Teófilo Cubillas, “Nenê”

  • por Lucas Amaral Nunes
  • 6 Anos atrás

Por Lucas Amaral Nunes

 

“Você tem planos para voltar a jogar a Copa do Mundo daqui a quatro anos?”, perguntou um nada discreto repórter, a uma ponta do microfone. À outra, ninguém menos que a estrela Édson Arantes do Nascimento, que retornava do México, onde disputou o seu quarto mundial, dos quais saíra com três conquistas. “Não”, respondeu o astro brasileiro, “mas não precisam se preocupar, pois já tenho um sucessor. Seu nome é Teófilo Cubillas”.

Embora não tenha alcançado o Rei em talento e fama, o peruano, que já havia sido a revelação da Copa de 1970, rubricou com gols o contrato verbal ali redigido por Pelé. Antes da Copa do Mundo, Cubillas era pouco conhecido ao redor do mundo, embora já escrevessem seu nome nos principais jornais do Peru e da América do Sul. Não era pra menos.

Em 1966, aos 16 anos, jogando pelo clube que amava e ainda hoje ama, tornou-se artilheiro do campeonato nacional abrilhantando os olhos e olhares de sua nação com um excepcional futebol raramente visto pelos compatriotas. Afinal, seu país estava longe de ser uma potência no esporte. Boatos contam que, desde seus primeiros anos, fantasiava vestir a camisa azul e branca do Alianza, e essa era a fonte de seu talento.

Fora apelidado de Nenê, tanto pela ausência de pelos em seu rosto quanto pela timidez inocente. Seus dribles e passes eram alinhados como os de um veterano, mas bastava um olhar mais atento e o semblante juvenil desmascarava um craque ainda em puberdade.  Não tardou a ganhar o respeito de jogadores e técnicos consagrados nacionalmente, e com isso, suas primeiras convocações, logo aos 19 anos. O treinador da seleção peruana era o ex-atacante Didi, que talvez hoje convivesse com um sentimento de culpa caso a equipe por ele regida eliminasse o Brasil, o que quase ocorreu pelos pés de Cubillas, em 1970.

Apesar da derrota, disputaria ainda duas Copas do Mundo. “O garoto é fantástico”, diziam comentaristas e narradores da época, que já o consideravam uma grande promessa do futebol mundial. A imprevisibilidade e a rapidez lhe eram peculiares, mas o que mais impressionava era a velocidade com a qual pensava as jogadas. “Você tentava adivinhar o que ele ia fazer e ele já tinha feito”, diria Germán Leguía, um de seus companheiros de seleção.

Ao fim da carreira, as estatísticas marcariam 268 gols, eternizando-o como um dos mais letais meias da história do futebol. Alguns deles, memoráveis, como aquele que marcara contra a Bulgária na vitória por 3 a 2, poucos dias após terremoto que havia matado cerca de 50 mil peruanos, e cedeu, mesmo que por alguns instantes, uma febre de sorrisos à nação em luto. Também são inesquecíveis os dois tentos sobre um aclamado Bayern de Munique, que lhe traria renome como “o homem que bateu Beckenbauer”. Outros como a falta batida contra a Escócia, lhe renderam elogios em todos os cantos do planeta, mas na América do Sul, em especial, Zico diria que foi uma cobrança perfeita, enquanto o goleiro Chilavert decidiu-se por iniciar treinamento para um dia igualar àquela cobrança.

Disputou a última copa em 1982. Coincidência ou não, sua aposentadoria significou também o fim dos anos de ouro da Seleção Peruana, que não voltou a disputar uma Copa do Mundo. Apesar de ter definitivamente se retirado das atividades como atleta, viu-se obrigado a retornar. O motivo: a paixão pelo clube. Após um desastre aéreo que tirou a vida de todo o elenco da equipe, desempenhou, durante a temporada de 1987, a função dupla de jogador e técnico. “Obrigado, Cubillas”, gritavam os torcedores do Alianza quando voltou ao gramado. E as lágrimas ainda lhe vêm aos olhos ao lembrar-se daquele dia, dando-lhe a certeza de que o amor platônico que dia o menino tivera tornara-se recíproco.

Teófilo Juan Cubillas

★ 1917

Títulos

Campeonato Peruano (4)

Campeonato Suíço

North American Soccer League

Copa América 1975

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Lucas é jornalista desde 2011, mas o fanatismo pelo futebol o acompanha desde o berço. Aficionado por história, jogadores antigos e contemporâneos e causos e contos sobre o mais famoso esporte bretão. Participou de sites como o cruzeiro.org e o fanáticos por futebol. Atualmente atua como editor do futebol mineiro na Doentes por Futebol, onde também é o responsável pela coluna “Lendas do Futebol”.

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