George Best, “Quinto Beatle”

  • por Lucas Amaral Nunes
  • 7 Anos atrás

Bêbado, mulherengo e polêmico. Porém, genial. Aos mexericos, saudosos habitantes da Irlanda do Norte relembram a graça de terem um dia tido como compatriota um dos maiores jogadores de todos os tempos. Local, aliás, onde um ditado é popular: “Maradona, good. Pelé, better. George, best” (Maradona, bom. Pelé, melhor. George, o melhor). O sobrenome sugestivo reverbera a realidade para seu povo. Maior ídolo de todo o Reino Unido, George Best é considerado uma lenda viva por torcedores e amantes do futebol.

“Um gênio”, estampavam jornais britânicos da década de 1960 e, mais tarde, diversos livros e biografias a seu respeito. Além de se destacar pelo futebol plástico e inteligente, que o credenciam como o melhor à sua época, o jogador fazia notar-se também pela conturbada vida pessoal. Autor de diversas frases célebres, frequentemente estampava capas de tabloides de fofoca ingleses, ora com belas mulheres em festas de gala, ora exibindo carros de luxo trajado em vestes brilhosas, mas em ambas as situações, com o torto sorriso de alguém que já havia bebido muito além da sobriedade.

Best chegou a Manchester United aos quinze anos, onde mais tarde seria imortalizado com uma estátua no Old Trafford, ao lado dos companheiros que junto a ele formaram o lendário trio George Best, Denis Law e Bobby Charlton.  O provocativo garoto subiu aos profissionais em 1963, sob o comando daquele que tentava reerguer os Reds após o acidente aéreo que tirou a vida de oito dos principais jogadores da equipe: Sir Matt Busby. Juntos, foram campeões da Copa da Inglaterra naquele ano. Foi o primeiro passo de uma caminhada extensa.

Tendo como pontos fortes o drible, a ousadia e a visão de jogo, Best foi um jogador muito à frente de seu tempo. Fintava em espaço curto com naturalidade instintiva, um dom à época tão comum aos brasileiros, mas raramente concedido aos britânicos. As comparações com o craque tupiniquim Mané Garrincha se tornariam inevitáveis com o passar dos anos, e perdurariam por eles ao longo de décadas.

O ano de 1966 seria lembrado por ele até o fim de seus dias. Campeão inglês no último ano, o mundo viria a conhecê-lo em definitivo após o jogo contra o poderoso Benfica, do hábil Eusébio, nas quartas de final da Copa dos Campeões da Europa. Busby ordenara cautela. Best, como de praxe, não obedeceu. Em pleno Estádio da Luz, o jogo terminaria com vitória do Manchester por 5 a 1, com três tentos do recalcitrante atacante irlandês. A partir desta data, chamaram-no “Quinto Beatle”, apelido que o acompanhava parte pela fama e aparência, parte pelo sucesso com a ala feminina inglesa.

Embora correspondesse no gramado, nunca foi unanimidade. Alcóolatra, viu sua postura questionada por diversas vezes, quando se atrasava para treinos e era fotografado em situações de queda por embriaguez e olhos vadios, por vezes fechados. Críticas, multas, suspensões… o melhor jogador do mundo vivia o auge de sua carreira simultaneamente ao apogeu de sua carreira boêmia.

É reconhecido por muitos como a primeira grande celebridade do futebol, cuja vida pessoal por ocasiões incontáveis se sobressaíam à performance esportiva. Ao fim de sua gloriosa carreira em Manchester, deixaria o clube e a cidade com uma Liga dos Campeões e dois títulos nacionais a mais com os quais se gabarem; além de um belo acervo de textos e imagens nos arquivos da imprensa local.

O álcool arrastou um dos melhores europeus à época ao modesto Stockport Country, depois ao Fullham, e ainda mais tarde aos Estados Unidos sob a sombra da vergonha. Encerraria ali, aos 38 anos, sua amotinada carreira, após algumas prisões, brigas em bares e a frustração de nunca ter disputado uma Copa do Mundo. Pobre, foi uma vez perguntado sobre o que o teria levado à falência. “Gastei muito dinheiro com mulheres e bebidas. O resto eu desperdicei”, anunciou.

George teve quatro filhos. Dois dos quais não confessava como dele. Apareceu embriagado em um show de TV, em 1990 e um ano após um transplante de fígado, noticiavam-se novamente suas noites de bebedeira nos jornais. Aniquilado pela cirrose, foi internado em 2005 em situação condenada. A esquelética figura daquele que foi um dia o grande astro do futebol mundial erguia um cartaz com os dizeres: “Não morra como eu”, em um último movimento em prol da humanidade. No momento derradeiro, sobre o tórax, uma carta, cuja assinatura ao final imprimia a declaração: “Do segundo melhor jogador do mundo, Pelé”. Com o papel em uma das mãos e o copo erguido na outra, declarou: “Este foi o meu último drinque”.

George Best

★ 1966 † 2005

Títulos 

Campeonato Inglês (2)

Copa da Inglaterra

Supercopa da Inglaterra (2)

Liga dos Campeões

Comentários

Lucas é jornalista desde 2011, mas o fanatismo pelo futebol o acompanha desde o berço. Aficionado por história, jogadores antigos e contemporâneos e causos e contos sobre o mais famoso esporte bretão. Participou de sites como o cruzeiro.org e o fanáticos por futebol. Atualmente atua como editor do futebol mineiro na Doentes por Futebol, onde também é o responsável pela coluna “Lendas do Futebol”.

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