A origem e os segredos da fábrica de volantes do Corinthians

  • por Mauricio Fernando
  • 8 Anos atrás

O ano de 2008 representa muito para o Corinthians. Foi o da reestruturação de uma equipe arrasada por um rebaixamento que parecia inacreditável. Mano Menezes foi chamado para a missão de trazer o Timão de volta à elite do futebol nacional e, mais do que isso, recuperar a auto-estima de clube e torcida. Para isso era preciso tempo e, aos poucos, Mano foi montando o elenco a seu gosto, e o resultado começou a aparecer. Uma primeira grande chance: final da Copa do Brasil, porém, acompanhada de novo “trauma”, derrota para o Sport.Ainda faltava algo, novos jogadores foram contratados, e uma posição em especial passou a ser tratada com atenção: a volância. Setor que tem se mostrado cada vez mais importante e evoluiu na proporção do dinamismo do nosso futebol, com jogadores cada vez mais completos, que não só marcam, protegendo a defesa, como acontecia antigamente, mas que também auxiliam na saída de bola, criação de jogadas e muitas vezes aparecem na frente finalizando com qualidade.

Seguindo esta linha, Elias foi contratado para a Série B. Finalista do Paulista daquele ano jogando pela Ponte Preta, havia se destacado na competição, chamando a atenção corintiana. Não demorou a mostrar suas qualidades e logo caiu nas graças da Fiel. Porém, o ex-ponte-pretano era segundo volante, e ainda faltava um complemento, um volante de maior poder de marcação, e ele logo foi encontrado.

Cristian, criticado no Flamengo, surgiu como aposta. Chegou ao Timão em agosto do mesmo ano, com a série B em andamento, e encaixou como uma luva. A aposta virou solução. Cristian e Elias formaram uma dupla de volantes completa, vitoriosa e dos sonhos de qualquer treinador. Juntos, conquistaram todos os campeonatos que disputaram na equipe do início ao fim, Série B em 2008, Paulistão (invicto) e Copa do Brasil em 2009.

Com a boa campanha, propostas começaram a surgir para alguns jogadores, e o clube, prejudicado financeiramente pela gestão Dualib e o rebaixamento recente, teve de vender alguns deles. Cristian recebeu proposta do Fenerbahçe da Turquia e acabou sendo vendido (junto com André Santos). Sua saída foi bastante triste para a torcida corintiana – o volante guerreiro se despediu aos prantos. Identificado com o clube, prometeu voltar um dia. Mas, com sua saída, era preciso achar um substituto. E ele surgiu, na hora certa.

Primeira partida do Corinthians no Brasileiro de 2009, frente ao Internacional, Cristian ainda estava no clube, e foi um dos poucos titulares a atuar naquela partida, devido à proximidade das finais da Copa do Brasil, e pode acompanhar de perto a estreia daquele que seria seu sucessor: o menino de nome estranho, Jucilei, recém-chegado do Corinthians Paranaense, fruto de uma parceria do clube paulista com o homônimo do Paraná. Apesar da pouca idade e de ter vindo de um time de pouca expressão, mostrou logo na estreia, que não se intimidaria com a pressão do grande clube e, mais do que isso, deu um esboço do que viria a apresentar na sequência. Mais um grande talento que veio a ser lapidado.

Juntos, Elias e Jucilei não conquistaram títulos, mas foram fundamentais na campanha do brasileiro de 2010, em que a equipe brigou pela taça até o fim, terminando na terceira posição. Durante a campanha, ambos receberam a primeira chance na seleção brasileira, já comandada por Mano Menezes, ex-comandante do Corinthians, que assumiu o Brasil em agosto daquele ano.

Enquanto isso, o Timão pós-Mano sofria um pouco para encontrar um novo treinador. Adílson Batista, curiosamente um treinador adepto a um time repleto de volantes, não logrou êxito no clube e durou pouco tempo. Logo foi demitido, e o verdadeiro sucessor de Mano chegou, com um pouco de atraso. Adenor Leonardo Bacchi, o Tite. Foi com ele, que o time reencontrou seu caminho no fim de 2010. Porém, com a bobeira no fim do Brasileirão, a equipe acabou por conquistar a vaga apenas na pré-Libertadores. Ao final do ano, uma perda ainda seria sentida. Elias se transferiu para o Atlético de Madrid-ESP em outra triste despedida.

No início de 2011, Tite tinha duas opções para substituir Elias. Mal sabia ele que se tratavam de jogadores que viriam a ser fundamentais futuramente. Ralf e Paulinho chegaram ao clube em 2010, vindos de equipes do interior paulista (Grêmio Barueri e Bragantino, respectivamente) e atuaram com frequência naquele ano, mas ainda não haviam alcançado a titularidade. Naquele momento, Ralf veio a ser o escolhido como novo titular, substituindo Elias.

Um novo trauma veio à tona: eliminação na pré-Libertadores para o Tolima-COL, e após a derrota, alguns jogadores se despediram do Corinthians, forçando a equipe a uma nova reformulação. Um destes atletas foi Jucilei, vendido ao Anzhi, nova força bilionária da Rússia, que também veio a contratar Roberto Carlos. Com a saída de Juça, o caminho estava aberto para Tite efetivar Paulinho no time e montar aquela que viria a ser a melhor dupla de volantes do futebol brasileiro dos últimos anos.

Ralf e Paulinho se completam. O primeiro, excelente marcador, e o segundo, mais completo e ofensivo, com finalização qualificada, acima da média para um jogador da posição. Para ilustrar esta característica, lembremos que Paulinho foi vice-artilheiro do Corinthians no Brasileiro 2011, com oito gols, e também vice-artilheiro da equipe na Libertadores deste ano, com três gols. Com estes atributos, a dupla alcançou o título brasileiro do ano passado e da tão sonhada Taça Libertadores da América deste ano. Ambos também chegaram à Seleção Brasileira e, inclusive, formaram ontem, pelo segundo ano consecutivo, a dupla de volantes titular do Brasil no duelo frente à Argentina na Copa Roca. Paulinho marcou um dos gols na vitória por 2×1.

A dupla, apesar de inúmeras propostas de outros clubes, especialmente europeus, segue no Timão, que, prevendo a possível perda de um deles, ou até de ambos, vem buscando alternativas, como Edenilson e Willian Arão, jogador da base, mas que não parece ser a solução. O mais próximo de substituí-los atualmente parece ser Guilherme, contratado junto à Portuguesa após uma longa novela. O início do jogador no clube de Parque São Jorge foi excelente, e seu futuro no time parece ser promissor. Terá ele o mesmo sucesso dos recentes volantes que passaram pelo clube?

Pois bem, observa-se que quase todos os volantes citados têm um fato em comum: chegaram ao Corinthians como apostas, e após criarem identificação com o clube e se destacarem, chegaram à seleção. Sorte? Coincidência? Competência para observar estes talentos? Talvez um pouco disso tudo. Certamente não apenas obra do acaso. Há fatores que devem ser considerados, e eles merecem ser analisados.

Para começar, o clube aprendeu a importância de se ter bons volantes, importância esta já explanada no início desta matéria. Outro fator que pode ter contribuído para este fato é o estilo de jogo da equipe corintiana, semelhante desde a reestruturação feita por Mano Menezes – e não por acaso, quando o sucesso dos jogadores de meio começou a chamar atenção. Com a marcação começando no ataque, a vida dos cabeças-de-área é facilitada. Além disso, os segundo-volantes passaram a ser homens-chave na armação e conclusão de jogadas, fazendo com que as peças sejam trocadas, mas que o esquema siga funcionando.

E, obviamente, o principal fator é o de que nada disso funcionaria se os jogadores não tivessem talento e competência. Mérito do Corinthians, que soube lapidar como poucos os seus volantes.

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21 anos, morador de Maringá-PR. Corintiano de coração, aprendi ainda a ser Liverpool, na Europa. Como Doente por Futebol, acompanho diariamente jogos, jogadores e tudo o que acontece acerca deste apaixonante esporte. Minha função por aqui será de analisar e informar tudo o que rola na América do Sul e no México. Responsável ainda pelas colunas "Craque DPF" e "Futebol na Mídia".

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