Só Neymar salva

Como o craque santista se tornou imprescindível à seleção e ao seu clube.

 

Por Pedro Galindo

Que a seleção brasileira passa por momento de grande instabilidade, não é novidade pra ninguém. É muita a desconfiança sobre o time de Mano Menezes, cujo futuro no comando da seleção parece cercado de incertezas. Neste contexto, o treinador não pode nem pensar em abrir mão de jogadores importantes, pois uma derrota ou até mesmo uma má atuação pode significar sua demissão.

Por sua vez, quem acompanha o Brasileirão sabe também que o Santos está em maus lençóis desde o início do certame. Com a convocação de Rafael Cabral, Ganso e Neymar para os Jogos Olímpicos, o alvinegro perdeu jogadores-chave e, por várias rodadas, tornou-se um time de desempenho cambaleante, cheio de problemas em quase todos os setores do campo – que se agravaram com a convocação de Arouca para os últimos amistosos da seleção. Com os maus resultados, logo surgiu a ameaça do rebaixamento.

Os problemas de Santos e Seleção são muitos. Mas o herói de ambos é o mesmo: Neymar. Enquanto Mano Menezes o vê como maior referencial técnico do time e peça imprescindível para o bom rendimento coletivo, Muricy Ramalho depende visceralmente de sua Joia para escapar do descenso – e salvar seu emprego e sua reputação.

A título de análise, é possível dividir a campanha do Santos neste Brasileirão entre os jogos em que o clube pôde contar com Neymar e os jogos em que o craque esteve ausente. A diferença é gritante: com seu herói em campo, o Santos jogou nove partidas e conquistou seis vitórias, dois empates e apenas uma derrota. Aproveitamento de 74,1%, superior ao do líder Fluminense (70,7%). Nesses jogos, Neymar não só esteve em campo, mas foi decisivo em todos eles: marcou oito gols e deu cinco assistências. Um desempenho monstruoso, que garantiu 20 dos 33 pontos conquistados pelo Peixe. Por outro lado, sem Neymar, o clube conquistou apenas 13 pontos em 42 disputados. Desempenho superior apenas às campanhas de Atlético-GO e Palmeiras, os dois últimos colocados do Brasileirão.

A seleção brasileira, sob muita pressão, também conta muito com o futebol de Neymar para escapar da crise. Artilheiro da Era Mano Menezes, a Joia santista também tem boas marcas individuais no ano de 2012: são 08 gols e 10 assistências em 13 jogos. Números que o credenciam ao papel, talvez um pouco prematuro, de principal jogador do país. E que explicam também o surgimento de um mal que afeta o desempenho e a confiança dos times que têm o luxo de poder contar com o craque: a “Neymardependência”.

Trata-se do maior problema a assolar tanto a Seleção quanto o Santos, este último em maior escala. Vivendo uma rotina extremamente estafante, ainda em setembro o craque já beira os 50 jogos no ano. Entre Santos e Seleção, a Joia chegou a jogar duas partidas em menos de 36 horas (amistoso na Suécia contra o time da casa e jogo contra o Figueirense). Ainda assim, consegue manter números espetaculares: já são 44 gols e 27 assistências na temporada. Performance que justifica a dependência, mas que traz à tona alguns questionamentos.

O primeiro deles é uma pulga incômoda atrás da orelha do presidente do Santos: ainda é economicamente vantajoso manter Neymar? Indiscutivelmente, o desempenho do craque dentro de campo faz valer cada centavo. Mas será que vale a pena manter um jogador tão caro e que frequentemente desfalca o time? Segundo alguns rumores divulgados recentemente na imprensa, já há na Vila Belmiro quem pense dessa forma e defenda a venda do craque no ano que vem. Sobre o trabalho de Mano Menezes, cabe outra pergunta: está sendo correta a atitude do treinador de jogar essa enorme pressão nas costas de um jovem de 20 anos recém-completados? Por mais que Neymar seja um prodígio que já tem longa convivência com os holofotes do protagonismo, a tradição de cinco títulos mundiais é pesada demais para qualquer um. Seria ele o jogador mais indicado para liderar nossa seleção multicampeã? E, por último, um questionamento ao próprio Neymar: é saudável esse ritmo intenso de jogos, viagens, baladas e gravação de anúncios comerciais? Até que ponto isso poderá atrapalhar a consolidação da nossa principal estrela?

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Jornalista recifense, sócio-diretor do Doentes por Futebol, editor da Revista Febre. Curioso observador de tudo o que cerca o futebol brasileiro e internacional.

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