Um olhar inesperado sobre o futebol

Como o futebol pode explicar situações muito além das quatro linhas.

 

Por Pedro Galindo

O esporte mais popular do mundo, que desperta tantas paixões, certamente não deixaria de provocar reações iradas de seus críticos. Há quem chame o futebol de alienação. Há quem veja, numa partida, “vinte e dois homens correndo atrás de uma bola”, ou até mesmo uma “pelada” qualquer em uma final de campeonato, que pode estar selando os destinos de todos os 22 futebolistas em campo. E das comissões técnicas. O que muitos críticos não veem, entretanto, é que o futebol pode representar, com verossimilhança, contextos muito mais profundos, de caráter étnico, religioso, político, etc. É isso que Franklin Foer analisa, com muita propriedade, em seu ‘Como o futebol explica o mundo – Um olhar inesperado sobre a globalização’ (Jorge Zahar Editores, 2005).

O livro propõe, através de vários exemplos, discutir alguns dos casos em que o futebol tem muito mais importância do que creem seus detratores. Por ser um esporte tão popular e agregar, simultaneamente, várias outras paixões, às vezes alguns males vêm junto: violência, radicalismo, preconceito, ignorância e uma enorme gama de outros vícios do nosso mundo. Tudo isso potencializado pelo frenesi de uma partida que pode – em muitos casos, literalmente – ser explosiva. Está aí, portanto, o quadro perfeito para que velhos rancores encontrem seu acerto de contas: exatamente o caso da rivalidade entre Celtic, católico, e Rangers, protestante, ambos da cidade de Glasgow, na Escócia. Em um país historicamente marcado pelos conflitos de natureza religiosa e política, o futebol não poderia nascer em outro contexto, e seus dois maiores clubes se polarizaram em torno das duas crenças. E evidentemente, toda a intolerância que sempre se fez presente migrou também para o ‘Old Firm’, como é chamado o clássico entre os dois times. Centenas de torcedores já morreram e toda a cidade já sofreu diretamente as consequências trágicas de um confronto que extrapola muito as quatro linhas do gramado.

Além do clássico escocês, o autor cita outros exemplos, como o conflito de natureza étnica entre torcedores do Partizan Belgrado e do Dinamo Zagreb, ambos da extinta Iugoslávia, que protagonizaram algumas das maiores pancadarias da história do esporte: motivadas pela luta croata por autonomia e catalisada pela paixão futebolística. Menciona também o futebol iraniano, que se vê em meio a um conflito entre aiatolás conservadores e a modernidade. Até mesmo a rivalidade entre Corinthians e Palmeiras aparece nas páginas do livro, por representar com muita propriedade uma “luta de classes” entre as duas torcidas. Enfim, o autor propõe um debate muito qualificado sobre como o futebol às vezes é muito mais sério até mesmo do que nós, doentes por futebol, acreditamos ser.

P.S.: O Rangers, por motivo de falência, parou suas atividades no final da temporada passada. Foi comprado por um empresário: passará a se chamar ‘The Rangers FC’ e hoje disputa a quarta divisão nacional.

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Jornalista recifense, sócio-diretor do Doentes por Futebol, editor da Revista Febre. Curioso observador de tudo o que cerca o futebol brasileiro e internacional.

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