Futebol e socialismo: em Cuba, rompimento sem volta

  • por Felippe Garcia
  • 9 Anos atrás

Por Pedro Galindo

Ao longo das últimas três décadas, os fãs do futebol acompanharam a transformação do esporte: seu caráter amador e lúdico ficou para trás, dando lugar a um negócio que move vultosas quantias de dinheiro. Se antes o amadorismo dava ensejo a um equilíbrio maior, permitindo que troféus e conquistas acontecessem a um número maior de clubes, hoje o que se vê é que as glórias viraram rotina na vida de algumas poucas agremiações, enquanto a vasta maioria deles a cada dia se aproxima de um ocaso triste e que, ao que tudo indica, tende a se acentuar. São as consequências da expansão capitalista no futebol, que tornou o esporte (de alto nível) refém de patrocinadores e receitas que, obviamente, não estão ao alcance de todos. Nesse contexto, fica fácil entender como se deu o processo que transformou o socialismo cubano, responsável por tantas medalhas olímpicas, em um dos principais obstáculos ao desenvolvimento do futebol – o mais capitalista dos esportes – no país.

Depois do grande sucesso que foi a participação cubana na Copa de 1938, contado na primeira parte da reportagem, o cenário parecia ser animador para o crescimento do futebol nacional: o esporte era bastante popular entre a elite hispânica, remanescente do período colonial (que durou até 1898). E assim perameneceu até que, em 1º de janeiro de 1959, consolidou-se a Revolução que mudaria definitivamente a história do país. Fidel Castro assumiu o poder com massivo apoio de um povo cansado de governos corruptos e subservientes à pauta comercial da economia norte-americana. No mesmo dia, o ex-ditador Fulgencio Batista, acompanhado de centenas de cubanos ricos – latifundiários, empresários e demais ligados ao ‘establishment’ -, partiram com direção aos EUA, literalmente fugindo do furor revolucionário que havia tomado a população de todo o país.

Fidel, no entanto, ascendeu ao poder com um discurso conciliador, típico de um lider político que havia feito triunfar uma revolução não apenas com armas, mas com ideais e sobretudo com um necessário apoio institucional de partidos e sindicatos legalizados. Prudente, se mostrou aberto ao diálogo com todas as camadas sociais e até mesmo com os EUA, que se recusaram a aceitar a queda do antigo aliado Batista. Para tentar reverter a situação, tomaram duas iniciativas: em uma frente, passaram a fomentar a oposição armada no país; na outra, adotaram políticas de Estado no sentido de sufocar a economia nacional cubana: o famoso – e mistificado – embargo. Logo surgiram alguns focos de luta contrarrevolucionária, financiada por latifundiários, empresários e demais cubanos e americanos interessados (economicamente) em derrubar a Revolução. Fidel tratou de estrangular, com enorme e decidido apoio popular, o movimento oposicionista, através de uma reforma agrária radical que, dividida em três etapas, condicionou novas “diásporas” de cubanos burgueses rumo à Flórida.

Com o decorrer dos anos 60 e a conclusão de algumas reformas estruturais, entre elas a agrária, a camada rica da população foi praticamente erradicada e a Revolução assumiu um caráter definitivamente socialista. E com a partida da elite hispânica, o futebol cubano sofreu um duro golpe: foram-se também os principais entusiastas do futebol local.Desde então, o beisebol consolidou-se definitivamente como o esporte nacional dos cubanos. Entretanto, o forte apelo do esporte entre a população (além do gosto pelo esporte que boa parte da cúpula revolucionária nutre) ensejou um direcionamento de recursos, por parte do governo, que fortaleceu bastante o desporto e condicionou o surgimento de grandes jogadores no país. No entanto, o principal prejudicado com esse direcionamento foi o futebol nacional, que, negligenciado economicamente, apenas assistiu ao crescimento do esporte em países vizinhos.

Isso provocou uma situação de completo ocaso do futebol. De um país que brigava por títulos nas competições locais, Cuba passou a ser discreto coadjuvante dentro das quatro linhas. Conquistou duas medalhas em torneios panamericanos (uma delas, de bronze, em casa) e jamais conseguiu ir a outra Copa do Mundo. No entanto, passou a ter um sórdido destaque nos noticiários: diante do bloqueio econômico que endureceu e até hoje persiste, houve alguns casos de “deserção” de atletas cubanos – de todas as modalidades – que aproveitam a realização de grandes eventos esportivos para sair do país e não voltar. No futebol, não foi diferente. A consolidação da Liga Mexicana de futebol e da MLS, dos EUA, como campeonatos economicamente fortes, tornou ainda mais gritante a falta de incentivo do governo cubano ao esporte, o que também tem motivado algumas partidas de atletas. Vale ressaltar, entretanto, que esse número é estatisticamente risível, primeiramente pela baixa qualidade do futebol local, e em segundo lugar, pelo fervor revolucionário, ainda muito presente na maioria absoluta da população – e dos futebolistas.

Por isso, equivoca-se quem pensa que a “fuga” desses atletas é sempre motivada por alguma espécie de discordância política ou restrição à liberdade. Os principais motivos dessas “deserções”, no mais das vezes, são os mesmos que fazem milhares de famílias, dos mais diversos países, migrarem rumo aos países ricos: pobreza e falta de oportunidade. E o futebol, como se sabe, representa também uma grandiosa oportunidade econômica aos seus praticantes. Além disso, foge-se também de um futebol de estrutura precária, que não dá as condições ideais para o desenvolvimento dos atletas e do esporte no país. Portanto, as “deserções” de atletas cubanos são, na maioria das vezes, atos tão políticos quanto a saída de Oscar para o Chelsea ou a de Lucas para o PSG: ou seja, apenas uma busca por melhores condições esportivas e econômicas.

Apesar de todos esses obstáculos, o futebol cubano continua de pé. E surpreendentemente, vem conseguindo alguns bons resultados na última década: nos últimos 20 anos, conseguiu quatro vice-campeonatos da Copa do Caribe, apesar de ainda ter ido muito mal na disputa das Eliminatórias. Isso se deve, em primeiro grau, à extrema popularização que o esporte atingiu na ilha. Liga dos Campeões, grandes ligas europeias e craques como Messi e Cristiano Ronaldo são, hoje, assuntos corriqueiros nos jornais do país. Em segundo lugar, deve-se também à correção de um erro histórico: o governo cubano, percebendo o potencial educativo e, por que não, nacionalista do esporte, resolveu aumentar os investimentos no futebol, a fim de melhorar suas condições de prática e possibilitar o fortalecimento de sua seleção nacional. O caráter amador do futebol cubano é certamente um fator que tira muito de sua competitividade, além de todos os obstáculos exógenos. Mas certamente não pode ser desprezado o potencial um povo que tanto resistiu e conquistou ao longo de sua história.

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Publicitário apaixonado por esporte. Fundador do projeto Doentes por Futebol.