A Sampdoria do começo dos anos 90

  • por Doentes por Futebol
  • 5 Anos atrás

O Milan do período 87/94 é, seguramente, um dos times mais exaltados da história do futebol mundial. Embora sejam equipes com várias diferenças – algumas bem claras para os Doentes – a equipe italiana é sempre tratada como o “Milan dos holandeses”. Ignora-se troca de treinador, saída de jogadores, enfim, várias coisas, tudo em prol de exaltar os fe

itos dessa equipe. Não temos a menor intenção em diminuir os feitos desse(s) time(s), mas é necessário ver a realidade: existiram outras três grandes equipes no Calcio nesse período, embora apenas uma seja exaltada: o Napoli de Maradona, que conseguiu tirar dois Scudettos do time de Milão.Às outras duas, sempre foram reservados os papéis de meros coadjuvantes, embora as duas equipes tenham conquistado dois dos três títulos da Série A que podemos chamar de “menos disputados” do período. Uma ganhou o título com 11 pontos de vantagem para o vice-campeão, a outra ganhou com cinco pontos de vantagem. Falamos da Internazionale dos alemães Brehme, Matthaus e Klinsmann e da Sampdoria do goleiro Pagliuca, da dupla Vialli e Mancini, do carequinha Lombardo e do brasileiro Cerezo. E é sobre o time de Genoa que falaremos hoje na nossa coluna.Para contarmos a história do título italiano da Samp em 90/91 e do vice da Champions na temporada seguinte, é necessário voltar um pouco no tempo, mais precisamente à temporada 86/87, quando o treinador Vujadin Boskov assumiu a equipe e também chegou um dos futuros pilares da equipe, o brasileiro Toninho Cerezo. Já na temporada de estreia, um honroso 6º lugar no Calcio. Na 87/88, o time terminou em 4º na tabela e ganhou a Copa da Itália – contra o Torino – além de ter enfiado 4×1 no Napoli, time que era o atual campeão italiano. O título da Copa da Itália dava à Sampdoria o direito de jogar a Cup Winners’ Cup na temporada seguinte.Na 88/89, terminou em 5º na Serie A, mas venceu a Copa Itália novamente e chegou à final da Cup Winners’ Cup, contra o Barcelona. Sem o italiano Vierchowod – principal zagueiro do time – a Samp foi presa fácil para o Barcelona, que venceu por 2×0. Na mesma temporada, surgiu outro dos pilares da equipe: o goleiro Pagliuca, que assumiu a titularidade da meta da equipe de Genoa.Para a disputa da temporada seguinte, a Sampdoria contratou dois jogadores que ficariam para sempre na memória da torcida e um deles em especial ficou na memória de todos os amantes por futebol: o iugoslavo Katanec e o italiano Lombardo, que entrou para a história por seu futebol e pelo seu, digamos, inusitado corte de cabelo. Juntos, ambos marcariam 10 gols já na sua temporada de estreia no Calcio (seis do Lombardo, 4 do Katanec), ficando atrás apenas da dupla Mancini e Vialli (11 e 10 respectivamente).

Na temporada seguinte (89/90) a equipe se mantém na parte de cima da tabela na disputa da Serie A, terminando em 5º. Mas o time celebra sua primeira – e até hoje única – conquista continental: após passar por Borussia Dortmund, Grasshopper e Monaco – entre outros – a equipe bate o Anderlecht por 2×0 e conquista o título da Cup Winners’ Cup. Para a disputa da 90/91, a Sampdoria contratou o ucraniano Mykhaylychenko (atual treinador do Dínamo de Kiev), um dos principais jogadores da extinta União Soviética e verdadeiro papa-títulos pelo Dínamo de Kiev. E a contratação mostrou-se acertada, já que Mykhaylychenko era um exímio criador de jogadas, tudo que faltava pra dupla Viali – Mancini.

O time tinha uma defesa fortíssima – comandada por Pagliuca e Vierchowod – um meio campo extremamente poderoso e dinâmico com o iugoslavo Katanec, o brasileiro Cerezo e o italiano Lombardi e um trio de ataque letal, formado por Mykhaylychenko, Vialli e Mancini. A Sampdoria então sobrou no Calcio, com apenas três derrotas (Genoa, Torino e Internazionale). Em casa, venceu Napoli (4×1), Internazionale (2×0), Juventus (1×0) e o Milan (2×0). Também venceu o Milan no San Siro, resultado fundamental para a conquista do Campeonato. Vialli terminou o Campeonato com 19 gols.

Para a disputa da 91/92, a Sampdoria perdeu Mykhaylychenko, que se transferiu para o Glasgow Rangers, para empilhar títulos na Escócia e se tornar um dos maiores jogadores da história do clube. Para o seu lugar, contratou o brasileiro Silas (ex-técnico do Avaí), que veio do Cesena. A Sampdoria tinha a Champions League para disputar e a maior competição de clubes da Europa tinha novidades: o mata-mata até a final não mais existia. Entravam em cena as fases preliminares e a fase de grupos.

Na fase preliminar, a Sampdoria passou sem problemas pelo Rosenborg (7×1 no agregado), mas teve dificuldades contra o Honved , quando perdeu o jogo de ida por 2×1, mas venceu a volta por 3×1. Na fase de grupos, um enorme desafio: o Estrela Vermelha, campeão da temporada anterior e que contava com os talentosíssimos Pancev, Jugovic e Savicevic, além de futuras lendas do Calcio, como Mihaijlovic.

E a estreia foi logo para mostrar as cartas: com gols de Vialli e Mancini, a Sampdoria venceu o Estrela Vermelha por 2×0, num enlouquecido Luigi Ferrari. Nas rodadas seguintes, empate com Panathinaikos e derrota contra o Anderlecht deixaram o grupo embolado, mas na estreia no returno uma vitória contra o Anderlecht deixou a equipe em boa situação novamente, apenas um ponto atrás do Estrela Vermelha.

Estava marcado para a rodada seguinte o confronto que decidiria um dos finalistas e o jogo seria fora de casa. Para a sorte da Sampdoria, o confronto estava marcado para a Bulgária, pois os clubes da Iugoslávia não podiam fazer partidas dentro do seu país, devido à guerra que destruiu o país e matou milhares de pessoas. A Sampdoria venceu por 3×1 e ficou a um ponto da vaga pra final. O ponto veio no último jogo em casa, num Luigi Ferrari lotado, contra o Panathinaikos. A Sampdoria estava na final da Liga dos Campeões.

O adversário da Sampdoria era ninguém menos que o Barcelona. A equipe treinada por Cruijff vinha de um título espanhol na temporada anterior e estava na disputa pelo bicampeonato (que mais tarde confirmaria). O time tinha como expoentes o holandês Koeman, os meias Guardiola e Laudrup e o atacante Stoichkov. A equipe jogava um futebol ofensivo, com constante troca de posições e a Sampdoria tinha um dos melhores ataques da competição, com 21 gols marcados (10 na fase de grupos, mesmo número do Barcelona). Promessa de grande jogo, que se confirmaria.

Mais de 70 mil pessoas compareceram ao Estádio de Wembley e viram um jogo que teve pelo menos cinco chances claras para cada time abrir o placar no tempo normal, até que num ataque do Barcelona, o juiz marca tiro livre indireto a favor do Barcelona. Stoichkov e Bakero ficaram um de cada lado da bola e Koeman preparado para o chute. O búlgaro rolou para o espanhol, que apenas pisou para o holandês encher o pé direito e acertar o canto direito de Pagliuca, que tinha dado um leve passo para o canto esquerdo e foi pego no contra pé. Fim de jogo e fim do sonho da Sampdoria. A equipe terminou o Calcio em 7º lugar, não disputaria nenhuma competição europeia na temporada seguinte e viu as saídas do treinador Vudajin Bosko, de Cerezo e Vialli.

A Sampdoria ainda faria uma grande campanha no Calcio dois anos depois, já sob o comando de Sven-Goran Eriksson e com um Gullit fazendo grande dupla com Mancini. Mas isso é assunto pra outra coluna. Até!

 

Igor Leal.

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