelação merengue. Um caminho sem badalação alguma, trajeto bastante diverso do que estamos acostumados a ver as promessas do futebol fazerem.

Ida para o Real Madrid

Naquele ano, Casemiro atuou pela equipe B do Real Madrid, se habituando ao futebol espanhol. Foi inscrito na UEFA Champions League, mas não atuou. Teve um “gostinho” de jogar pelos profissionais em La Liga apenas. Participou dos 90 minutos na vitória contra o Bétis, jogando ao lado de Modric, na volância.

Primeira chance de Casemiro entre os profissionais do Real Madrid. (fonte: transfermarkt.co.uk)

No entanto, a diretoria do clube espanhol já via potencial no atleta, confirmando a compra junto ao São Paulo ao final da temporada. Era também período de troca de comando técnico no clube, com a saída conturbada de José Mourinho para a chegada do Italiano Carlo Ancelotti. Pela bagatela de 6 milhões de euros, Casemiro pertencial ao Real em definitivo.

 

Logo que se juntou ao time principal, na temporada 2013-14, o volante mostrou a sua marca, fazendo gols nos amistosos de pré-época. Inclusive em sua estreia diante do Bournemouth, da Inglaterra. Apesar do potencial, Casemiro teve poucas chances na temporada seguinte, num time que contava com volantes do nível de Xabi Alonso, Sami Khedira e Luka Modric. Ainda assim, o ex-jogador do São Paulo esteve presente em 27 partidas oficiais, sendo 12 no campeonato espanhol e 6 na Champions League.

“Jogo da vida” contra o Borussia Dortmund

Ao todo, Casemiro disputou apenas 145 minutos de 1170 possíveis, na UEFA Champions League. Mas, quem diria que, apesar dos poucos minutos, o rapaz não deixaria sua marca? O próprio volante afirma que nos 17 minutos que esteve em campo contra os aurinegros, foi o grande momento de virada em sua trajetória pelo Real Madrid:

“Eu sempre digo que contra o Borussia Dortmund nasceu tudo. É uma equipe que mudou minha vida. Vai ser sempre um capítulo especial. A sensação que eu tive contra eles é que nos 17 minutos que tive mostrei que poderia jogar no Real Madrid. Naquele momento, disse para mim mesmo: ‘Casemiro, você não pode perder esta oportunidade’. E não perdi.

 

Saldo positivo para um Casemiro em ascensão no Real

Apesar dos poucos jogos (total de 25 em 13/14), foi uma temporada gloriosa, já que o time conquistaria a décima Liga dos Campeões. E com gostinho a mais, pois o adversário foi o maior rival de Madrid, o Atlético. Casemiro chegou a jogar alguns minutos da segunda partida das semifinais, diante do Bayern de Munique. Em toda a campanha por “La Décima”, fez apenas um jogo como titular, na vitória por 4×1 diante do Galatasaray.

#Campeaooooooo

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Vale lembrar que o time ficou em terceiro lugar no Campeonato Espanhol daquele ano. Vencido pelo Atlético de Madrid e atrás também do Barcelona. Em contrapartida, conquistou também a Copa do Rei. Torneiro em que Casemiro se fez presente mais vezes, inclusive entrando nos minutos finais na decisão diante do rival da Cataluña.

Amadurecimento em Portugal

Com o título europeu, o Real Madrid se fazia ainda mais interessante para grandes jogadores. E foi assim que chegava ao clube meregue Toni Kroos, oriundo do Bayern. O atleta fora contratado por cerca de 30 milhões de euros. E vinha para a vaga deixada por Xabi Alonso, que fazia o caminho inverso, para jogar no gigante da Baviera.

Desta forma, a concorrência para Casemiro era ainda maior, pois o clube optava por apenas dois volantes. Ainda tinha Illarramendi para a posição. Entre ficar com um volante não comunitário e outro regional, o treinador italiano optou por manter o espanhol. Com as chegadas de James Rodriguez e Keylor Navas, o real ficaria com excesso de extracomunitários. Sobrou para Casemiro. A solução foi emprestá-lo para o Porto, com opção de compra ao final da temporada. Assim, o brasileiro teria mais chances de jogar e se desenvolver.

 

Muitos diriam que sair do então campeão europeu rumo a uma liga de menos prestígio seria um passo errado na carreira. Mas, para Casemiro seria a oportunidade que faltava para confirmar sua maturidade como jogador profissional.

Tornando-se referência

No Porto, Casemiro formou uma dupla de volantes sólida ao lado do mexicano Héctor Herrera. Esteve presente em 28 jogos do Campeonato Português e ficando de fora de apenas duas, das doze partidas do clube português na Liga dos Campeões (o Porto foi eliminado nas quartas de final daquela temporada, para o Bayern de Munique).

 

Ao todo, Casemiro participou de 41 jogos pelo Porto, marcando 4 gols. Uma marca impressionante para um estreante. E, por isso, o clube Português exerceu sua opção de compra, mantendo o atleta em definitivo.

 

Foi aí que algo inusitado aconteceu. Carlo Ancelotti deixava o Real Madrid. O espanhol Rafa Benítez, que assumira a posição do italiano, decidiu que queria Casemiro em sua equipe. Para tanto, o Real Madrid precisou pagar ao Porto cerca de 25 milhões de euros pela quebra de contrato. De jovem talento indisciplinado e escanteado pelo São Paulo, Casemiro precisou de apenas 02 anos para mostrar seu valor na Europa. O poderoso Real Madrid testou o volante de tudo que é jeito, e o brasileiro passou com louvores.

Casemiro estava de volta à Madrid, onde viria brilhar.

Consolidação na capital espanhola

Às vezes o destino prega peças nas pessoas. Somos capazes de imaginar as mais variadas realidades. Mas nenhuma delas, por vezes, será a que vivemos. Provavelmente este era o sentimento de Casemiro quando voltou para Madrid. Dado como transferível na temporada anterior, sem condições de espaço no meio campo do Real Madrid; não só retornava ao clube espanhol como seu contrato era expandido até o ano de 2021. Muitas provas de confiança da direção madrilenha. Só restava ao atleta ratificar o seu valor.

De seus concorrentes, Khedira migrava para a Juventus e Illarramendi se transferia para a Real Sociedad. A disputa por uma vaga no meio campo diminuía. Porém ainda havia os gigantes Luka Modric e Toni Kroos, titulares absolutos (por puro mérito). Durante a primeira metade da temporada, Casemiro era exatamente isso, reserva para a dupla titular.

Exemplo de formação sob o comando de Benítez. Com Modric e Kroos de volantes, dificilmente Casemiro entraria como titular. (fonte: transfermarkt.co.uk)

Jogando em uma formação com 2 volantes e 3 armadores, Benítez optava por maior ação de ataque e mobilidade do meio-campo. Entretanto, sua forma de conduzir a equipe não surtia muito efeito. O time não tinha um padrão de jogo adequado, sofrendo para conseguir resultados. Sofrera algumas derrotas pesadas, inclusive um 4×0 para o Barcelona no Santiago Bernabéu. Para piorar, o time fora desclassificado da Copa do Rei por usar o meia Cheryshev de forma irregular.

Como não dava sinais de melhora, após um empate com o Valência, em janeiro, Rafa Benítez era demitido. E, para seu lugar, o então treinador do real Madrid B, o Castilla, assumia a posição. Ninguem menos que Zinedine Zidane, ídolo do time e que viria transformar a carreira de Casemiro. Demorou alguns jogos até que Zizou encontrasse o ponto certo. O time vinha jogando bem, conquistando algumas vitórias, até goleadas, mas ainda não possuía o equilíbrio no meio campo que o time precisava.


Leia mais: Zidane e a herança maldita de Benítez


A hora de Casemiro

Então, em 02 de março de 2015, Casemiro entrava no time do Real Madrid para nunca mais sair. O jogo era diante do Levante, em Valência. Casemiro faria a função de volante substituindo Modric. Sua atuação permitiu que o time tivesse mais mobilidade no ataque, mantendo a segurança da defesa. Tanto que, daquele momento em diante, Zidane mudou a formação do time, que se habituara a atuar no 4.2.3.1, para o 4.3.3, com Casemiro atuando entre o meio e a defesa.

À esquerda, a primeira vez que Casemiro conseguiu sair como titular, com Zidane. À direita, a estreia de Zizou no comando do Real na Champions League, contra a Roma. Casemiro jogando em sua vaga definitiva entre os titulares dos Galáticos. (fonte: transfermarkt.co.uk)

A facilidade com que o atleta assumia a função parecia que ele atuava já, por ali e como titular, por muito mais tempo. A formação permitia mais liberdade aos laterais, sobretudo do lado esquerdo com Marcelo. E dava condições a Modric e Kroos de chegarem mais ao ataque, diminuindo suas obrigações defensivas.

Números

Com Casemiro, a taxa de passes errados diminuiu bastante. A bola circulava com mais proximidade entre os jogadores, o que também contava com maior posse de bola para o time madrilenho. Segundo o site Whoscored, na temporada 2015-16 o jogador teve um acerto de passes, na Liga espanhola, de 87,2 %. E na Liga dos Campeões esta taxa era ainda melhor, de 88%.

Zidane ganhava um “cão de guarda” de qualidade, e Casemiro afirmava seu “conto de fadas” no futebol.

 

O sucesso era tanto que, de time sem confiança, o Real Madrid passou a grande favorito a tudo. E, desta forma, conquistava mais uma vez, novamente sobre o Atlético de Madrid, a Liga dos Campeões da Europa. Logo no início desta partida, Casemiro quase abria o placar, não fosse uma intervenção magnifica de Oblak, goleiro adversário.

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Por fim, em uma disputa de pênaltis, após o 1×1 no tempo normal, o Real venceu por 5×4. Segundo ainda o Whoscored, Casemiro foi o segundo melhor jogador da partida, ficando atrás apenas de Gareth Bale. Por pouco não conquistou a La Liga, ficando em segundo lugar, apenas 1 ponto do campeão Barcelona.

Ao todo foram 17 partidas como titular no campeonato espanhol e 10 na liga dos campeões. Casemiro mostrava que estava ali para ficar. Na temporada 2016/17, Casemiro manteve o status de titular do time de Zidane. Com ele, o time de Madrid sagrou-se campeão de La liga e da Liga dos Campeões.

O Real Madrid de Cristiano, Kroos, Modric e Casemiro é o time da atualidade a ser batido.

A inesquecível Liga dos Campeões 2016/17

Se aparentemente Casemiro ainda necessitava se afirmar como referência da posição, após a temporada 2016/17,  o volante está no topo do futebol mundial. Vencer a Liga dos Campeões, marcando gol na final, mostra o quanto aquele jovem indolente do São Paulo evoluiu. Foi uma vitória sonora conquistada pelo Real Madrid. 4×1 frente uma Juventus que, durante o primeiro tempo, mostrou porque dividia os holofotes no jogo.

Mas o Real Madrid é um time completo, o melhor time do mundo. Fez o que quis no segundo tempo. O jogo retornava do intervalo em 1×1, mas foi de Casemiro o gol que colocou o Real com a mão na taça. Depois foi só ver o monstro Cristiano Ronaldo marcar novamente, e Asensio fechar o placar.

Bicampeão Espanhol e Europeu de maneira consecutiva. Nada mau para um jogador que seria devolvido do emprestimo ao São Paulo. Pelo menos isso era o que diziam seus críticos à epoca da transferência. Casemiro trabalhou duro e deu a volta por cima no Real, agora resta a Seleção Brasileira em termos de ratificar seu papel de protagonista no futebol mundial.

 

Seleção Brasileira

Sua campanha com o Real Madrid não poderia deixar de gerar oportunidades na Seleção Brasileira. Casemiro, como citado antes, fez parte da seleção sub-20 de 2011, ganhando títulos com o grupo. Conquistou o Sul-Americano e o Mundial em 2011, além da medalha de prata nos Jogos Olimpicos de Londres. Estreou pela seleção principal no mesmo ano, diante da Argentina, para o Superclássico das Américas. Contando com jogadores locais, entrou no segundo tempo, sob comando de Mano Menezes.

Desde então, o volante já foi convocado 22 vezes, atuando em 19 oportunidades. Com Dunga, fez parte dos convocados para a Copa América de 2015, mas não chegou a atuar. A seleção seria eliminada nos pênaltis pelo Paraguai, depois de uma campanha vexatória, na fase de quartas de final.

A era Tite

Somente com a chegada de Tite que Casemiro assumiria posição e destaque no time do Brasil. Assumindo posição semelhante a que executa no Real Madrid, garantindo proteção à defesa e qualidade na saída de bola do time. O volante chegou para suprir uma carência tão criticada nos tempos Dunga.

Desde que Tite assumiu o comando da Seleção Brasileira, Casemiro só esteve de fora por conta de lesão. Afora isto, foi titular em todas as partidas.

 

Sua qualidade em campo, sua boa visão de jogo aliada a marcação forte e troca de passes precisos, provoca elogios até mesmo de adversários. Cholo Simeone, treinador do Atlético de Madrid e ex-volante – um especialista na função que Casemiro exerce -, teceu elogios ao brasileiro pouco antes da final da Liga dos Campeões de 2015/16:

“O Casemiro mudou a cara do time. Com Casemiro passaram a ter a possibilidade de marcar e contra-atacar”.

Massimiliano Allegri, outro especialista em montar esquemas defensivos, também se derramou em elogios antes de ser batido por Casemiro na final da Liga dos Campeões 2016/17:

“Fala-se muito em Isco e Bale, mas para mim seria mais importante que Casemiro não jogasse. Ele é o homem que tem dado equilíbrio à equipe do Real e, para mim, é fundamental. Não é, tecnicamente, o melhor jogador do Real Madrid, mas seu estilo de jogo é básico, fundamental porque dá este equilíbrio que nenhum outro jogador pode dar. Desde que Casemiro é titular, o Madrid mudou muito [a forma de jogar]”

Sucesso por caminhos tortos

A trajetória de Casemiro é um alento para o futebol brasileiro. Não apenas por nossa carência em relação a qualidade do jogo dos bons volantes. Mas também por mostrar que é possível um jogador recuperar o bom caminho profissional, basta trabalhar duro para isto. Aos 25 anos, o jogador já figura como um dos principais jogadores do Real Madrid e da Seleção Brasileira. E tem um futuro brilhante pela frente.

Basta ele seguir o próprio exemplo dentro de campo: dar equilíbrio a própria vida como faz tão bem no Real e na Seleção Brasileira.

Comentários

Natural de Belo Horizonte. Torcedor do Cruzeiro e da Juventus. Um Doente por Futebol. Desde pequeno um apreciador do esporte mais popular do mundo, preferindo mais em acompanhar do que jogar (principalmente por não ter talento algum com a bola).