O Criciúma dos Anos 90.

  • por Igor Leal da Fonseca
  • 8 Anos atrás

 

Muitos olham para a Série B atual e quando veem o Criciúma brigando por título se surpreendem com a campanha, já que desde 2004 a equipe não joga a Série A e nesse período de oito anos chegou a jogar a Série C. Mas não é dessa equipe que vamos falar, é da equipe que surpreendeu o país no começo dos a

nos 90, conquistando uma Copa do Brasil e vendendo muito caro uma eliminação na Taça Libertadores da América de 92.

O ano é 1991: a equipe do Criciúma é mais uma vez favorita ao título estadual (vinha de um bi campeonato), mas a torcida ainda tem na memória o fracasso na Série B em 90, quando a equipe fez grandes jogos e na última fase antes da final deixou o acesso escapar (o beneficiado foi o CAP). E, novamente, a decepção vem: no Brasileiro da Série B, a equipe é eliminada na 1º fase. A equipe de Luiz Felipe Scolari sofre grande pressão da torcida, pressão que não é atenuada nem após o time eliminar o Atlético Mineiro e avançar às quartas-de-final da Copa do Brasil.

Nas quartas-de-final, a equipe catarinense enfrenta o Goiás, tradicional equipe do Centro-Oeste do Brasil e que vem de um vice na edição da Copa do Brasil anterior. Além de bem mais rodada, a equipe goiana disputava a Série A do Brasileiro desde 1981 (exceção feita ao imbróglio de 87). No jogo de ida, no Serra Dourada, empate em 0x0. Na volta, um Heriberto Hulse lotado vê Gelson, Jairo Lenzi e Grizzo fazerem 3×0 para os donos da casa e a equipe avançar até a semifinal.

Na semifinal, o adversário é o Remo e sua fanática torcida, além do calor paraense, que cobraria um preço para a equipe catarinense. Mas faltando poucas horas para o jogo, desaba uma chuva torrencial no estádio e o clima fica mais favorável para a equipe de Felipão. O time vence por 1×0 e, na volta, faz 2×0, sem sustos. É a primeira participação de uma equipe de Santa Catarina na final da Copa do Brasil. O oponente dessa vez é o Grêmio, que encara aquela final como chance de um recomeço, pois a equipe gaúcha acaba de ser rebaixada para a Série B do Brasileiro.*

Na primeira partida, 32 mil pessoas vão ao Olímpico e veêm um empate em 1×1. A equipe do Grêmio começa pressionando o Criciúma, criando várias situações, mas não marca. Até que, pouco antes dos 15 minutos, Jairo Lenzi – herói da conquista – cobra escanteio fechado e o zagueiro Vilmar testa com estilo. Grêmio 0x1 Criciúma. A equipe gaúcha segue pressionando, mas o placar não se altera mais no primeiro tempo. Na volta do intervalo, o Grêmio continuou em cima, mas o Criciúma teve boas chances de ampliar, até que, aos 37 minutos, Marcio Rezende de Freitas apita uma penalidade que gera bastante reclamação da equipe catarinense. Maurício (ex-Botafogo) vai para a bola e dá números finais ao jogo.

No jogo da volta (num domingo), Heriberto Hulse lotado para a final, com mais de 20 mil pagantes. Numa partida truncada e de poucas chances – as melhores do Criciúma, inclusive uma trave – o Criciúma sabe jogar com o regulamento embaixo do braço e garantir o título inédito. O Criciúma é Campeão da Copa do Brasil 1991. Felipão deixa o clube após a conquista, mas a equipe ainda conquista o título estadual de 1991, garantindo o tricampeonato.

No ano de 1992, a esperança mais uma vez estava numa volta à Série A do Brasileiro. No começo de fevereiro**, começa a disputa da Série B e a equipe consegue bons resultados, avançando na competição. Em março, a equipe faz sua estreia na Taça Libertadores da América. E que estreia! Sem tomar conhecimento do São Paulo de Telê Santana – Campeão Brasileiro em 91 – o Tigre aplica um sonoro 3×0, com grande atuação de Jairo Lenzi. Telê Santana poupou Cafu e Raí para essa partida, talvez pensando em vitória tranquila.

Durante a fase de grupos, a equipe ainda vence o San José-BOL fora e dentro de casa, empata com o Bolivar-BOL, fora, e vence em casa, mas toma um passeio do São Paulo no Morumbi, 4×0. Mesmo com a acachapante goleada, os comandados de Levir Culpi conseguem avançar em 1º lugar na chave. Nas oitavas-de-final, contra o Sporting Cristal-PER, classificação tranquila, com duas vitórias, 2×1 fora de casa e 3×2 no Heriberto Hulse. E então vêm as quartas-de-final.

Em virtude do regulamento da Libertadores, não era permitido que mais de uma equipe por país disputasse uma semifinal. Então São Paulo e Criciúma se viram obrigados a jogar entre si nas quartas de final. No primeiro jogo, truncado, o primeiro tempo termina 0x0, sem grandes chances de lado a lado. No segundo tempo, a tônica da partida se mantém, até que o Criciúma tem Itá expulso de campo e passa apenas a se defender. O São Paulo pressiona de forma desordenada, até que Macedo – que começou no banco – acerta belo chute da entrada da área e dá números finais ao placar. Apenas 12.241 pagantes viram o jogo no Morumbi (http://placar.abril.com.br/libertadores/sao-paulo/materias/sao-paulo-comeca-libertadores-desinteressado-mas-leva-o-titulo-de-1992.html

).

No jogo de volta, mais de 20 mil pessoas viram Soares – de volta à equipe – receber cruzamento de Jairo Lenzi e abrir o placar ainda antes dos 10 minutos. Primeiro tempo corrido, chances de gol de lado a lado, bola na trave das duas equipes, mas o placar se mantém. Na volta do intervalo, o São Paulo volta pressionando e aos sete minutos empata. Após boa troca de passes, Palhinha recebe dentro da área, domina no peito e fuzila Alexandre. Após sofrer o empate, o Criciúma passa a pressionar o São Paulo e cria várias chances para fazer o segundo gol, mas não consegue. Classificação do São Paulo para a semifinal da Taça Libertadores. O time de Santa Catarina ainda tinha a disputa da Série B, na qual avançou até as semi finais, sendo eliminado pelo Vitória. Devido ao imbróglio da mudança de regulamento – que não temos a intenção de discutir nessa postagem – o Tigre voltaria a Série A.

Por questões de regulamento, o Criciúma não conseguiu o tetracampeonato estadual, mesmo após conquistar todos os turnos do campeonato. Uma derrota para o Avaí nas quartas-de-final da segunda fase encerrou a luta pelo tetra. Era o fim da equipe mais vencedora da história do futebol de Santa Catarina.

Time base: Alexandre, Sarandi (Jairo Santos), Vilmar, Altair (Vilsão) e Itá; Gélson, Grizzo, Roberto Cavalo; Soares, Jairo Lenzi, Roberto (Vanderlei).

Treinadores no período: Luiz Felipe Scolari e Levir Culpi.

*A partida que rebaixou o Grêmio foi disputada no dia 18/5/91 e o primeiro jogo da final da Copa do Brasil foi disputado no dia 30 do mesmo mês;
**O Campeonato Brasileiro das Séries A e B foi disputado no primeiro semestre nos anos de 91 e 92. Em 93, a disputa voltou a ser no segundo semestre.

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33 anos, morador do Rio de Janeiro. Rubro Negro de coração, apaixonado pelo Maracanã, tem no Barcelona o exemplo de clube para o que entende como futebol perfeito, dentro e fora do campo. Estudioso da memória do futebol, tem nessa sua área de maior atuação no site, para preservar a memória do esporte. Dedica especial atenção aos times mais alternativos, equipes que tiveram grandes feitos, mas que não são tão lembradas quanto as maiores do mundo. Curte também futebol do centro e do leste da Europa, com uma coluna semanal dedicada ao assunto. Um Doente muito antes de fazer parte desse manicômio, sua primeira memória acadêmica é uma redação sobre o Zico, na qual tirou 10 e a mesma foi para o mural da escola. Nunca trabalhou com futebol dessa forma, mas adora o que faz junto com o restante do pessoal e se pergunta o porquê de não ter começado com isso antes. Espera recuperar o ''tempo perdido''. Acha Lionel Messi o melhor que viu jogar e tem em Zico, Petkovic e Ronaldo Angelim como heróis.