Pluralismo em coma

Democracia e futebol: cada vez, mais distantes

 

Por Pedro Galindo

No último mês, o Newcastle United, tradicional clube da Premier League inglesa, anunciou um vultoso contrato de patrocínio com a Wonga.com, empresa ligada ao setor de empréstimos e acusada de praticar juros não lá muito amigos. Apesar de ter gerado alguma polêmica por parte de alguns críticos, que chamam a atividade da empresa de “agiotagem legal” (chega a cobrar juros de mais de 30% a.m.), ele tinha tudo para agradar aos torcedores: afinal, o contrato possui cifras nunca antes vistas pela diretoria do clube, que chegam ao dobro do valor negociado com a Virgin Money Finance, empresa atualmente estampada no uniforme. Além disso, com o novo patrocinador, o investimento nas categorias de base será aumentado e o atual contrato de “naming rights” será encerrado. Assim, o estádio do clube voltará a ser chamado pelo seu tradicional nome: Saint James’ Park. Mas a reação da torcida não foi bem a que se esperava: houve muitas críticas ao acordo em função das atividades da empresa, preocupação atualmente incomum no atual contexto de mercantilização absoluta do esporte.

As polêmicas apareceram também dentro das quatro linhas. De repente, um problema insólito se tornou o foco da discussão: Demba Ba, Papiss Cissé, Cheick Tioté e Hatem Ben Arfa, astros do time e seguidores do Islamismo, receberam advertência do Conselho Muçulmano Britânico, afirmando ser incompatível com a doutrina islâmica o ato de obter benefício direto ou indireto através de empréstimos financeiros. A crise ainda está por resolver-se e dentro do clube, cogita-se dar uma autorização para que os atletas citados usem uniformes sem a marca do novo patrocinador – solução que já foi usada pelo Sevilla em caso semelhante, quando o atacante Frédéric Kanouté se recusou a vestir a camisa do clube em função de um patrocinador ligado a jogos e apostas na internet. Esses são apenas dois exemplos de como pode ser delicada a relação entre o Islão, a segunda maior religião do mundo com cerca de 1,5 bi de seguidores, e o futebol, o mais ocidental e capitalista dos esportes.

Além dos casos pontuais citados, muitas vezes interpretativos, todos os anos os clubes de futebol que contam com atletas muçulmanos encaram uma situação difícil: os jogadores praticam o jejum característico do Ramadã, que no nono mês do calendário islâmico (que pode cair em qualquer época do calendário gregoriano, usado na maioria dos países ocidentais) os impede de se alimentar entre o nascer e o pôr-do-sol. Um exemplo famoso é o do malinês Mohammed Sissoko, hoje no PSG. Quando atuava na Juventus, o jogador chegou a perder a titularidade no clube por não ter condições físicas de jogar, em função do jejum. Todos esses casos podem ser resumidos em apenas uma realidade: o futebol, nascido no seio do povo, tem mostrado uma intolerância muitas vezes incompatível com a sua inequívoca vocação popular. E não só diante da diversidade de crenças: vários grupos étnicos, religiosos e políticos também sofrem com as pressões de um esporte que submeteu seus valores e princípios, seu espírito enfim, à sede insaciável do mercado.

Isso não aconteceu do dia para a noite. É fruto de um lento processo, que levou o futebol do amadorismo que o caracterizou durante suas primeiras décadas até a extrema comercialização dos últimos 20 ou 30 anos. A busca incessante por receitas muitas vezes se sobrepõe aos interesses esportivos dos clubes e atletas, principalmente as minorias políticas, religiosas e étnicas, que têm enfrentado bastante resistência para se integrar a um meio que, mesmo em expansão, lhes parece a cada dia mais fechado. Enquanto os interesses econômicos continuarem ditando a agenda das entidades ligadas ao futebol, o torcedor – originalmente, o principal interessado em tudo isso – vai continuar assistindo, inerte, à morte do pluralismo, o verdadeiro espírito do futebol.

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Jornalista recifense, sócio-diretor do Doentes por Futebol, editor da Revista Febre. Curioso observador de tudo o que cerca o futebol brasileiro e internacional.

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