Bipolaridade coral

Santa Cruz sofre para manter regularidade na Série C.

José Teodoro Bonfim Queiroz deveria ser unanimidade entre os torcedores do Santa Cruz. Após 658 dias de “gestão”, ele tem em sua passagem pelo Tricolor uma final em nível nacional, um acesso e dois títulos estaduais conquistados de forma inconteste contra o maior rival. Entretanto, os números frios não diminuem a desconfiança da torcida do Mais Querido com o seu comandante.

O auge de Zé Teodoro como comandante do Santa Cruz se deu logo em seu início. No Pernambucano de 2011, foi soberano. Com (muito) pouco material humano, fez a Cobra Coral liderar 16 das 18 rodadas da fase de pontos corridos do certame e conseguir um título estadual – o primeiro após cinco anos de muito sofrimento – que nem mesmo os tricolores mais otimistas esperavam. Louvado pelos torcedores, adorado pelos jogadores, o Santa iria à Série D daquele mesmo ano, na condição de favorito ao título e acesso.

No campanha do Brasileiro de 2011, o acesso e o segundo lugar não foram condizentes com a história do Santa Cruz no certame. Erros táticos, técnicos e de contratação permearam todo o caminho do Tricolor até o acesso. A equipe não possuía ataque – Gilberto e Landu, a dupla do Estadual, se separou (o primeiro, foi para o Internacional/RS; o segundo, desligado do elenco por questões pessoais) – e a zaga e peças fundamentais já não se mostravam tão seguros quanto nos áureos tempos do Pernambucano. O excesso de empates e o estilo defensivo da equipe não agradaram a torcida, que começou a criticar, ali, o trabalho feito pelo técnico do Santa. Apesar dos pesares, a equipe subiu. Com MUITO sofrimento. Mas a perda do título para o desconhecido Tupi, em pleno Arruda, serviu para escancarar as fragilidades da equipe. 2012 tinha que vir com reforços; tinha que começar diferente.

Em 2012, a bipolaridade persistiu. No primeiro turno do Estadual, o Santa Cruz amargava a sétima posição num campeonato de dez equipes. No segundo, arrancou de forma inacreditável para um título conquistado de forma mais inacreditável ainda – venceu o Sport em casa, no dia do aniversário do Leão, com o rubro-negro precisando do empate para se sagrar campeão. O título não mostra, porém, a insatisfação da torcida com algumas peças, cujo símbolo foi (e ainda é) o volante Chicão, homem de confiança do comandante e odiado por 99,9% da torcida coral. O estilo excessivamente defensivo do Santa fora – e, às vezes, dentro – de casa começou a chamar a atenção da torcida. Dali nascia a pecha de “retranqueiro” que é dada a Zé Teodoro até hoje.

Para o Brasileiro deste ano, o Santa cometeu os mesmos erros de avaliação. Manteve todas as principais peças e se reforçou, mas, novamente, errado. A falta de um lateral-direito decente, um volante que saiba sair pro jogo e de um meia de armação fizeram do Santa Cruz um time burocrático e sem condições de exercer um bom futebol dentro de seus domínio, além de medroso fora deles. Nas primeiras sete partidas, foram duas vitórias e cinco empates. Os torcedores se assustavam ainda mais quando recordavam a campanha do Fortaleza de Zé na Série C 2010 (duas vitórias e oito empates, e o Fortaleza, apesar de favorito, saía da competição na primeira fase). Apesar dessa montanha-russa de altos e baixos, nada é tão bipolar quanto os últimos cinco jogos do Santa nesse campeonato. Nos dois jogos dentro de seus domínios, foi arrasador e conquistou os seis pontos: 4×1 no Icasa e 6×0 no Águia de Marabá. Nos três jogos fora, um ponto, conquistado contra o lanterna Guarany de Sobral. O Santa oscila vai do brilhantismo à mediocridade de forma impressionante, o que se reflete nos torcedores – e na classificação. O terceiro lugar atual garante o G-4, mas não a tranquilidade. Enquanto isso, os corais assistem Luverdense e Fortaleza dispararem na tabela.

Os torcedores se vêem diante da incerteza…sabem a escalação de cor e salteado, mas não o Santa Cruz que entrará em campo. Sabem é que muito dessa oscilação vem do trabalho do técnico. Seja na questão de como o time se porta fora de seus domínios, seja na questão de colocar alguns jogadores de técnica duvidosa para a titularidade absoluta. Eles torcem para que o Santa Cruz, daqui em diante, seja o Tricolor do 6×0 no Águia e do 4×1 no Icasa. Torcem para que o time faça jus à folha salarial três vezes maior que a média dos times da Terceira Divisão. Sabem que o futuro do time depende disso: Dos dois Santas que aí existem. Um fará o time chegar ao tão sonhado acesso; o outro manterá a equipe mergulhada no ostracismo do futebol brasileiro.

Qual Santa Cruz vencerá ao final do ano?

Roberto Dantas

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Jornalista recifense, sócio-diretor do Doentes por Futebol, editor da Revista Febre. Curioso observador de tudo o que cerca o futebol brasileiro e internacional.

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