Cem anos de nanismo e mistificação

Para os amantes do futebol, é de conhecimento público que a América Latina, principalmente a do Sul, sempre se notabilizou por produzir grandes craques e esquadrões vencedores. Aqui no continente estão nove títulos mundiais, de um total de dezenove já disputados; aqui nasceram alguns dos maiores futebolistas da história: Pelé, Maradona, Messi, Ronaldo, Romário, Francescoli, entre vários outros. No entanto, se por um lado há forças tradicionalíssimas no esporte, como o pentacampeão Brasil e os bicampeões Uruguai e Argentina, há também muitos países de menor expressão, que não têm no futebol uma história tão cheia de glórias – ao contrário: para vários desses países, qualquer resultado positivo é surpreendente, qualquer vitória é suficiente para criar heróis e mitos.

Dentre todos os “nanicos” do futebol latinoamericano, um dos menos falados certamente é a seleção cubana (exceto quando algum atleta resolve abandonar a seleção e o país, o que invariavelmente vira notícia – e espetáculo – nos maiores veículos de mídia do Ocidente, mais do que qualquer resultado dentro do campo; isso será explicado posteriormente). Apesar de muitos acreditarem se tratar de um país sem tradição alguma no futebol, a história está aí para refutar a tese: em Cuba, o futebol recentemente completou um século. Em 1911 foi disputada a primeira partida de futebol no país, entre o Sport Club Hatuey, formado por cubanos e espanhóis, e o Rovers Athletic Club – que venceu por 1×0 -, escalado com jogadores britânicos e americanos. Desde então, o futebol foi deixado em segundo plano, sobretudo devido à enorrme popularidade do beisebol, considerado o esporte nacional da ilha. Entretanto, mesmo o incipiente desenvolvimento do esporte bretão no país não foi capaz de impedir a maior das glórias do país (e de todo o Caribe) nos campos de futebol do mundo.

O ano era 1938. A ocasião, a Copa do Mundo da França. Na cidade de Toulouse, em 9 de junho, a seleção cubana inaugurava a presença de países caribenhos em Mundiais. A adversária era a seleção romena. Pensava-se que os cubanos seriam presas fáceis para um país já com alguma tradição na prática do esporte, mas o que se viu em campo foi um empate em 3×3. Como o regulamento não permitia empates, o confronto ganhou uma partida de volta, surpreendentemente vencida, em 2×1 – de virada! -, pelos Leões do Caribe. O heroi da classificação foi o atacante Héctor Socorro, que marcou dois gols nas duas partidas. A vitória garantiu à equipe a vaga para as quartas de final, fase em que foi eliminada pela Suécia em uma inapelável derrota por 8×0. A seleção terminou a competição em 8º lugar, mas a história já tinha sido feita: a campanha cubana ainda hoje é a melhor de um país caribenho na história. Considerando a América Central como um todo, o desempenho da seleção cubana só conseguiu ser igualado pelo México quando teve a oportunidade de jogar em casa, nos Mundiais de 70 e 86.

Além deste enorme feito no cenário global do futebol, Cuba tem ainda alguns bons resultados em âmbito regional, sem entretanto ter conquistado qualquer título: o país foi medalhista em três Jogos Panamericanos (prata em 79 e bronze em 71 e 91) e vice-campeão em quatro Copas do Caribe (96, 99, 2003 e 2005). A dificuldade do país em se consolidar no esporte passa por diversos fatores, principalmente políticos – tanto endógenos quanto exógenos. Na próxima parte da reportagem, continuaremos a discussão sobre o futebol cubano e os obstáculos que impedem seu desenvolvimento.

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Jornalista recifense, sócio-diretor do Doentes por Futebol, editor da Revista Febre. Curioso observador de tudo o que cerca o futebol brasileiro e internacional.

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