Safra premiada

Cheia de craques em potencial, Bélgica promete boas campanhas na próxima década.

No futebol, há países que são verdadeiras potências. Isso fica evidenciado quando se observa o histórico de campeões da Copa do Mundo. Um “clubinho” domina boa parte dos títulos: Brasil, com cinco, é o maior vencedor; a Itália vem logo atrás com quatro. Alemanha tem três; Uruguai e Argentina possuem duas taças; e Espanha, Inglaterra e França, uma cada. Uma distribuição de títulos nada equânime.

Há também países que não têm tantos títulos, mas que marcaram o mundo com um futebol agradável e competitivo. Ficaram no “quase”, mas deixaram sua marca na história do esporte bretão. Exemplos clássicos são a Laranja Mecânica de 74 e 78, a Hungria da década de 50, a “Dinamáquina” de 92, a Croácia de 98, a Bulgária e a Romênia de 94, entre vários outros, em maior ou menor escala. A Bélgica nunca se enquadrou em nenhum dos dois grupos. Apesar de já ter tido alguns jogadores notáveis, fez figuração na maioria dos torneios que disputou, ressalva feita às boas campanhas feitas na Euro-80 e na Copa de 86. Mas tudo pode mudar de panorama quando uma geração de vários jogadores talentosos se consolida. Essa é a esperança belga para dias melhores.

O fato é que poucas vezes – quiçá, nunca antes – o futebol belga teve tantos jogadores de qualidade reconhecida. Os outrora jovens valores belgas se tornaram, ao longo da última janela de transferências, protagonistas do mercado, movimentando milhões em algumas das vendas mais caras dos últimos anos. O referencial técnico da seleção é o meia-atacante Eden Hazard, contratado pelo Chelsea por uma fortuna. Referendado como a maior promessa do futebol europeu, o jovem foi o craque das duas últimas edições do campeonato francês e conduziu seu clube anterior, o Lille, ao título nacional na temporada 2010/11. Seu início avassalador no clube inglês já aponta para um cenário que antes só os fãs da Ligue-1 conheciam: o menino já é realidade.

Além de Hazard, o time possui excelentes coadjuvantes: Vincent Kompany, capitão do “novo rico” Manchester City, e Thomas Vermaelen, capitão do Arsenal, formam um miolo de zaga fortíssimo, que, além de possuir ótima qualidade técnica, tem também muita bagagem e experiência em grandes campeonatos. Outro defensor bastante técnico é Jan Vertonghen, recém-comprado pelo Tottenham junto ao Ajax, onde conquistou o campeonato holandês e se consolidou como um dos grandes destaques da liga nacional. O Tottenham conta ainda com outro belga recém-contratado, o meia Moussa Dembélé, ex-Fulham, que chegou ao clube para substituir ninguém menos que Luka Modric, que acaba de partir para o Real Madrid. A Premier League terá também a participação de outros destaques da atual safra do país baixo: o goleiro Simon Mignolet, do Sunderland; e Marouane Fellaini, meia central, dono de boa qualidade técnica, excelente porte físico e de uma vasta cabeleira. O atacante Romelu Lukaku, que aos 16 anos surgiu como um furacão no Anderlecht, está emprestado ao West Brom pelo Chelsea, que certamente ainda aguarda pela maturação do jovem goleador.

A geração belga conta também com protagonistas em outros campeonatos importantes da Europa. Axel Witsel e Steven Defour brilharam no futebol português nas últimas temporadas, respectivamente no Benfica e no Porto. O primeiro, após despertar o interesse de vários grandes clubes do Velho Continente, se transferiu para o russo Zenit. Na estrelada Liga Espanhola também há espaço para outro destaque belga: o goleiro Thibaut Courtois, do Atlético de Madrid, que tem sido peça importante dos colchoneros e participou ativamente das recentes conquistas européias do clube (Liga Europa e Supercopa). Há espaço até para um brasileiro naturalizado, Igor de Camargo, que brilhou no Genk e no Standard Liège antes de se transferir para o Borussia Mönchengladbach, da Alemanha.

Existe um adágio popular que serve bem ao atual momento da seleção belga: “grandes poderes geram grandes responsabilidades”. Com uma geração recheada de grandes talentos, o futebol belga já é obrigado a conviver com a pecha de “sensação” das Eliminatórias Européias para a Copa do Mundo – que, para os belgas, começa hoje, contra a Croácia . Logo, a pressão para a obtenção de resultados será enorme.

Nada que pareça intransponível para Eden Hazard e seus companheiros.

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Jornalista recifense, sócio-diretor do Doentes por Futebol, editor da Revista Febre. Curioso observador de tudo o que cerca o futebol brasileiro e internacional.

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