A falta de brio da Alemanha atual.

  • por Igor Leal da Fonseca
  • 8 Anos atrás

É senso comum: a Alemanha tem uma das gerações mais talentosas do mundo da bola na atualidade. Tem no banco de reservas opções de jogadores que seriam titulares em várias equipes do mundo. Ao contrário da Alemanha histórica, é um time que joga pra frente, solto, com a bola de pé em pé. Mas ao contr

ário da Alemanha de sempre, não ganha título.

Após o título na Euro 96, a Alemanha despencou ladeira abaixo no futebol de Seleções: caiu nas quartas da Copa de 98 de forma vexatória e foi eliminada na fase de grupos das Euros de 2000 e 2004. A única campanha digna de Alemanha foi a chegada à final da Copa do Mundo de 2002, mas mesmo essa campanha tem que ser olhada como é: foi uma campanha fraca, sem ter pego nenhum time grande antes da final, e no primeiro que enfrentou, caiu.

Após o fiasco na Euro 2004, vários responsáveis pelo futebol alemão se reuniram para estudar formas de voltarem aos anos dourados e de acompanharem as evoluções táticas apresentadas por todas as equipes. Constatou-se que a base do futebol alemão estava destruída, que os times não revelavam talentos – época de Bundesliga decidida por jogadores medianos de outros grandes centros (Aílton, Makaay, Cacau, entre outros) – e que tudo isso explodia mais em cima, nos clubes e nas seleções. Clubes alemães ficaram mais de dez anos sem fazer final de competição europeia – entre 99 e 2010. O fundo do poço parecia não ter fim.

Então veio uma Copa do Mundo em casa, remodelação de vários estádios, construção de novos e a torcida abraçou novamente o selecionado, que conquistou um honroso terceiro lugar na Copa do Mundo, perdendo a semifinal apenas no final da prorrogação. Mas dentro do país, na base, as peneiras eram voltadas para o talento em vez do físico, privilegiando quem sabia jogar. Na Euro 2008, uma final de competição ainda com um time em renovação foi tratada como surpresa, o planejamento era para a Copa do Mundo de 2010.

Começa o Mundial e o mundo assiste, encantado, a uma Alemanha que tinha contra-ataques mortais, trocas de posições, muita posse de bola, enfim, um timaço. Duas goleadas seguidas (contra Inglaterra e Argentina) que encantaram os torcedores. Mas eis que chega a semifinal contra a Espanha e novamente os alemães não conseguem avançar à final. ‘’Não há de ser nada’’, dizíamos. ‘’É time novo, molecada, aguardem esses guris na Euro e mais os que estão vindo por aí’’. A média de idade era de 24 anos (mais baixa da Copa do Mundo ao lado de Gana e Coréia do Norte) e ‘’os que estavam vindo por aí’’ dariam ainda mais talento e ousadia para um time que encantou.

A base formada tinha jogadores como Klose, Schweinsteiger, Podolski e Lahm (já com Copas do Mundo disputadas no currículo), e jovens talentos como Özil, Müller, Marin, Kroos e Khedira. Na temporada seguinte após a Copa do Mundo, uma equipe alemã assombrou a Bundesliga e voltou a conquistar o título depois de 9 anos: o Dortmund de Hummels, Götze, Schmelzer e Großkreutz, que fornecia mais talento aos alemães. E a Alemanha tinha outros clubes revelando valores como Reus, Gündoğan e Schurrle. ‘’A Euro 2012 não escapa da Alemanha, dessa vez passam pela Espanha’’.

Veio a competição, o time venceu os três jogos da fase de grupos, mas não convenceu. Nas quartas, Löw tirou Podolski, Mario Gomez e Müller do time, promovendo a entrada de Reus, Schürrle e Klose. Resultado: um passeio em cima da Grécia, com a equipe apresentando um grande futebol. Vem a semifinal contra a Itália, Löw volta com Podolski e Gomez e coloca Kroos no lugar de Müller, desfazendo o time que tinha atropelado a Grécia nas quartas. O jogo seria contra a Itália, que tinha empatado três vezes em quatro jogos. “’Hora de exorcizarmos 2 fantasmas: os italianos e a semi final’’. Em 36 minutos de jogo, a Itália já vencia por 2×0, dois gols de Balotelli. No fim, a Alemanha ainda diminuiu, mas não foi suficiente. Nova queda na semifinal.

Começam as Eliminatórias para a Copa do Mundo, os alemães enfileiram três vitórias seguidas, sendo um 6×1 fora de casa contra a sempre chata Irlanda. “’Dessa vez vai, não tem nem como!” Até que….

16/10/2012, Estádio Olímpico de Berlim. Os comandados de Löw passeiam novamente nas Eliminatórias. Aos 15 minutos do segundo tempo, vencem a Suécia por 4×0. Reparem: faltando meia hora pro fim do jogo, a Alemanha vencia por quatro gols de diferença. Dos 17 minutos do segundo tempo até o fim do jogo, a Suécia fez quatro gols (o de empate apenas nos acréscimos) e o que se viu nos 15 minutos finais do jogo – a Suécia fez o terceiro gol aos 31 minutos do segundo tempo – foi uma Alemanha assustada com a marcação a pressão imposta pelos suecos, rifando bola, dando chutão e fazendo cera, até que em mais uma falha da zaga no jogo, a Suécia empatou.

Nunca na história da Seleção da Alemanha, o time havia desperdiçado uma vantagem de quatro gols. Essa foi a primeira vez em 104 anos de História da Seleção da Alemanha que o time teve vantagem de quatro gols em algum momento do jogo e não saiu vencedor. É, soou repetitivo, mas é um fato que me chamou atenção e motivou a escrever esse texto.

O time que jogava feio, baseado no físico e de forma pragmática se foi. Agora pratica um futebol vistoso, de aproximação, toque de bola e que agrada a todos que assistem (inclusive esse que vos escreve, que apostou no título da Euro 2012 após o atropelamento em cima da Holanda num amistoso no fim de 2011). Mas um pouquinho do chamado ‘’culhão’’ não faria mal, não é?

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33 anos, morador do Rio de Janeiro. Rubro Negro de coração, apaixonado pelo Maracanã, tem no Barcelona o exemplo de clube para o que entende como futebol perfeito, dentro e fora do campo. Estudioso da memória do futebol, tem nessa sua área de maior atuação no site, para preservar a memória do esporte. Dedica especial atenção aos times mais alternativos, equipes que tiveram grandes feitos, mas que não são tão lembradas quanto as maiores do mundo. Curte também futebol do centro e do leste da Europa, com uma coluna semanal dedicada ao assunto. Um Doente muito antes de fazer parte desse manicômio, sua primeira memória acadêmica é uma redação sobre o Zico, na qual tirou 10 e a mesma foi para o mural da escola. Nunca trabalhou com futebol dessa forma, mas adora o que faz junto com o restante do pessoal e se pergunta o porquê de não ter começado com isso antes. Espera recuperar o ''tempo perdido''. Acha Lionel Messi o melhor que viu jogar e tem em Zico, Petkovic e Ronaldo Angelim como heróis.